As Terras Sem Sombra também têm vida

O Terras Sem Sombra é um festival "invisível", que nasceu para valorizar o património e a biodiversidade do Alentejo. É acompanhado por música clássica e realiza-se em vários municípios do litoral e interior, ao longo de seis meses. Fomos experimentá-lo em Sines.

Há festivais mais visíveis que outros, quer seja pelo eco mediático, quer pela presença no terreno. O Terras Sem Sombra é um festival “invisível”. Já lá vão 13 anos desde a primeira edição e continua desconhecido de muita gente; nos locais onde se realiza, ao longo de seis meses, passa também despercebido. Chegado a Sines, um desses locais, não se vêem pórticos nem grandes cartazes a indicar de que ali, naquele fim-de-semana, acontecia o Terras Sem Sombra. Esta invisibilidade não é necessariamente má, mas não deixa de ser sinal de que há oportunidades ainda por explorar.

O Terras Sem Sombra é um festival com um propósito muito nobre: valorizar a biodiversidade e o património por vezes esquecido do Alentejo litoral e interior, através de uma programação que leva as pessoas aos lugares e que é enriquecida com música clássica – um género pouco presente na comunicação social e, por isso também, mais longe daquelas cidades e vilas. É com este mote que se realiza em seis fins-de-semana em dez municípios distintos. Nos dias 15 e 16 de Junho, esteve em Sines, terra do mar e de Vasco da Gama.

Em cada edição intermédia do Terras Sem Sombra há um concerto de música clássica – até 2017, decorria em lugares religiosos (como igrejas semi-esquecidas) mas este ano tiveram de achar novos palcos devido a uma posição do Bispo católico português de afastar a cultura e o turismo do património da Igreja. O concerto é na noite de sábado; na tarde desse dia há uma visita patrimonial; e no domingo uma actividade focada na biodiversidade. A programação tem este formato e assim foi, este ano, em Serpa, Vidigueira, Odemira, Mértola, Ferreira do Alentejo, Beja, Elvas, Barrancos e Sines. Ficando apenas a faltar no itinerário Santiago do Cacém, nos dias 30 e 31 de Junho.

Sines, 15 de Junho. Numa brisa que já dava a entender que o dia seguinte ia ser de calor, visitou-se a cidade de Vasco da Gama, começando pelo castelo e terminando na casa onde o Navegador português terá nascido. Durante o passeio de mais de duas horas, exaustivo em explicação histórica, foram feitos alertas diversos quanto à estima de que o nosso património histórico necessita. Um desses avisos teve que ver com uma pequena igreja – a Igreja de Nossa Senhora das Salas –, uma obra encomendada por Vasco da Gama para a cidade e que permite fazer uma radiografia da personalidade artística deste. Foi dito que o monumento estava num estado degradante antes de ser recuperado, tendo havido a possibilidade de fechar novamente ao público, prevendo-se nesse cenário a sua degradação. Outra chamada de atenção foi feita perto da estátua ao Navegador edificada pelo Estado Novo. Ali ao lado, num casamento, deitavam-se confetes que o vento depressa se encarregou de espalhar e de levar até ao mar – poluição que o grupo que fazia a visita reprimiu, com algumas pessoas a tentarem apanhar alguns dos pequenos pedaços de plástico.

Este episódio foi recordado no domingo, enquanto, na Praia Vasco da Gama, se percebia as espécies marinhas aí existentes e se procediam a análises da qualidade da água – um conjunto de experiências com o intuito de consciencializar para a Natureza (às vezes invisível) que é preciso preservar. O festival também contribui para a literacia científica, aproximando investigadores (da Universidade de Évora, neste caso) da população e dando-lhes acesso a ferramentas e conceitos que no dia-a-dia não têm (ou que nunca tiveram ou que não têm desde que saíram da escola). Com estas actividades práticas, percebeu-se, por exemplo, que Sines, apesar de ser uma cidade rodeada por algumas fábricas e com muita actividade portuária, tem praias limpas. Como puderam explicar e mostrar, equipas da Universidade de Évora fazem uma monitorização constante desta água e da sua biodiversidade, procurando indicadores anormais, e desenvolvem também aqui alguns projectos de investigação especiais.

O Terras Sem Sombra é importante por isso. Entre a visita ao património e as actividades de biodiversidade, há um concerto de música clássica. Desta feita com o pianista Artur Pizarro que, um dia antes de partir para Alemanha, nos presenteou com cerca de duas horas de música que tantas vezes é desvalorizada. Um concerto de piano no auditório do Centro de Artes de Sines, projecto premiado do arquitecto Francisco e Manuel Mateus, é uma terapia de relaxamento e concentração a que nos devíamos submeter pelo menos uma vez por ano. Antes do piano de Pizarro, tivemos de ouvir um discurso do Presidente da Câmara, mais curto do que noutros fins-de-semana – disseram-nos –, mas prescindível na mesma medida. Interrogamo-nos se essas mensagens políticas não passariam na mesma ou não teriam maior impacto se os políticos fossem também eles “invisíveis”, deixando que as pessoas façam as suas avaliações e tirem as suas conclusões com base no que vêem no terreno.

Para o ano haverá mais Terras Sem Sombra em municípios que poderão não ser os mesmos, pois este é um evento de entrada gratuita que está condicionado pelo envolvimento financeiro das autarquias e por outras “manias” políticas. O facto de ser gratuito permite ao festival estar aberto a novos públicos e a público mais novo – em Sines, sentimos que existe uma “família” Terras Sem Sombra, caras que são familiares entre os diferentes fins-de-semana e que se repetem edição após edição. É um sinal de que o Terras tem um público fiel, através do qual é feito o passa-a-palavra do evento; mas é também sinal de acomodação. É importante que as mensagens do Terras Sem Sombra cheguem a uma audiência para além desta “família” e dos habitantes de cada município que acabam por aproveitar os passeios históricos, as actividades científicas e a música clássica que raramente lhes chega ao pé de casa.

O Terras Sem Sombra tem um propósito demasiado nobre para ser invisível nos espaços que ocupa e na comunicação social. Certo que surgem algumas notícias sobre ele em meios como o Expresso ou o Diário de Notícias mas insuficientes para montar um burburinho mediático num país centralizado em dois pólos urbanos e com a força aniquiladora dos grandes festivais.

Se calhar, faz falta ao Terras Sem Sombra comportar-se mais como um festival – interligando a programação que se espalha por vários concelhos e criando uma unidade não só regional, mas ao nível da programação. Em suma – e na perspectiva de um jovem lisboeta com vontade de descobrir o que se faz de bom noutras partes do país e de contribuir positivamente para essas iniciativas –, acreditamos que existe no Terras um grande potencial inexplorado e que a sua organização tem ainda bastantes desafios pela frente. Conseguiu-se uma boa base, mas falta, talvez, deixar os protocolos de lado e quebrar com algumas convenções políticas sobre o modo das coisas e simplesmente fazê-las.