A história nuclear. Como tudo começou, há 73 anos

Nove potências nucleares, 2056 testes bem-sucedidos, mais de 200 mil mortos e feridos e 14 mil ogivas nucleares. Um retrato daquilo que aconteceu e daquilo que existe na história do poderio nuclear.

Ilustração: Ricardo Santos

6 e 9 de Agosto de 1945. Foram estas as datas que marcaram o início da história do poderio nuclear. Já com a rendição da Alemanha, os EUA procedem ao lançamento de uma bomba atómica de urânio, conhecida como “Little Boy”, sobre Hiroshima, no Japão. Três dias depois, é a vez de “Fat Boy”, uma bomba nuclear de plutónio explodir em Nagasaki. Ao todo, mais de 200 mil mortos.

Mas não foram estas as datas que iniciaram a história nuclear. O primeiro teste, feito pelos EUA, apelidado “Experiência Trinity”, ocorreu a 16 de Julho de 1945, em Alamogordo, no Novo México. Uma explosão que teve um alcance de, aproximadamente, 12 mil km de altura, 10 mil vezes mais quente que a superfície do sol. A 16 km de distância do ponto zero era possível sentir a onda de calor que se seguiu e que provocou, segundo algumas testemunhas, a sensação de estar mesmo em frente a um incêndio. Uma experiência ao abrigo do Projecto Manhattan, comandado militarmente por Leslie Groves e dirigido pelo cientista Robert Oppenheimer. Assim que os efeitos desta explosão foram sentidos e analisados, o director da “Experiência Trinity”, Kenneth Bainbridge, terá dito: “Agora, somos todos uns filhos-da-mãe”.

Às 05h30, naquela segunda-feira, os EUA deram início a uma série de testes nucleares, seis no total, até 1948, ainda com o título de única potência nuclear. Em 1949, entra para o quadro uma nova nação, a então União Soviética, com um ensaio bem-sucedido, que testou a bomba RDS-1, um dispositivo com uma potência semelhante à “Fat Man”. A busca pelo poderio nuclear foi, sem dúvida para os historiadores, um dos maiores assuntos que intensificou a tensão e as acções de espionagem entre a URSS e os EUA.

Hoje existem oito nações que já procederam à detonação de bombas nucleares: EUA, Rússia, Reino Unido, França, China, Índia, Paquistão e Coreia do Norte. De 1945 a 2017, a Arms Control Association registou um total de 2056 testes nucleares levados a cabo pelos oito países mencionados. Lop Nor (China), Nevada (EUA), Argélia (sob controlo da França, em 1960), ilhas Montebello, Maralinga e campos Emu (Austrália, sob controlo do Reino Unido, em 1952), Semipalatinsk (Cazaquistão), Deserto Sahara (sob comando da França, em 1960), Novaya Zemlya (Rússia), deserto Rajasthen (Índia) e oceano Pacífico foram alguns dos sítios onde as mais de 2000 explosões se fizeram sentir. Tratam-se de territórios onde se situam tribos indígenas ou sítios afastados das capitais onde o Governo mandatário se localiza.

Dos 2056 testes nucleares registados, 1030 foram feitos pelos EUA. Segue-se a URSS/Rússia com 715, a França (210), o Reino Unido e a China (45, cada), a Coreia do Norte (6), a Índia (3) e o Paquistão (2).

Com os primeiros ataques nucleares a Hiroshima e Nagasaki, a urgência do pensamento de que as armas nucleares seriam uma tragédia para todas as nações fez com que a recém-formada Organização das Nações Unidas (ONU) pedisse fossem eliminadas por completo, na sua primeira resolução, a 24 de Janeiro de 1946. Mas nem esta resolução, nem o manifesto Russel-Einstein (de 1955), nem tão pouco um rally composto por um milhão de pessoas, que se juntaram no centro de Nova Iorque, em Junho de 1982, a favor do desarmamento nuclear, conseguiram travar a entrada das outras sete nações para o título de potência nuclear.

Sem revelar números, a ICAN – Campanha Internacional para a Abolição de Armas Nucleares assegura ainda que, para além das nove nações detentoras de arsenal nuclear, há também outros países que servem com uma espécie de guardiões de material nuclear pertencente aos Estados Unidos e que, inclusive, recebem treino para saber como o usar. São eles: a Bélgica, a Holanda, a Tunísia, a Alemanha e a Itália.

O antes e o agora

Apesar de os EUA terem sido a nação pioneira na história nuclear, deixa de fazer testes nucleares em 1992, e com o Tratado de Interdição Completa de Ensaios Nucleares (CTBT), que assina a 24 Setembro de 1996, juntamente com a França, o Reino Unido e a China, afirma a sua vontade em não voltar a fazê-lo.

Mas existe ainda um conjunto de países que não assinaram o tratado, entre eles, Índia, Paquistão e Coreia do Norte, e que continuam nesta posição até hoje. É com estes três países que as experiências nucleares por terra, na atmosfera ou debaixo de água continuaram ou continuam. A Índia e o Paquistão encerram os testes em 1998. Mas a Coreia do Norte, que registou o primeiro ensaio em 2006, continua até hoje as suas experiências nucleares. A última, uma bomba de hidrogénio, lançada na Península Coreana e que causou um terramoto de magnitude 6.3, ocorreu a 3 de Setembro de 2017. Um ensaio celebrado com fogo de artifício e que provocou a morte de 200 pessoas, segundo a televisão japonesa Asahi.

Contudo, apesar de os testes nucleares terem diminuído drasticamente a partir da década de 2000, a verdade é que o arsenal nuclear é, hoje, muito mais potente. Ainda que o número de armas nucleares tenha fortemente diminuído se compararmos o valor registado em 1986 (aproximadamente, 70 300 armas) com o valor apontado nos inícios de 2018 (14 450 armas), segundo dados da Federação de Cientistas Americanos (FAS). A federação expõe também o número de ogivas nucleares em reserva militar por país, valores registados em Maio deste ano, e a Rússia fica na linha da frente com um total de 4350. Seguem-se os EUA com 3800.

Orçamentos de Estado

Os dados que se conhecem sobre o orçamento dos estados que apostam em armamento nuclear remonta a 2011. Este registo, feito pela Global Zero, mostra que os Estados Unidos são a nação que mais dinheiro gasta nesta matéria. Mais precisamente, a Global Zero fala de um investimento de mais de 61 biliões de dólares só em 2011. Segue-se a Rússia com uma fatia do orçamento de Estado a chegar quase aos 15 biliões. Com valores substancialmente menores encontra-se a China (7.6 biliões), França (6 biliões), Reino Unido (5.5 biliões), Índia (4.9 biliões), Paquistão (2.2 biliões), Israel (1.9 biliões) e, por fim, a Coreia do Norte (700 milhões). No total, trata-se de um investimento de 104.9 biliões de dólares feitos pelos nove países nesta matéria, um aumento de 13.9 biliões face a 2010.

Porém, apesar de se estimar um aumento continuado de investimento monetário no desenvolvimento do arsenal nuclear, não há registo de ter sido montada uma bomba mais potente que a “Tsar Bomba”, lançada pela União Soviética, a 30 de Outubro de 1961. Entre as 50 e as 58 megatoneladas de TNT, 3000 vezes mais forte que a bomba usada em Hiroshima, podia ser vista a 1000 km de distância.