Globo impõe regras de comportamento online para os seus jornalistas

O grupo brasileiro de media Globo quer que os jornalistas tenham um padrão de comportamento na Internet que não coloque em risco o bom nome do grupo, conta o The Intercept.

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Os sucessivos casos de polémicas políticas no Brasil deixaram a sociedade num estado de efervescência e polarização como não se testemunhava há muito anos. Neste contexto, todos os agentes públicos – sejam eles políticos, comentadores ou jornalistas – ganham especial interesse mediático pelo que dizem ou deixam de dizer e, nas redes sociais, trolls ou curiosos reviram os perfis das pessoas de interesse à procura de todo e qualquer indício criticável ou amplificável, que sirva de arma na sua guerra ideológica.

Se objetivamente a argumentação destes críticos das redes sociais pode ser dúbia ou falível – subvertendo ou interpretando erroneamente algumas publicações –, o resultado é uma espécie de generalização que tende à censura prévia e por preconceito de um debate que se quer público e de posições que deviam ser igualmente conhecidas, como exemplifica o editorial assinado por Roberto Marinho, presidente do Conselho Editorial da Globo e dirigido aos trabalhadores deste grupo media.

Numa extensa dissertação, citada pelo The Intercept, Roberto Marinho começa por apresentar a sua visão sobre as redes sociais e o papel que estas podem ter na disseminação de boatos e na manipulação de grupos de opinião para, a partir daí ,fazer uma série de recomendações com a força da palavra “deve”, aconselhando os jornalistas a não partilhar as suas opiniões online sobre uma série de assuntos.

Ao longo de 13 pontos especificamente focados nas redes sociais, as “novas directrizes”, os jornalistas são desaconselhados à partilha de opiniões sobre os temas em tratamento pela redação da Globo, mas também sobre hotéis, restaurantes ou outros serviços mesmo que tenham razões de queixa e uma má experiência a reportar.

Em todo o texto, e como destaca o The Intercept, o motivo expresso para a comunicação é a manutenção da ideia de isenção associado a este já velhinho grupo de media brasileiro, frequentemente conotado com visões políticas conservadoras. A principal contradição em usar esta estratégia em prol da ideia de independência editorial, como destaca a mesma publicação, é que esta vai contra os princípios subscritos pela Globo no Projecto Credibilidade, um projecto subscrito por 17 entidades, incluindo jornais, revistas e agências noticiosas, que defende que os jornalistas não se devem abster de qualquer prática e cidadania – incluindo o debate público – devendo, pelo contrário, tornar as suas posições públicas mantendo uma atitude pro-transparência.

A carta, apesar da sua aparente normalidade, esconde nuances que devem ser sublinhadas, pondo em causa o exercício de cidadania dos jornalistas, diferenciado-os dos colunistas e sacrificando o seu espírito crítico, alienando-os de discussões que possam ter online. Para além disso em vez de os proteger e salvaguardar, responsabiliza-os à priori sobre eventuais problemas que advenham da sua partilha de opinião. Para além disso e num nível mais subjectivo passa ao leitor, a ideia de que um jornalista sendo factual não pode ter espírito crítico, um dos pilares fundamentais da prática jornalística de seleção e circulação de informação.

A Globo não é o único órgão de comunicação social a querer limitar a acção dos seus jornalistas nas redes sociais. Uma atitude parecida tomou o norte-americano The New York Times no final de 2017.