Quando for grande quero ser youtuber

NÃO VAIS ACREDITAR NO QUE ACONTECEU!

Imagem: SirKazzio

Perguntar “o que queres ser quando fores grande?” faz parte do mesmo pacote que inclui apertar as bochechas e oferecer meias ou cuecas no Natal. Uma questão que nos acompanha durante a infância e que perdura até à adolescência; às tantas torna-se chato responder mas a sua importância é inquestionável — tal como um bom par de meias no inverno.

O mundo das crianças é um terreno próspero para a imaginação e as aspirações sem limites. As respostas e impulsos dos mais novos nem sempre são previsíveis e a fantasia que incutem nas suas acções são motivo de brilho nos olhos dos progenitores. São os sonhos que guiam o seu presente para o futuro mas também o dos pais. Estes tudo fazem, ou deveriam fazer, para estimular e proporcionar aquilo que “nunca tiveram”, correspondendo às expectativas dos maiores influencers da sua vida.

Sonhos de menino (INCRÍVEL)

Quando era uma criança sonhadora, lembro-me que era comum idealizarmos as nossas profissões de sonho, por vontade própria ou por sugestão, seja de familiares, professores – ou dos Anjos –, com o intuito de nos estimular a olhar para o futuro, e procurar encaixe imaginário no tetris laboral do mundo real.

Professores, jogadores de futebol, bombeiros, médicos ou veterinários eram algumas das sugestões que recordo como recorrentes. Mais e menos realistas, no decorrer da infância e adolescência, as escolhas estão na maior parte dos casos fielmente relacionadas com os nossos interesses, habilidades e o universo que nos rodeia. Em retrospectiva, percebo que a maioria destes pequenos projectos de vida advém sobretudo da nobreza e vontade em ajudar o outro – nunca desistam da criança que está dentro de vós, meus caros!

“Eu quero ser youtuber” (BOMBÁSTICO)

Desde tenra idade que a criança tende a identificar-se com as figuras que mais admira e que regularmente fazem parte do seu quotidiano. Os familiares surgem como principais role models, ao lado dos super-heróis, artistas, atletas e… agora, youtubers.

Um inquérito realizado pela empresa de viagens First Choice Travel a cerca de mil crianças e adolescentes, entre os 6 e 17 anos, concluiu que mais de um terço das crianças aspira uma carreira na indústria dos entretenimento online, especialmente no YouTube.

Profissões de sonho:

  1. Youtuber – 34,20%
  2. Blogger/vlogger – 18,10%
  3. Musico/cantor – 16%
  4. Actor – 15,70%
  5. Realizador/produtor – 13,65%
  6. Médico/enfermeiro – 13,45%
  7. Apresentador de televisão – 12,45%
  8. Atleta/professor –11,90%
  9. Escritor – 8,40%
  10. Advogado – 6,40%

De acordo com o mesmo artigo, o dinheiro apresenta-se como o quarto factor mais importante quando ambicionada uma carreira no YouTube. Em primeiro está a criatividade, seguida da fama e a possibilidade de auto-expressão. Os conteúdos mais populares no YouTube incluem gameplays de videojogos, videoclipes musicais, tutoriais, vídeos explicativos, paródias, sketches de comédia e vlogs.

7 das melhores coisas sobre ser um youtuber:

  1. Criatividade – 24%
  2. Fama – 11,4%
  3. Auto-expressão – 11%
  4. Dinheiro – 9,8%
  5. Pessoas – 8,4%
  6. Reconhecimento – 6,1%
  7. Viajar – 4,2%

3 principais razões pelas quais as crianças adoram assistir vídeos no YouTube:

  1. Entretenimento – 71,1%
  2. Mais interessante que programas de televisão – 33,5%
  3. Fazer gosto em continuar a acompanhar os seus youtubers favoritos –  25,3%

Há duas décadas era difícil ambicionar ser youtuber. O conceito de viral era associado a gripes e epidemias, e a febre dos gurus e influencers do marketing digital difícil de imaginar. Criado em 2005, o YouTube mudou, gradualmente, a indústria do entretenimento e o marketing digital. Actualmente, 13 anos após a sua criação, os youtubers tornaram-se os maiores ídolos infanto-juvenis e o YouTube o “canal” favorito da criançada e de diversas marcas na divulgação dos seus produtos.

Um outro inquérito, desta feita realizado pela consultora Smarty Pants, mostra que o YouTube é a marca mais adorada pelas crianças, à frente de clássicos como a Lego ou a Toys “R” Us.

Quanto ganha um youtuber? (POLÊMICO)

Muitos youtubers recusam revelar quanto ganham mensalmente. Um facto interessante vindo de personagens que na sua generalidade tratam os “fãs” por família, afirmando vezes sem conta a importância da sua visualização e do seu gosto – “ah e não se esqueçam do sininho”.

Inicialmente, os youtubers apenas ganhavam dinheiro através de publicidade directa nos seus vídeos, por intermédio do Google AdSense, plataforma que que associa anúncios a vídeos, considerando conteúdos e segmentos específicos, ou doutro marketplace semelhante. Actualmente, com o crescimento e importância do YouTube enquanto plataforma, os melhores e com mais audiência alcançam acordos com algumas das principais marcas, seja através de product placement nos seus vídeos e redes sociais, ou até mesmo como rostos principais de grandes campanhas nacionais.

Como deixar uma criança feliz COMIDAAAAAAAAAAA #knorrpastapot #libertaosabor

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Porém, aparentemente, o youtuber comum só sente necessidade em falar das suas receitas quando o algoritmo perturba o seu trabalho. Ai este gatuno virtual…

Devido à falta de clareza sobre os algoritmos de distribuição e monetização do YouTube, existe uma enorme especulação da rapaziada mais nova – e nã0 só – em torno de quanto ganha um youtuber. Para a maioria dos canais pode demorar vários anos a alcançar um rendimento mensal consistente, que permita “viver do YouTube”, ainda por mais com as novas regras de monetização impostas pela empresa da Google há poucos meses e que desvalorizam os canais mais pequenos.

Ganhar 50 mil dólares com o vício do ‘Counter-Strike’? Em 2017 é possível

“Um milhão de visualizações pode dar entre 500 e mil euros” — Miguel Raposo aka “agente dos youtubers”

Em entrevista ao Observador, Miguel Raposo, que representa figuras como Wuant, Sir Kazzio, D4rkframe ou Windoh, revelou quanto pode ganhar um youtuber em Portugal. O valor alcançado é uma autêntica mistura de factores, estando o resultado final dependente do segmento atingido, do tempo de visualização do vídeo e do anúncio, país de origem da visualização e temática do vídeo.

O site SocialBlade apresenta os principais dados relativos à facturação de cada youtuber. O problema reside no intervalo de resultados que apresenta, tornando a questão num verdadeiro jogo de descobrir a agulha no palheiro; contudo, a intransigência dos youtubers em falar sobre as suas remunerações provenientes do YouTube é a melhor forma de medir o seu alcance e resultados.

Wuant, “vlogger do ano” nos prémios da IOL/Media Capital e protagonista de uma campanha publicitária da NOS, apresenta números impressionantes. Com aproximadamente 3 milhões de subscritores e mais de 1400 vídeos em biblioteca, é sem dúvida um dos maiores nomes da comunidade portuguesa do YouTube, e não só — o Brasil também é atingido pelo fenómeno.

Estatísticas do canal de YouTube de Wuant (3 de Maio, 2018 – 1 de Junho, 2018)

Já o youtuber Nuno Moura tentou desmistificar, em vídeo, a questão da monitorização:

Vale tudo por visualizações? (REACT DO REACT)

Ya, aparentemente (quase) vale. Mais facilmente assistimos a um youtuber a “tomar banho” numa banheira com 12 500 euros do que a revelar uma expectativa da sua remuneração mensal. Se os canais da “velhinha” televisão têm directores  e equipas capaz de filtrarem o conteúdo e propostas de valor (estando também sujeitos a regulação de entidades públicas), o YouTube tem as suas directrizes, porém incapazes de entender o quão idiota e desvirtuoso pode ser determinado vídeo.

Desde alegadas utilizações de bots, com o intuito de aumentar o número de visualizações, a pontapés constantes na língua portuguesa em prol de uma maior audiência (Brasil?), terminando em desafios e jogos difíceis de adjectivar, os meios não justificam de todo o fim e os números astronómicos de visualizações alcançados não significam de todo um “bom trabalho”. Podem também significar “obrigado por estes 10 minutos de cringe”, expressão que ganha força aquando um youtuber decide ultrapassar a barreira do ridículo.

Em suma, o conteúdo – ou a falta dele –, criado em torno das fantasias do impossível do mundo das crianças, vai continuar a dividir mundos em autênticos gap geracionais, preocupando paisQuantidade não significa qualidade e, apesar desta expressão estar bem cansada, será porventura o maior problema na realização de conteúdo pertinente.

O que é que se passa com o YouTube português? Explicamos-te a polémica

Se, por um lado, a impulsividade e necessidade em colocar vídeos com um periodicidade constante em prol de maiores lucros e benefícios algorítmicos cria uma regularidade e capacidade de trabalho de louvar, por outro, a irregularidade da qualidade e mesmo da proposta de valor dos vídeos (elevada ao extremo em títulos POLÊMICOS e de cariz sensacionalista) deixa-nos imensas vezes boquiabertos com o mundo em que vivemos.