“As pessoas precisam de carinho” e Tim Bernardes abraça-as com a sua música

A Casa da Cultura em Setúbal foi por um dia a casa de Tim Bernardes.

Fotografia: Marco Brandão/ Shifter

Fazendo jus ao que Tim Bernardes disse durante o seu concerto: a solo toca como se estivesse no quarto. Estivemos com ele pouco antes do espectáculo intimista que reservara em Setúbal, numa divisão à porta do seu quarto que supomos ter sido como uma sala de estar. A Casa da Cultura em Setúbal foi por um dia a casa de Tim Bernardes. A conversa foi descontraída e facilmente se prolongaria no tempo como, de resto, o concerto que à noite lhe seguiu.

O espectáculo durou cerca de hora e meia e foi um dos momentos seguramente mais intensos que a programação da ZDB já engendrou para aquela pequena sala, feita quarto, em Setúbal. O público chegava a tapar de vista o músico que se agigantou na voz, na guitarra e no piano nas interpretações dos temas do seu disco a solo e de outras versões de Terno, a jóias da música brasileira como Jards Macalé ou Jorge Ben, Gilberto Gil, inéditos de compositores seus amigos e até Black Sabaath.

O Terno tem mais certezas, Tim Bernades tem mais dúvidas?

O que eu sinto é que O Terno, ele tem muitos contrastes. Então tanto pode ter uma música mais animada, a seguir uma mais calma, engraçada uma profunda, tem mais contrastes. O Recomeçar é todo em um caminho só, é como uma música de 40 minutos. Eu pensei nisso quando… Eu nunca fiz um disco que ele é todo num clima, será que isso vai deixar a coisa monótona ou será que vai um criar um ambiente, então.. essa é uma diferença grande também.

Foram 8 anos a juntar músicas, este disco foi uma conquista?

Sim, pessoal. Tanto as músicas se juntavam por ser o tipo de canção que eu não sabia como expor – então eu ia guardando elas, e elas foram sendo todas da mesma família. Ao mesmo tempo, especialmente depois do Melhor Do Que Parece, tinha essa coisa de adquirir um pouco mais de confiança pessoal, de me expor um pouco e ver uma resposta positiva e um público carinhoso… especialmente lá no Brasil, viajando e vendo as pessoas. Ficar um pouco mais velho também, então foi um momento em que senti que estava com vontade e disposto a dar a cara, tapa, sozinho. Fazer um disco de coisas pessoais, com a minha foto na capa, sabe? Sem a persona do Terno, sem a coisa mais freak de estar munido e protegido pelos amigos, é um disco de exposição sincera.

Tu próprio falavas dos contrastes d’O Terno; são uma tendência cada vez mais presente em toda a música. Sentes que este disco vai no sentido contrário, rema contra a maré?

É, de certa forma ele é um descanso. Um contraste com o contexto. Eu reparei que fui ouvindo coisas mais calmas quase como um descanso por ter muito volume de coisas comprimidas – sabe, que tem um preenchimento total – e acho que esse disco tem muito a ver com esse descanso da escuta, tem mais vazios, é uma coisa mais delicada.

Achas que seres um jovem e fazeres um disco neste registo é um ponto importante para a mensagem do próprio disco?

Eu acho que de uma certa forma sim. A geração ela é muito rápida, essa coisa de estar muito conectado o tempo inteiro e o caminho mais fácil, o impulso que a gente tem é ir suprindo essa velocidade, esse preenchimento todo. Mas eu acho que um vazio grande numa geração que faz isso e que todo o mundo tem uma parte guardada. As pessoas se mostram muito felizes nas redes sociais, só que o que eu reparo é que a reacção das pessoas a ouvir essas músicas mais íntimas e sinceras é quase um canal que estava fechado, sabe. A pessoa fala “também sinto isso”, é poder se identificar e se ver num outro registo que não é da expansividade – é uma coisa mais interna, introspectiva.

Embora não seja tão comum, ela está presente escondida. Acho que muita gente estava carente disso sem nem ter parado para pensar, sabe…

O disco dá espaço a quem o ouve para estar consigo próprio, é isso?

Eu acho que sim, é um disco que faz sentido ouvir com fones; Você e o fone. Eu queria que as orquestrações tivessem uma atmosfera própria meio onírica, meio impressionista – Debussy, essas coisas – e que os temas se intercalassem, se misturassem, uma névoa mesmo; que a voz estivesse clara, o texto claro, mas a atmosfera te desse uma coisa… um pouco fora da realidade, um pouco em suspenso. Então é um isso, um momento interno para você entrar e ficar a pensar na vida.

É impossível dissociar o lançamento do disco do contexto, a própria faixa “Tanto Faz” o explícita, achas que o disco é uma espécie de afirmar do lugar no mundo e dizer que tudo o que tens para dar é como o que deste nestes 40 minutos?

O “Tanto Faz” tem uma coisa assim. Eu não pensei assim muito, não é uma coisa super propositada, é uma música diferente das outras do disco mas eu senti que tinha uma importância no disco. Tanto de ser um respiro em relação à parte mais amorosa – ser uma música um pouco mais para fora – tanto de ser um samba – diferente mas um samba que eu queria fazer, num violão de folk –e dá uma contextualizada na coisa. Ela encaixa com as outras coisas num sentido de desilusão, no sentido de “Tá vendo uma ruína atrás de você e não tá vendo uma coisa construída ainda” – o Recomeçar é muito isso – e é uma coisa que politicamente está acontecendo. A gente viu ruir muitas esperanças que se tinha de anos de um governo de Esquerda que sempre sonhou várias coisas e conseguiu fazer muito poucas delas; e depois uma direita dando esse golpe, uma reviravolta; o Tanto Faz fala do jeito que se polarizou as coisas no Brasil.

Eles falam ‘o povo acordou’, ‘o gigante acordou’, quando em 2013 começaram as manifestações na rua – e foi uma coisa muito interessante de ver mesmo. Eu cresci nos 90 e foram anos muito estáveis, tanto o Governo de Direita do Fernando Henrique Cardoso quanto o do Lula esquerda foram bem organizados. Eu nunca imaginei que ia ver as pessoas indo para a rua, pra gente não era nem uma possibilidade, então o primeiro momento foi uma coisa tipo ‘ah sim, pessoas tão indo para a rua’ mas rapidamente isso ficou muito. Acho que tem muito a ver com o número de caracteres de um post ou de um tweet – é um pensamento com uma profundidade de uma hashtag. A esquerda virou uma caricatura da esquerda e a direita uma caricatura da direita – claro que não tudo. Mas há uma coisa geral, nas ruas, que é direita falando tipo ‘vai pra Cuba’ e esquerda falando ‘vai pra Miami’, uma coisa meio boba. O “Tanto Faz” é uma coisa de olhar isso e não tem a ver com uma posição horizontal, é olhar, ficar desiludido e dizer ‘Não importa exactamente isso’ [opondo a mão esquerda à direita], o cerne da questão sempre esteve aqui [sobe um dos punhos], no vertical, desde 1500. Tem muito pouca gente com muito dinheiro e muita gente sem nada e nenhum dos lados busca essa mudança estrutural, então não tem uma justiça exacta. Então é um olhar solitário e sem potência para uma situação, nisso ele se encaixa com o disco bastante.

O disco não é de todo político, não é esquerda nem direita, pode ser visto como um refúgio para além dos preceitos da competitividade e da certeza?

De alguma forma o disco sai um pouco desse âmbito colectivo e foca no pessoal. Na micro, na coisa. Eu vejo que, querendo fazer um disco que seja sincero, e querendo fazer uma coisa bem feita e caprichada, é com isso que me identifico. Ter uma função afectuosa e não ideológica e… de poder passar isso. Em vez de passar uma ideia, passar afecto e amor. As pessoas precisam de carinho. Se as pessoas se ligarem no micro dessa forma, as coisas podem andar no macro, eu acho.

Noutra questão sobre o contexto, como vês a cena Paulistana. Ainda agora se marcam os 50 anos sobre o movimento Tropicalia no Brasil, altura em que o enquadramento político podia ter algumas parecenças, achas que há alguma semelhança?

Tem alguma coisa semelhante, com todas as diferenças dos ciclos. Talvez a posição no ciclo seja semelhante. Eu me relaciono muito com isso, o próprio Recomeçar, palavras que têm o ‘re’ antes… Uma coisa que é a primeira vez mas que já teve alguma experiência. Até o meu primeiro disco é o meu quarto disco. Mas, em relação ao momento, lá no Brasil a gente até está um pouco assustado em relação a isso porque tem muitas coisas semelhantes, radicalismos aparecendo, essa coisa mais violenta de esquerda direita e uma efervescência artística também. Então, tem uma efervescência técnica e política e tá-se fazendo muita música legal no Brasil e as pessoas estão em movimento – a coisa não está no marasmo.

Eu acho que teve um movimento natural na música, sabe nos anos 60, 70, a indústria fonográfica ainda tinha cuidado com a qualidade, nos 80 e nos 90 foram anos de padronização. Desde a internet é que foi existindo um espaço onde bandas focadas na criatividade têm espaço para existir e circular. Então São Paulo tem muitas coisas diferentes e o interessante é ver que dessas bandas todo o mundo se conhece, a gente é amigo e cada um busca um próprio som. Fazia tempo que não tinha uma musicalidade plural assim.

Já sobre o disco do Kiko Dinucci, ele diz que o pensou como um filme, em 40 minutos seguidos. Não achas curioso que ambos sintam essa necessidade, será necessidade de aprofundar?

Eu teria que pensar… mas acho que houve muito um pensamento dessa cena que veio no underground e que se insere num movimento imediatista de fazer um single, um clip, – as primeiras coisas do Terno têm muito isso – acho que uma vez que a coisa está mais sólida é natural que se coloque em prática uma vontade de fazer uma coisa mais profunda, que seja mais profunda e que exija que a pessoa sente. As bandas começarem a fazer vinil também tem a ver com isso – eu não quero que você oiça numa aba do seu chrome, é para você sentar e ouvir. Então é isso, acho que a cena brasileira está deixando de ser uma criança e tá dando mais espaço para o conceito. É louco porque é nessa década de 10 que ela se inicia buscando qual é a identidade dessa época e dessa geração, agora que incorporou alguma retomada estética partiu do requinte da superfície para mexer em coisas mais profundas, esses conceitos, discos longos.. pode ter a ver com isso.

Dar mais importância às palavras?

Mas com imagem junto, adquirir tudo, tentar chegar num total. Só estamos indo por partes.

Até a minha mãe gosta do teu disco, é um sinal de que apela a diferentes públicos, achas essa transversalidade um sinal de maturidade da música? Já não é o indie rock mais jovem dos Terno que apela mais à juventude… sentes isso?

Sim, de certa forma sim, até nos assuntos ele é mais universal, pode ser associado a qualquer pessoa, não são assuntos de uma tribo. Fala muito sobre questões humanas gerais de qualquer idade. É mais um disco de música do que um disco de indie ou de rock, é um disco de música e isso torna acessível para qualquer idade. Também vejo muito isso no Brasil, já vi uma moça de 30 anos com a mãe e a filha, é muito legal. O último disco de Terno já tinha começado a abrir isso, agora nos próximos também terá muito mais isso. Acho que a potência do rock vem como um pé na porta e tem muita a ver cena se afirmar e isso é uma coisa da juventude. Este disco de Terno a gente sente que pode fazer o que quiser; não vai ser um disco de rock, se tinha público de rock já vai embora, é um disco muito diferente.

Pegando na questão dos Terno, queres manter as duas linhas paralelas ou que sejam líquidas e que se misturem influências e referências entre elas?

Não sei exactamente, ainda estou a aprender com o momento mas muita coisa que aprendi no Melhor do Que Parece eu pude usar no Recomeçar; a nível de estúdio e arranjos, o MLDQP foi o laboratório; depois de fazer o Recomeçar também já volto para o estúdio diferente também, asusmidamente como produtor, director musical, vou mixar e tudo isso que sempre foi uma coisa que era mais colectiva. A gente resolveu os três juntos que faria sentido aproveitar essa visão única como um filtro da coisa e eu vejo a minha discografia como uma coisa só, porque é uma discografia de compositor.

O Recomeçar é como se fosse antes do Melhor do Que Parece (MLDQP) antes do outro que está para vir. Mas o Recomeçar também cabe depois do MLDQP, a minha discografia se mistura. E tenho vontade de depois do próximo do Terno fazer um meu e ficar sempre livre e solto para fazer o que tiver vontade na hora.

Mas só depois de Terno é que voltas a trabalhar para o disco a solo ou já estás a escrever para a gaveta à espera do momento?

É, eu tenho músicas que já fui guardando. Agora já sabendo que provavelmente são para um disco a solo, antes eu guardava para ver o que ia fazer com elas, agora já vou entendendo o que vem depois. A parte da composição, algumas ideias, vou sempre anotando. E é bm por estar fazendo um disco com o Terno, depois vou ter algum tempo de tourné, por isso sei que vou ter bom tempo para juntar composições. Já tenho quase um disco para lançar depois do Terno mas vai ser bom ter mais que um disco e enxergar o conceito nas músicas, tirar algumas e modificar outras.

É impossível não comentar a velocidade com que os concertos esgotaram em Lisboa, como te sentes em Portugal?

É muito muito legal. O meu som tem muito a ver com a letra e em outros países a recepção é boa mas aqui o facto de as pessoas comunicarem com a letra… É semelhante a ir a cidade do Brasil onde não fui ainda, uma cidade bem diferente. É como chegar em Recife pela primeira vez e ver que as pessoas cantam as músicas e conhecem e tem um carinho com a coisa. Acho que por ser uma coisa muito emocional, o público tem um perfil carinhoso e aqui também foi assim.

Já agora e porque li em várias entrevistas que estás sempre com uma playlist muito variada, o que trazes contigo?

As últimas coisas que ouvi… teve um disco que o baterista do Terno, o Biel, me falou que é de um cara que é Eden’s Island do Eden Ahbez “Nature Boy”, um cara que compôs Nature Boy e que nos anos 1960 ele compôs um disco que parece um disco de jazz mas é falando umas coisas meio beat, não sei explicar direito mas é um disco bem interessante. Identifico-me com um tipo de pop calmo mas orquestrado. Tenho ouvido coisas bem variadas…

Vi por exemplo a referência ao Rincon [Sapiência].

É, adoro! Ele tem aquela coisa da letra e do conceito da estética, fechado. Então me identifico muito mais com ele, mesmo que seja de um género muito diferente porque ele pensa a música dele dentro do rap de um jeito parecido ao que eu penso as minhas coisas. Ele claro que tem mais desdobramento ali, e eu para cá. Ele tem a importância da militância do movimento no Brasil, eu tenho mais esta coisa da orquestração, é claro. Mas tem um movimento de rap surgindo no brasil muito interessante. Tem um trap surgindo em São Paulo, tem por exemplo um cara chamado Dfideliz, com uma estética muito poderosa, meio agressiva mas muito interessante.

Que mais… eu oiço muita música dos anos 60 e 70, discos do início… coisas do tropicalismo, Torquato Neto por exemplo que foi um poeta que fez parte do movimento, o Gil, o Jades Makalé que inclusive fiz um concerto com ele. Muita coisa… sempre acabo por voltar para as coisas de sempre que me renovam, como Beatles.