Nem só o Big Brother te vê a ti, you’re watching Big Brother

Por mais que olhemos, uma e outra vez, para o que se passa nos Estados Unidos, seremos sempre agredidos por uma situação que julgávamos irrepetível. E, no entanto, ela repete-se, não como farsa, mas novamente como tragédia.

Ilustração de João Ribeiro/Shifter

Vistos de perto, bem de perto, somos todos iguais. Ao microscópio não passamos de uns núcleos rodeados pelo mesmo citoplasma. Afastando um pouco a lente, começam a distinguir-se feições e até cores, mas é difícil perceber se elas se devem ao nascimento ou às circunstâncias. Se acrescentarmos a dimensão temporal, começamos a perceber feitios, mas continuamos todos humanos. A diversidade é tal que não há nenhuma característica que permita dividir a humanidade em dois grupos perfeitos.

É aí que devemos parar o zoom, mas há quem o continue. Há quem veja apenas pontos num território, móveis e sujeitos às vontades de quem o administra. Há quem veja apenas números, e lhes aplique a fria natureza da matemática. Há quem imagine formigas, tentando, à semelhança do que se faz com os carreiros, barrar-lhes o caminho de saída do formigueiro, sem preocupações com as consequências dessas barreiras.

O ódio é algo difícil de compreender porque, por natureza, não pode fazer sentido. Se o desprezo pelo outro fosse lógico e moral, chamar-se-ia justiça, e não desprezo. É por isso que, por mais que olhemos, uma e outra vez, para o que se passa nos Estados Unidos, seremos sempre agredidos por uma situação que julgávamos irrepetível. E, no entanto, ela repete-se, não como farsa, mas novamente como tragédia.

Os sujeitos são diferentes, mas são os mesmos. Seres humanos. Humanos que têm o atrevimento de pensar que é legítimo procurar uma vida melhor, não sabendo que o que vão conseguir é pior ainda que a miséria. São jaulas, são jangadas. São condições sob as quais, no século XXI, começamos a achar que nem os outros animais devemos colocar.

A propaganda é também nossa conhecida. Usa-se a verdade, a mentira, e tudo o mais que houver para justificar o injustificável. Culpam-se e diabolizam-se, não só os que se querem atingir, mas todos os que se atrevem a defendê-los. Para isso, servem os velhos e os novos media, o sistema de ensino, a justiça e até o fisco. Nem o neoliberalismo ajuda: pedem-se “estudos” que justificam a barbárie e, quando eles não o fazem, escondem-se esses “estudos”.

Há, no entanto, algo muito diferente. Desta vez, não temos de esperar alguns anos para descobrir. Sabemos o que está a acontecer. Big brother is watching us, but we’re also watching him. Não há possibilidade de alguém que se diga defensor da dignidade humana se manter calado perante o regresso da barbárie. Todos podemos fazer algo: chamar à atenção para o problema, procurar informação e divulgá-la, pressionar políticos à esquerda e à direita para não usar os direitos humanos como elemento negocial. Culpar os políticos, o neoliberalismo, a UE ou a ONU, não pode ser feito de forma generalizadora e grosseira. Pode ser feito, mas construtivamente, apontando erros concretos e esboçando soluções, e talvez não deva ser uma prioridade. Em tempos de guerra (sim, estamos em guerra) o maniqueísmo impõe-se e a neutralidade só ajuda o mal.

Não é o tempo de passar culpas. É o tempo de agir. O inimigo está unido – as fronteiras estão fechadas para migrantes e refugiados, mas não para oradores em comícios de incitação ao ódio e empresários da corrupção. Se nem perante o regresso do fascismo o conseguimos fazer, falhamos. E falhar não é uma opção.