Visita guiada a Serralves pelo seu novo director, João Ribas

A identidade dos museus, a postura do público ou as diferenças de espaços foram alguns dos tópicos abordados num exercício simultâneo de visita, entrevista e reflexão proposto pelo entrevistado.

João Ribas Serralves

Foi em jeito de visita guiada à exposição Zéro de Conduite, que ocupa uma das salas de Serralves, que estruturámos a conversa com João Ribas, o recém-eleito director do museu. Aos 39 anos e com uma longa passagem pelos Estados Unidos, onde estudou Estudos Culturais e Filosofia e trabalhou como crítico e curador (nomeadamente no MIT List Visual Arts Center), João Ribas chegou ao principal cargo de direcção do museu em Janeiro, depois de 4 anos como adjunto de Suzanne Cotter. As diferenças do rumo no Museu sob sua liderança podem não ser substanciais, mas quisemos ouvir mais sobre a visão do crítico e curador sobre o espaço do museu e o ‘estado da arte’, literal e figurativamente.

“No filme de 1933 de Jean Vigo, Zéro de Conduite, os alunos de um colégio repressivo revoltam-se contras as rígidas regras impostas pelos seus professores tirânicos” – é o mote primeira exposição com a sua curadoria, no tempo da sua direcção e que desperta desde logo a curiosidade.

A conversa começou pela contextualização geral da exposição acabou em reflexões sobre conceitos mais vagos mas não menos importantes despoletadas pela relação de ideias e conceitos que se sobrepõe e intersectam no espaço de um museu e no pensamento e organização de uma exposição. A identidade dos museus, a postura do público ou as diferenças de espaços foram alguns dos tópicos abordados num exercício simultâneo de visita, entrevista e reflexão.

Pormenores mais detalhados, o nome das obras e a sua contextualização exaustiva estão disponíveis no roteiro da exposição que se encontra online, servindo esta conversa como contextualização de uma visão mais ampla que vai guiar os próximos quatro anos de Serralves.

Fale-nos desta exposição…

[João Ribas] Quanto à exposição, é uma tentativa de fazer duas coisas ao mesmo tempo: De ver o que o museu reprime enquanto estrutura, em si – comportamento, temas desafiantes, objectos indesejáveis, posturas transgressivas, etc e o que este museu especificamente reprime – em termos de conteúdos e da sua colecção; e explorar a ideia da repressão em geral.

A ideia é olhar para casos em que há uma tensão entre o espaço liberdade – e/ou liberdade de expressão – e elementos ou estruturas de repressão. Do mais básico: o museu em si que é uma entidade que está focada à partida na liberdade de expressão e que tem obviamente processos de repressão ou normalização – do bom gosto, do corpo; a escola, a praça pública e a estrutura da família.

O início da exposição é sobre a própria estrutura do museu com este ensaio sobre a visita ao museu, A Brief History of Jimmie Johnson’s Legacy (2007, Mario Garcia Torres), e depois vai desenvolver uma série de argumentos nos espaços: no corredor é o espaço da escola: ou a figura da liberdade de expressão e repressão em termos da escola, da figura do professor, da autoridade; o espaço público como um espaço de resistência, no contexto contemporâneo, de tensões ou conflitos entre essa resistência social, a função dos artistas e o cidadão.

Como este graffiti, por exemplo, de uma revisão dos três valores, das três condições que criam o imaginário político da Europa que neste momento está a ser questionado, penso eu – com a nossa Beyoncé, Hannah Wilke, é por isso que está ali o vídeo.

A peça do Pierre Huyghe remete um bocadinho à responsabilidade individual e esta alteração que há agora com posições neoliberais em que o cidadão começa a ter responsabilidade por coisas que eram a cargo do estado.

Serão anos de constante questão para o próprio museu?

[João Ribas] Isso é evidente. Não podemos ter uma atenção aos conteúdos do século XXI e as suas realidades e a arte actual com uma abordagem novecentista, não faz sentido. Tem de haver uma aproximação da experiência com os conteúdos.

Esta ala também remete para a realidade pós-crash: a questão da autonomia política, o legado de 68, a criminalidade, a apropriação cultural, novos modelos económicos, a figura de resistência individual e colectiva, e, podemos dizer tendências de irreverência, de resistência, de mau comportamento, desobediência, deliquência e criminalidade, bastante ligadas ao nosso país.

Esta parte da exposição que é talvez a mais emblemática [revelam-se enormes grades que criam divisórias na sala] começa com este apontamento do legado da promessa da União Europeia e que ao mesmo tempo quebra uma das regras museológicas: poder pisar uma obra de arte, uma obra do Antoni Muntadas.

4×4 é o tamanho mínimo recomendado pelas organizações direitos humanos para uma cela de prisão – isto é o mínimo recomendado; queria ter esta tensão entre o espaço de restrição, com o movimento livre na União Europeia.

Cada cela tem uma espécie de temática e ao mesmo tempo reverte às reservas do museu – isto é mais próximo de reserva do que espaço expositivo. É uma espécie de colagem no espaço, há relações dentro de cada cela E em cada uma delas há relação com obras que estejam noutras; e traz um elemento muito particular que é o objecto museológico em si, temos a face da obra para o visitante e temos as costas da obra que é a parte museológica com toda a informação – conseguimos ver uma parte das obras que nunca é exposta.

Depois os temas abordados têm a ver com a transgressão do comportamento: artistas que conseguiram expandir o que é a arte, as posturas dos artistas e uma certa relação com estas entidades. Seja a forma como o cidadão é reduzido a medidas ou a controlo – em particular o corpo feminino: o corpo feminino é o mal comportado que não entra propriamente nos registos da heteronormatividade. Aliás a melhor maneira de desenvolver uma sociedade, uma empresa, seja o que for, é dar mais liberdade Às mulheres e aí há um conflito que é, as mulheres, em quase todas as partes do mundo ainda terem que lutar para poder controlar o seu próprio corpo. Essa tensão está presente nestas fotografias do David Goldblatt tiradas do período de Apartheid na África do Sul em que conseguimos ver a tensão social que se manifesta ao nível corporal. A fotografia do Danh Võ quando fugiu do Vietnam como refugiado para a Europa, representa uma parte da nossa identidade que neste momento é bastante complexa.

Esta parte da exposição e mesmo a questão da cela, parecem vir em sequência das recentes notícias sobre por exemplo as celas de retenção de crianças na fronteira, ainda que a exposição seja anterior.

A questão aqui é que uma colecção tem várias histórias para contar e tem de ser activada. Tem de ser constantemente activada e não é só na actualidade – a obra da Emily Jacir são as partes de uma revista Vogue que tem de ser censuradas para a revista entrar em certos países mas temos reflexões sobre estruturas mais básicas de reflexão, como por exemplo o ego, aqui com o Matt Mullican a ser hipnotizado e a manifestar partes da sua personalidade não mediadas, um clássico da transgressão como a merda de artista.

É importante também ver a exposição um bocadinho a brincar com o conceito do que é aceitável, da normalização do bom gosto que é uma das funções do museu. Queremos contrariar isso, destabilizar essas questões e destabilizar o que está a fundamentar essas questões. Isso tem a ver com preconceitos do que é a arte e até de certa forma uma normalização das práticas e figuras.

Por exemplo o caso da Paula Rego, que é uma artista conceituada que toda a gente acha que conhece e que continua a extremamente radical. Não nos podemos habituar à obra dela, é transgressora, sempre. É isso que também queremos representar e é por isso que tem um espaço central.

Há uma reorientação não só do que pode ser constituinte de uma obra de arte em posições de transgressão, o que o artista não gostou de mostrar mas também uma reorientação retórica e dar um bocadinho de prazer ou lazer ao visitante – este é exactamente a intenção [uma criança a brincar com duas almofadas parte da exposição], as almofadas são da Ana Jotta.

Neste lado temos um questionamento do museu enquanto estrutura, em três expressões. A peça das Guerrilla Girls, uma crítica à nossa própria coleçcão, este quadro do Wilhelm Sasnal, chamado ‘O Director’ e a posição do coleccionador.

Há uma coisa importante aqui, uma relação espacial. Há uma relação entre este casal em primeiro plano e os casais lá de trás que vês pelas grades. A exposição é feita assim.

Tínhamos também a ideia em termos de comportamento de trazer estruturas museológicas ou outras formas de experienciar o dever. Neste caso este peep hole não é para ver, é para ouvir e que remete para uma estrutura que.. se calhar não tem de se explicar.

Várias abordagens de comportamento. Por exemplo, este acto que foi alguém escrever dezenas de vezes a palavra merda na estrada de Benfica, o Alexandre Estrela fotografou e fez uma peça de vídeo. Ou uma peça da Adrian Piper que está neste momento num período de jejum, a fazer ioga e a registar as transformações do seu corpo.

Já o corredor, representa este universo escolar, da infância e da memória, uma espécie de estrutura de repressão à própria memória e uma certa relação histórica. Por exemplo, este momento relacionado com o Aniki Bobó, isto é o guião censurado o que o torna uma espécie de duplo objecto. O Aniki Bobó em si que é um filme sobre a relação das crianças com o mundo adulto, com a figura do professor, do polícia, a ideia de consciência moralista e ética face a uma certa anarquia das crianças e o objecto em si da censura. Mas também a ideia do quotidiano que a qualquer altura se pode tornar violento. Só não vou abrir porque ainda fico sem um dedo.

Então quem tem de sair mais da zona de conforto acaba por ser o próprio visitante…

[João Ribas] A ideia é essa mas também deve ser uma forma de pensar no espaço e que as obras tenham estas dimensões e este potencial. O importante é perceber o seu contexto, como é que as obras se relacionam umas com as outras. Respeitar a individualidade e o universo que elas implicam mas pô-las em diálogo, ver quais são as histórias que elas podem contar a partir das obras do museu. É esse trabalho de uma colecção. Neste caso com quase 70 artistas, portugueses e estrangeiros, fazer essa relação, às vezes até com várias gerações.. Esta é talvez a exposição há um  argumento mais explicito de pensamento curatorial; isto segue outra exposição que fiz da colecção há uns anos,  ‘Pode o museu ser um jardim’, que pensava a relação do museu com o jardim e o museu como uma paisagem – como se as obras fossem uma representação da natureza que era uma vertente que estava presente na nossa colecção sem nunca ter sido trabalhava.

Esta é a exposição mais conceptual…

[João Ribas] É a que se relaciona mais com projecto museológico, com a experiência do museu em si; Não é só escolha do artista.

Tem a dimensão pedagógica mas pode ter um papel social, dando espaço à transgressão, podendo legitimá-la…

[João Ribas] Não sei se é legitimar, é tentar explorar de certa forma e tentar perceber esta questão que é fundamental hoje em dia por razões que não têm a ver com a nossa colecção nem com a arte contemporânea mas tem a ver com o tempo em que vivemos. Sejam as patologias de fechamento actuais, seja o Brexit, as fronteiras, a censura; Seja o fenómenos dos últimos 5 anos em que há cada vez mais artistas reprimidos e presos ou obras de arte vandalizadas ou censuradas – o caso do Kapoor em Versailles é notável. É tentar perceber como a colecção se pode relacionar com esta questão.

Foi a partir daqui, e já sentados no café de Serralves ,que a conversa evoluiu, afastando-se do referencial concreto de cada obra exposta ou da exposição como um todo e enveredando por reflexões mais abstractas. Uma entusiástica conversa sobre o estado da arte, o papel dos museus e a figura do visitante nos complexos tempos em que vivemos. Para ler, em breve, no Shifter.