A rádio nunca vai morrer, muito menos a Faneca

A Rádio Faneca, que todos os anos emite durante três dias em Ílhavo, é a prova disso. A rádio pode ser um palco de um festival e um evento social.

"Os Bruno Aleixo" foram a Ílhavo com o Jovem Conservador de Direira

No NOS Alive foi criado um palco comédia e no Rock In Rio um para os chamados “influenciadores digitais”. Em Ílhavo há um festival onde uma rádio é o palco, mostrando que esta não é uma coisa para ouvir sozinho no carro e que pode ter um futuro social. Durante três dias, muitas pessoas reuniram-se à volta da Rádio Faneca para ouvir música escolhida pelo Samuel Úria, entrevistas com os artistas que iam tocar no festival ou assistir aos programas de conversa e (des)conversa do Bruno Aleixo. Nem a chuva as afastou.

Há quem agoure que a rádio tem os dias contados, mas a Rádio Faneca prova o contrário. É transmitida online, sem fronteiras, e numa frequência FM, que pode ser sintonizada na zona de Ílhavo. Durante três dias, serve de maestro a todo um festival que se realiza em seu torno, com concertos de Ermo, Tomara ou Manel Cruz, histórias sobre monstros re-interpretadas do arquivo oral em pequenas peças de teatro, ou jogos para brincar em família.

Manel Cruz inaugurou os concertos da edição 2018

A Rádio Faneca faz parte da história de Ílhavo. Foi uma rádio pirata que em tempos era dinamizada por quem tomava iniciativa de meter discos ou pedir discos. Era um pretexto para amigos e vizinhos se encontrarem no jardim da cidade aos domingos e também para divulgar o comércio da zona. Em 2012, a Rádio Faneca voltou a emitir, desta feita, com um formato de festival e uma programação em seu redor. Na 6ª edição, percebeu-se que, mais que um fio condutor, a rádio podia fazer parte da programação – ser também ela um palco, frente-a-frente com o palco dos concertos. “Percebemos que a rádio não estava a ter o protagonismo que merecia e que a localização anterior criava alguns vícios de encontro”, explica-nos Luís Ferreira, que pegou em 2017 no Festival Rádio Faneca. “Tinha de ter uma programação e a reboque do Arquivo, o mote da edição deste ano do festival, fomos buscar pessoas que já fizeram parte do Rádio Faneca e partilhámos o palco com eles.”

O Samuel Úria e o Benjamin na Rádio Faneca

Pessoas como Samuel Úria que, além de uma hora de música subordinada à temática do peixe (por causa do nome do festival), nos mostrou pérolas pimba que ninguém além do Bruno Raposo, autor em Portal Pimba, conhece. Ou os Birds Are Indie, que fizeram questão de provar que Coimbra, a sua cidade-natal, é uma cidade com muito boa música, num programa intitulado “Local Affairs”, que é também o nome do seu último disco. Ou ainda o Luís Nunes aka Benjamin, que esteve uma hora em “Auto-Rádio”, que é como quem diz a meter música. Tal como Fausto da Silva: não é músico, mas gosta imenso de música – em especial a que é feita cá, em Portugal – é por isso faz parte da Rádio Universitária de Coimbra (RUC) nas horas em que não está a ensinar matemática.

O Fausto da Silva em “tarde livre” na Rádio Faneca

Mas não foram só músicos ou música a fazerem parte da Rádio Faneca. A Antena 3 emitiu a partir de Ílhavo, em emissão cruzada, dois programas – a já icónica Prova Oral, com  Fernando Alvim, e a Razão de Ser, onde Mariana Oliveira procurou precisamente a “razão de ser” de Luís Ferreira (uma bela entrevista, dizemos-vos já). Foi giro também ver duas dezenas de pessoas sentadas e outra dezena em pé enquanto João Moreira e Pedro Santo, o “duo” Bruno Aleixo, tiravam bolas numeradas de uma redoma e comentavam temas aleatórios com Bruno Henriques, a cara da personagem humorística Jovem Conservador de Direita.

A Prova Oral em directo de Ílhavo
Os criadores do Bruno Aleixo e o Jovem Conservador de Direita fora de personagem

Nos intervalos dos programas, a emissão continuava a cargo de dois locutores convidados: a Maria Inês Santos, que já se tinha aventurado nisto em edições anteriores, e o João Vaz Silva, agente de uma série de bandas e músicos portugueses. Um trabalho puxado mas simultaneamente uma terapia, como os dois concordaram no final da maratona. Para Luís Ferreira, a Rádio tinha um potencial por explorar e permite pluralizar os discursos em torno do festival, enriquecendo a dinâmica humana do mesmo. “Ter um evento que tem discursos diferentes, apesar de congruentes entre si, é muito bom. O facto de as pessoas não usarem sequer as mesmas palavras para descrever a rádio e o festival é sinal de que o discurso vive de um conceito e não de uma forma”, comenta. “Não é um discurso político, martelado, que quando fazes uma pergunta vais ter uma resposta sempre igual.”

A rádio também é feita pelas pessoas que a ouvem. A Maria Inês Santos e o João Vaz Silva a entrevista Luís Severo e interrompidos por uma simpática senhora

“Esta Rádio teve esse papel, ajudou a partilhar e a dar mais vozes, tanto à comunidade como às várias equipas que a compõem e aos artistas”, acrescenta, dizendo que isso a torna revelante não só para Ílhavo mas também para quem veio de fora experienciar o festival.

A rádio foi uma aposta ganha desta edição, mas, ainda longe do seu auge (afinal de contas, foi o primeiro ano como palco), deixa-nos especialmente curiosos quanto à programação que pode vir a ter no próximo ano e nos seguintes. Afinal de contas, o Festival Rádio Faneca só agora está a começar – longe da estagnação, tem vindo a ganhar uma forma mais esculpida e a aprimorar o conceito. De 2017 para 2018, notou-se uma evolução e isso é bom.

Luís Severo e os bacalhaus

Nos dias 8, 9 e 10 de Junho, houve mais bem mais que uma emissão de rádio em Ílhavo. O Luís Severo deu um concerto intimista no aquário dos bacalhaus, com direito a momento “à capela” de um dos temas do seu primeiro e ainda único disco (sim, está a trabalhar no próximo). Se Severo encerrou o festival, Manel Cruz abriu-o: porque Bandido ainda não está pronto, revisitou as suas várias bandas, de Foge Foge Bandido a Ornatos Violeta. Houve ainda os jovens MOTIV, os Ermo a agitar o pré-jantar, Tomara (ou a banda do marido da Márcia) e os Cais Sodré Funk Connection, seguidos do DJ Renato Alexandre – um set de um dos amigos de Bruno Aleixo à mercê da sorte da mesma redoma de bolas do programa de rádio (basicamente imaginem um alinhamento épico, com tudo e mais alguma coisa, menos lógica musical).

Fora os concertos, o festival compôs-se com uma exposição sonora, que, de phones no ouvido e mapa na mão, nos convidava a explorar o centro histórico de Ílhavo e o arquivo desta cidade; quatro histórias do “Bestiário Tradicional Português”, interpretadas em quatro pequenas peças, trazendo de volta tradições orais sobre monstros; e um concerto no domingo à tarde da Orquestra da Bida Airada, mostrando a música que se faz em comunidade em Ílhavo.

Os Ermo

O que é isso da programação cultural?

O Festival Rádio Faneca é uma parte do projecto 23 Milhas que tomou de assalto Ílhavo com a promessa de tornar a cultura num hábito do dia-a-dia e para todos. Luís Ferreira, que conhecemos da aldeia de Cem Soldos como programador do festival Bons Sons, é quem dirige este projecto que diz ser singular no panorama nacional. No final de 2016, Ílhavo decidiu contratar um programador cultural para dinamizar o calendário anual do município. Não é um desafio fácil, mas é sobretudo uma “questão de empatia”. “O projecto tem um objectivo, as pessoas têm as suas necessidades e os seus interesses. É perceber nestas camadas o que é que se sobrepõe, um ponto de encontro”, explica Luís na tentativa de nos elucidar o que é isto de fazer programação cultural. “É nesse ponto de encontro que nos interessa trabalhar.”

Uma das histórias do “Bestiário Tradicional Português”

Para programar – seja um espaço, um festival, um município ou até uma região –, há que colocar os gostos pessoais de lado, “é claro que há muita dimensão subjectiva, mas há muito método que vais usando e que vais aferido”. “Programar são as interrogações ‘o quê?’ e ‘como?’ ao mesmo tempo – o que é que vamos fazer e como é que vamos fazer, respondendo a um conceito e a um manifesto. Não é aquilo de que gosto ou não, é aquilo que faz ou não sentido para um projecto cultural”, explica. “Vais errar muito. Um projecto cultural é um projecto de erro.”

Programar é também lidar com preconceitos, muitos preconceitos – seja a estranheza do que é um projecto cultural no contexto de um município, sejam generalizações como “quando se diz aquela coisa do ‘o português é isto ou aquilo’”, o que, segundo Luís, pode castrar o “potencial enorme que existe em cada indivíduo”. Há também os preconceitos regionais, baseados na dicotomia campo/cidade e em generalizações que daí possam decorrer. Acima de tudo, “tens de estar atento às necessidades e ao potencial que existe no terreno, e depois evidenciar isso através de um programa. É isso que me interessa, para aumentar sempre a curiosidade das pessoas sobre os outros e torná-las muito mais permissivas à diferença”.

Dividindo-se entre Ílhavo (23 Milhas), Cem Soldos (Bons Sons) e outros municípios no Médio Tejo (através da iniciativa Caminhos), há um denominador comum entre tudo o que Luís faz: a cultura enquanto instrumento para trabalhar um território, promovendo encontros entre as pessoas que neles vivem e que os visitam.

A cultura, diz, serve para proporcionar qualidade de vida e, “em última instância, felicidade” – os encontros de que Luís tanto gosta de falar não são um conceito nada abstracto, mas palpável em eventos como o Rádio Faneca, construídos também pela comunidade e pela inter-ajuda mútua. “As pessoas recuperam para si as dinâmicas da comunidade. Têm outra vida e outros cuidados consigo mesmas”, refere, posicionando a cultura como um elemento de bem estar. “As pessoas sobrevivem muito, têm vidas pesadas e ainda os nossos meios de comunicação as carregam mais. O medo é muito fácil de ser trabalhado e as pessoas repelem-se muito facilmente através dele”, refere. “O medo tem de existir, faz parte do nosso modelo de sobrevivência, mas a curiosidade também é muito nossa, é inata, numa lógica de vivência e de crescimento. É sempre este limbo que temos de trabalhar”, esbatendo o medo e criando confiança num projecto como o 23 Milhas.

 

A Orquestra da Bida Airada, “made of Ílhavo”

Essa confiança vai sendo edificada evento após evento, edição após edição. Luís é adepto do crescimento cumulativo, em qualidade e não em escala, e da continuidade temporal. A cultura deve fazer parte da rotina do dia-a-dia e, se “há datas específicas que têm de ter uma celebração diferente como marco”, é fundamental um município oferecer um programa suficientemente abrangente que ofereça escolha e que não exclua nenhum público. O que aconteceria se a educação fosse só um curso de Verão ou a saúde um serviço pontual, pergunta-nos retoricamente? “Se conseguimos perceber o disparate de ter escola ou saúde em alguns momentos, ter cultura só de vez em quando é a mesma coisa”, responde. “A continuidade dos serviços, das propostas ou dos projectos é essencial para as pessoas se apropriarem deles – serem quase uma extensão de ti e tu criares com eles coisas novas.”

Quanto ao Festival Rádio Faneca, espera-se agora um período de reflexão e avaliação da edição que terminou. “Neste momento, o Rádio Faneca está num momento de transição, daí a temática do Arquivo, que fez com que pensássemos muito sobre o próprio festival e a sua pertinência no panorama 23 Milhas. Uma coisa é ele existir sem este projecto global, outra é existir neste contexto”, comenta Luís Ferreira. Estando o 23 Milhas a “trabalhar já a comunidade músicos e a música de Ílhavo”, propósito que anteriormente o festival ocupava, o Rádio Faneca fica, assim, “mais livre para trabalhar outras coisas mais específicas ou de vanguarda que ainda não estamos a fazer”.

Até para o ano, Ílhavo!