Inverão ou Verno: o tempo atípico em Portugal e no mundo

Incêndios na Suécia e ondas de calor nas ilhas britânicas. Chuva e tempo fresco em Portugal.

O verão de 2018 tem sido diferente do usual. Com um tempo ameno e chuvas ocasionais em Portugal, o típico turista britânico optará por ficar em casa e aproveitar a onda de calor nas praias do seu país. O número reduzido de incêndios no território português também contrasta com os hectares de florestas ardidas na Suécia.

Os incêndios também dominaram os arredores de Atenas, Grécia. Na província de Uargla, Argélia, os termómetros atingiram os 51,3ºC, uma das temperaturas mais elevadas registadas em todo o continente africano. Nas ilhas japonesas, a vaga de calor acima dos 30ºC é uma novidade absoluta no país nipónico desde que existe registo. Afinal, o que se passa com o clima mundial?

Os ingleses roubaram o calor algarvio

O Mediterrâneo é um dos destinos preferidos dos turistas britânicos nos últimos anos. Portugal, e nomeadamente o Algarve, afigura entre Itália, França, Espanha e Grécia como os principais destinos de férias da população de terras de sua majestade, segundo o The Economist (dados de 2016).

Contudo, o calor mediterrânico que os turistas britânicos normalmente procuram assola atualmente a Grã-Bretanha. Há mais de um mês que o país vive uma onda de calor“quando a temperatura máxima de 5 ou mais dias consecutivos excede a temperatura máxima média (registada no período entre 1961 e 1990) em 5ºC”, diz a Organização Meteorológica Mundial (OMM).

Hoje, Heathrow (Londres) registou 35ºC, no que foi considerado o dia mais quente do ano no país até ao agora. Apesar de não se equiparar ao máximo registado em 2003 – 38,5ºC, em Faversham -, o Met Office (estação meteorológica britânica) coloca o país num alerta de nível 3. O nível 4 é capaz de causar problemas doe saúde a pessoas consideradas fisicamente saudáveis.

Contudo, esta onda de calor não mostra sinais de abrandamento, prevendo-se temperaturas elevadas – a rondar os 35ºC – para o final desta semana. Em diversas localidades britânicas cujos termómetros ultrapassaram os 30ºC, as estradas alcatroadas mostraram evidências de derretimento. Num país em que a temperatura média no verão costuma rondar os 20ºC, a que se devem estas ondas de calor?

Sandra Correia, meteorologista do Instituto Português do Mar e da Atmosfera, explicou, em declarações ao jornal Público, que “essa onde de calor no norte da Europa tem a ver com os centros de ação (anticiclones ou depressões) e com a sua localização”. O setentrião europeu encontra-se sob um anticiclone, um centro de altas pressões que permite um tempo essencialmente seco. Além disso, as correntes de jato do oceano Atlântico Norte apresentam-se mais quentes no verão e com um desvio este ano, nomeadamente para o norte da Europa. A sua corrente lenta também contribui para a intensidade contínua e longa do anticiclone.

“O aumento da temperatura global significa que a probabilidade de uma onda de calor severa também aumentará”, afere Len Shaffrey, climatólogo da Universidade de Reading.

Grahame Madge, porta-voz do Met Office, refere ser uma questão de variabilidade do tempo: “sempre tivemos ondas de calor e sempre teremos. Com o Reino Unido numa zona temperada, obtemos uma variedade de tipos de tempo diferentes e a variabilidade natural do nosso clima é normal”.

Len Shaffrey, professor de climatologia da Universidade de Reading, não estabelece uma causalidade direta entre as ondas de calor e as alterações climáticas, mas afere que “o aumento da temperatura global significa que a probabilidade de uma onda de calor severa também aumentará”. Já Peter Stott, investigador no Met Office, explicou ao jornal The Guardian que a onda de calor nos vários continentes apresenta um “padrão que não seria possível sem as alterações climáticas”.

Incêndios no Círculo Polar Ártico

O anticiclone no norte europeu oferece um clima similar ao mediterrânico a Reino Unido, Suécia, Noruega ou Finlândia, por exemplo. Contudo, a par do calor, também aparece a seca e, numa última instância, incêndios.

20 mil hectares. 200 quilómetros quadrados, uma área equivalente a duas Lisboas. Foi a totalidade de floresta ardida até ao momento na Suécia, o que ultrapassa o incêndio registado em Västmanland, em 2014. Na altura, os 15 mil hectares afetados pelas chamas corporizavam o maior incêndio no país em décadas.

“Quatro dos incêndios são considerados bastante sérios; cresceram de tal tamanho que não é possível apagá-los de momento”, refere Marcus Årskog, porta-voz da Agência de Contingência Civil sueca.

De acordo com os dados do Sistema de Informação de Fogos Florestais Europeu (EFFIS), os 20 mil hectares de área ardida até ao momento contrastam com a média de 448 hectares, entre 2008 e 2017.  Na passada sexta-feira, encontravam-se mais de 60 fogos ativos por todo o território do país escandinavo, valores díspares comparando com a média de 3 incêndios no mesmo período de 10 anos.

Quatro das áreas afetadas – Fågelsjö/Lillåsen, Kårböle, Trängslet e Brattsjö – foram dominadas por fogos que a Agência de Contingência Civil sueca considera serem “demasiado grandes para serem extintos”. “Quatro dos incêndios são considerados bastante sérios; cresceram de tal tamanho que não é possível apagá-los de momento”, afirma Marcus Årskog. O porta-voz da Agência de Contingência Civil diz que uma das possibilidades é “limitá-los [incêndios] para que não se propaguem para aldeias ou zonas habitadas”.

“Quando estes ecossistemas com elevada densidade de carbono experienciam um clima árido e calor e existe uma fonte de ignição – relâmpago ou fogo posto – os incêndios acontecem”, diz Vincent Gauci, professor na Open University.

Neste momento, já foram evacuadas cerca de 500 pessoas das localidades afetadas pelas chamas, assim como se encontram mais de um milhar de bombeiros no combate às chamas. Ainda assim, a Suécia carece de meios de combate eficientes. Além dos bombeiros, as forças armadas suecas e voluntários civis também participam no auxílio. O apoio internacional, nomeadamente europeu, também começa a chegar: Itália, França, Noruega, Polónia, Alemanha e também Portugal enviaram bombeiros, helicópteros e aviões bombardeiros.

Vincent Gauci, professor na Open University (Reino Unido), afirma que estes incêndios resultam da mudança de clima experienciada no norte da Europa: “estas áreas são tipicamente moderadas e húmidas, o que permite às florestas armazenar grandes quantidades de carbono. Quando estes ecossistemas com elevada densidade de carbono experienciam um clima árido e calor e existe uma fonte de ignição – relâmpago ou fogo posto – os incêndios acontecem”.

O rei sueco, Carlos XVI, já demonstrou estar “preocupado” em relação à época de incêndios a que o país está sujeito atualmente e endereçou um “obrigado” a “todo o pessoal que nesta situação difícil tem feito grandes sacrifícios”. “O vosso compromisso e esforços são inestimáveis”, realçou o monarca.

Os incêndios têm assolado o norte e centro do país, mas a agência de meteorologia nacional sueca (SMHI) prevê um “extremo risco” de incêndios no sul do território escandinavo a partir de sexta-feira. Entretanto, o governo sueco já reuniu o conselho de gestão de crises para delinear o plano de combate aos incêndios ainda ativos.

Grécia e as chamas hercúleas

“É um inferno negro”. Assim descreve Kostas Koukoumakas, jornalista da Vice Grécia, o cenário que presenciou em Mati. A cerca de 40 km de Atenas, a estância balnear foi um dos locais mais afetados pelas chamas, a par de Kineta e Nea Makri. Ao todo, são contabilizadas neste momento 81 vítimas mortais e 187 feridos, dos quais 23 são crianças. Mais de 1.500 casas foram afetadas pelo incêndio, assim como mais de uma centena de pessoas são dadas como desaparecidas.

Em Mati, as vítimas foram encurraladas pelas chamas em suas casas e nos automóveis. Inanis Artopius, comandante dos bombeiros de Atenas, confirmou à agência Lusa que muitas das vítimas morreram a partir da inalação do fumo. “Ao fim de três inspirações, as pessoas ficam em dificuldade”, afirmou o major do 9º regimento de bombeiros atenienses.

A Cruz Vermelha grega informou que, “infelizmente”, entre as 81 vítimas mortais, foram encontrados 26 corpos carbonizados em Mati. Nikos Economopoulos, presidente da instituição, mostrou-se “chocado” com as fotografias que mostravam “26 pessoas num campo situado a 30 metros da praia”. Em declarações à televisão grega Skai, o responsável afirmou que as pessoas procuraram uma “rota de fuga”, mas que “infelizmente não conseguiram encontrá-la a tempo”.

Segundo o The Guardian, as vítimas carbonizadas encontravam-se “agarradas umas às outras, de forma firme”, ao que o El País acrescentou estarem “abraçadas”.

Ainda assim, houve quem escapasse. Kostas Laganos, um dos sobreviventes, fugiu em direção ao mar: “Felizmente o mar estava ali e fomos para o mar, porque as chamas perseguiam-nos até à água. As chamas queimaram-nos as costas mas mergulhámos para o mar… Disse: meu Deus, temos de correr para nos salvarmos”, disse à BBC.

Niko Stravrinidis, outro dos sobreviventes, relatou o que viveu à Associated Press: “O que me chateia e que levarei para sempre no meu coração é a sensação terrível de ver a pessoa que está ao lado afogar-se e não ser capaz de a ajudar. Não conseguir. Isso é a única coisa trágica — ficará comigo para sempre”. Apesar de terem escapado às chamas, residentes e turistas acabaram por morrer afogados.

As chamas alastraram cerca de 2.100 hectares, naquele que é o pior incêndio na Grécia dos últimos dez anos. O vento forte e a rapidez com que as chamas se propagaram obrigaram ainda ao corte de 17 km de autoestrada, entre Atenas e Peloponeso.

O primeiro foco de incêndio terá surgido perto de Kineta. As elevadas temperaturas, por vezes a superarem os 40ºC, o vento forte e a vegetação densa na região de Mati facilitaram a propagação das chamas ao longo da região de Rafina-Pikermi. Contudo, não se afasta a hipótese de fogo posto, uma vez que se detetou o início, em simultâneo, de 15 focos de incêndio. O porta-voz do governo grego afirma que esta “atividade suspeita” está a ser averiguada.

O primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, já declarou 3 dias de luto nacional pelas 81 vítimas mortais, número que poderá aumentar, segundo a incerteza quanto à totalidade de desaparecidos dado pelos bombeiros locais. As autoridades ainda têm de averiguar mil casas afetadas pelas chamas.

Entretanto, o incêndio já foi extinto, graças também ao auxílio internacional do Chipre, Espanha, Alemanha, Itália, Polónia, França e Portugal. Segundo a Proteção Civil grega, a previsão de chuva intensa e tempestade nos próximos dias poderá ajudar a prevenir qualquer reacendimento.

Contudo, o jornal Ekathimerini revela que o procurador do supremo tribunal de justiça grego, Xeni Dimitriou, aponta o dedo ao Estado. Segundo vários testemunhos locais, a resposta das autoridades no combate às chamas e no auxílio às populações foi lenta e desorganizada. Além disso, a falta de um plano de emergência e de recursos humanos também foram outras das falhas apontadas ao Estado helénico.

O Inverão português

No nosso caso, verifica-se o oposto de 2017. A vaga de incêndios e o calor extremo do ano passado deram lugar um clima ameno, poucos incêndios e precipitação ocasional. O presente mês de julho é o mais frio dos últimos 30 anos em Portugal. O “culpado” é o anticiclone dos Açores.

Actualmente, o anticiclone, dinâmico a nível espacial, encontra-se mais deslocado para oeste do que o normal, o que “permite que outras depressões se aproximem e que (…) tenhamos alguma precipitação e que haja uma persistência de mais dias com nebulosidade baixa e chuviscos”, explica Sandra Correia. A meteorologista do Instituto Português do Mar e da Atmosfera, em declarações ao Público, prevê ainda que este verão “mais fresco” e com “temperaturas abaixo da média” se prolongue no próximo mês de agosto.

“Não se pode individualizar cada uma destas situações e falar de alterações climáticas, mas quando se olha para todas em conjunto, as campainhas soam”, diz Francisco Ferreira, professor e investigador da Universidade Nova de Lisboa.

O papel das alterações climáticas nas condições atmosféricas pouco usuais na Europa e no mundo não é consensual entre os investigadores. Em termos científicos, as alterações climáticas só poderão ser constatadas após resultados num período de 30 anos. Nesta linha de raciocínio, Filipe Duarte Santos disse à agência Lusa que, neste curto período de tempo, estas consequências devem ser designadas por “variações climáticas”.

O professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa constata que o verão atual “é muito diferente” dos anteriores, mas que “não significa por si só uma mudança climática”, considerando que as condições meteorológicas do momento são “positivas para a floresta portuguesa a curto prazo”, após “ondas de calor e a seca muito prolongada que afetou Portugal em 2016 e 2017”.

Francisco Ferreira, professor e investigador da Universidade Nova de Lisboa, afirma que, a nível mundial, é possível verificar um padrão: “Não se pode individualizar cada uma destas situações e falar de alterações climáticas, mas quando se olha para todas em conjunto, as campainhas soam”.

As consequências das alterações climáticas também são visíveis para Ricardo Trigo. Climatólogo do Instituto Dom Luiz, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, afirma que “sempre houve” ondas de calor e secas, mas que a sua “maior frequência e magnitude é compatível com aquilo que os modelos indicam com grande fiabilidade nos últimos dez anos”.