Os miúdos estão a salvo, mas quem tira a nossa comunicação social da caverna?

A maleita já se tinha verificado noutros momentos, como por exemplo nos atentados terroristas em solo francês ou no acompanhamento da situação de um clube de futebol, e com o passar do tempo os sintomas tornam-se difíceis de ignorar.

Finalmente acabaram os dias de sofrimento para as crianças tailandesas presas numa gruta. Acabaram para elas e para todos aqueles que, como nós, prezam uma comunicação social séria e construtiva. Enquanto estas crianças tentavam sair da gruta, a comunicação social portuguesa tentava ela própria enfiar-se noutra gruta – contentando-se com o espetáculo de sombras, especialmente emotivas mas pouco nítidas que chegava da realidade local.

A maleita já se tinha verificado noutros momentos, como por exemplo nos atentados terroristas em solo francês ou no acompanhamento da situação de um clube de futebol, e com o passar do tempo os sintomas tornam-se difíceis de ignorar. Em causa não está a cobertura do assunto que, pela sua singularidade, merece toda a atenção e preocupação. Em causa está a inutilidade e a desproporcionalidade dos meios dispostos pelos órgãos de comunicação social nacionais sem um objectivo ou um papel propriamente informativo no teatro de operações. Assim se dedicaram horas de televisão— que não podem ter outra classificação que seja— sensacionalista. E se muitas vezes este sensacionalismo se justifica pela necessidade de produzir conteúdo de baixo custo, o mesmo não se pode afirmar neste caso com a deslocação de repórteres até ao terreno mesmo que, na maioria das situações, para avançar notícias que lhes chegavam via Reuters ou outra agência de informação.

Durante dias fizeram-se directos com todas as possibilidades que estes oferecem, em praticamente todos os meios que o permitem, salvo raras excepções, com intervenções assentes em preconceitos e, muitas vezes, em meias verdades amplamente difundidas, como o número de crianças em resgate ou falsas previsões sobre a data desse momento, com especialistas de todos os tipos a intervir e opinar sobre o assunto.

Quando a notícia é o espéctaculo

Foi assim que, sem que houvesse algo novo para dizer, a notícia – e não o acontecimento – se tornou um espectáculo, com os órgãos de comunicação social incapazes da destrinça rigorosa entre o que é informativo e apenas espectacular, a fazer sucessivos destaques de pequenos avanços e recuos no local. Mais do que um acontecimento mediático, os dias dos rapazes tornaram-se numa espécie de reality show exaustivamente explorado em dinâmicas que falsamente envolviam o espectador, fazendo-o crer-se próximo deles, mas não da região ou dos locais. A concentração foi grande ao ponto de praticamente se terem ignorado a morte de 50 turistas no mesmo país ou as tempestades históricas que abalaram o Japão provocando mais de 80 mortos – em notícias com um pendor dramático igualmente grande e com uma com pretexto informativo – por exemplo… as alterações climáticas, já ouviram falar?

Mais uma vez, repito, para esclarecer: Em causa não está o acompanhamento da situação, totalmente enquadrável numa prática noticiosa com rigor. Em causa está a exploração do acontecimento em sentido contrário que deve ser o papel de investigação, questionamento e escrutínio basilar do jornalismo, promovendo uma discussão emocional, emocionante e pouco informada em torno de um assunto que mais do que importante, é impactante.

Se o recurso ao directo já põe muitas vezes em causa a capacidade de veicular informações relevantes e de uma forma perceptível com os nervos, os gaguejos e os improvisos a dificultar, neste caso – como em outros passados – criaram-se ciclos praticamente ininterruptos em que às tantas se noticiavam mais outras notícias do que algo realmente merecedor de destaque. Não obstantes nem insensíveis ao sentimento vivido pelos jornalistas no local não podemos no entanto deixar que seja essa a dominância no meio informativo como se verificou.

A onda mediática

Se a comunicação social não soube ser exemplar, rigorosa e informativa e se deixou levar pelas emoções sucessivamente ao longo dos dias, seria injusto dizer que são os únicos afectados por esta tendência. Um pouco por todo o mundo a onda mediática em torno dos rapazes foi aproveitada por empresários, empresas e instituições tentando capitalizar o impacto mediático do momento. Se o esforço internacional no local que permitiu a criação de equipas de mergulho multidisciplinares, com proveniência de vários países e valências suficientes para uma operação de resgate tão complexa, devem ser um exemplo para toda a humanidade de como pode funcionar a solidariedade internacional, a demonstração de intenções de alguns mediáticos não pode ser vista como totalmente neutra ou inocente. Em poucos dias, vários foram os exemplos, como as notícias sobre como Elon Musk poderia ajudar os jovens com mais um dos seus engenhos – e Musk ajudou por exemplo em Porto Rico –, os convites aos miúdos para pouco mais do que presenças em centros de estágio de clubes de futebol, ou o aproveitamento do simbolismo gerado pelos miúdos para campanhas do Serviço Nacional de Saúde.

NEXT!

Apesar da relevância dada ao assunto durante dias, depois do salvamento as atenções não tardaram a redirecionar-se, especialmente depois de anunciada a contratação de Cristiano Ronaldo pelas Juventus. Em poucos dias as mesmas figuras que se interessavam incessantemente por um resgate em ambiente espeleológico viraram-se para Turim para dar conta da celebração do contrato que permitirá a Ronaldo ganhar cerca de 30 milhões ao ano.

Não sendo situações comparáveis, nem desprezíveis a sua sequência torna-se ilustrativa do ponto que motiva esta crónica. Em sentido inverso ao que advogam as mais badaladas teorias do jornalismo e da comunicação – e até o próprio código deontológico – a agenda mediática faz-se cada vez menos de escolhas que permitam ao cidadão decidir informado sobre assuntos fundamentais à prática da sua cidadania, substituindo-se por uma constante exploração das tendências que se criam de momentos especialmente emocionantes, geralmente pela sua singularidade, numa abordagem que mais do que informar, simplesmente celebra, sem questionar, nem contextualizar.