Primavera Sound: Vince Staples, A$AP Rocky e Ibeyi, the kids turned out fine!

Se sobrou algum motivo de queixa foi apenas e só a sobreposição entre Unknown Mortal Orchestra e A$AP Rocky.

NOS Primavera Sound

Fuuuck. Desculpem começar com um impropério mas, agora que me sento para escrever este artigo e passo em revista a noite de ontem, lembro-me de momentos que já me tinha esquecido – de pormenores especiais dos que ainda guardava na memória e da quantidade absurda de bons concertos a que pudemos assistir no segundo dia de NOS Primavera Sound.

Se sobrou algum motivo de queixa foi apenas e só a sobreposição entre Unknown Mortal Orchestra e A$AP Rocky. Como já vem sendo normal no NOS Primavera Sound, parece que é no segundo dia que a organização aposta todos os trunfos. Não sabemos se por uma questão estratégica ou por uma casual coincidência entre os nossos gostos pessoais e os nomes alinhados no segundo dia, mas o resultado foi uma noite imparável, a um ritmo ainda mais elevado do que a anterior. Ainda por cima, não havia chuva para compor os lamentos, apenas sol baixo a incomodar em alguns palcos como que a dizer “vês? a chuva não é assim tão má”.

Miguel Oliveira/Canal180

Foram umas 9 horas entre o primeiro concerto e o último concerto, um desfile de bandas invejável. Ainda que nem sempre dê para aproveitar um espetáculo do principio ao fim, dá para conhecer novos projectos musicais como aconteceu ontem com as surpreendentes Ibeyi ou para sentir o pulso e a garra que não se sente de outra forma, de bandas como os Idles. No total e para dar uma perspectiva estatística antes de passar à narrativa, dividimos as 9horas por 11 concertos.

A tarde começou cedo e, como quase sempre, em português; desta vez, não literalmente. Os escolhidos para abrir as hostilidades foram os Black Bombaim. Uma das bandas sensação dos últimos anos em Portugal, responsável por discos incríveis como o último partilhado com a lenda do Free Jazz Peter Brotzman. Aos Black Bombaim só faltava serem mais normais para cairem nas boas graças do público português e o problema é que são anormalmente bons a tocar música instrumental que, dispensando a voz, viaja do universo mais crispado do rock, ao mais imprevisível do jazz.

Miguel Oliveira/Canal180

Depois destes meninos, subiram ao palco uns senhores: Idles, com o seu punk rock britânico tão característico. O sotaque, as tatuagens, os bigodes, o ar desajeitado e o suor em bica num inglês que não é o típico beef. Ver bandas como esta ou como os Sleaford Mods, contrasta com a imagem que temos dos habitantes das terras de nossa majestade; desordem, garra e uma atitude anti-sistema que até os fez deixar um conselho digno de Bruno de Carvalho “dont read the newspapers; they’re full of lies”, são algumas das nuances que nos lembram que o Reino Unido tem algo mais especial do que os casamentos monárquicos, uma vitalidade e um à vontade único. Joe Talbot e Mark Bowen deram um verdadeiro espéctaculo de loucura. Andaram pelo meio do público e rebolaram pelo palco enquanto Adam Devonshire, Lee Kiernan e Jon Beavis seguravam as malhas com a restante ensamble.

Miguel Oliveira/Canal180

Pausa na revolução que estas bandas britânicas parecem sempre iniciar e momento para mais viagens musicais. Apesar do entusiasmo pela noite dentro, verdade seja dita o conhecimento do cartaz não era assim tããão aprofundado e as duas horas seguintes eram uma incógnita. Por entre nomes desconhecidos, vamos vagueando ao sabor do alinhamento e foi assim que chegámos ao palco Super Bock para assistir a Zeal & Ardormais uma mistura daquelas. Encabeçados pelo suíço-americano Manuel Gagneux, esta banda mistura sonoridades como nunca tínhamos ouvido antes: groove africano (blues, soul, you name it) com o poder do black metal. Reza a Wikipédia que a banda começou a pedido de dois comentários no 4chan e, no meio da inusitada mistura, não vemos motivo para desconfiar. As faixas começam quase todas com a voz pujante do vocalista, com uma textura carrega de groove, a que se juntam os coros que lhe conferem toda a estrutura do black metal. Não vale a pena tentar explicar mais, vão ouvir, para nós foi uma agradável surpresa – este parágrafo nem estava previsto na estrutura.

Terceiro concerto do dia e ainda são para aí 8 da noite. Tempo de seguir para Mattiel, a jovem de Atalanta que vai dando os primeiros passos com a atitude de quem veio para ficar por muitos anos. As suas músicas ainda não são composições que o público cante em uníssono, o seu espectáculo ainda não é imparável e electrizante; todavia, vê-se perfeitamente que tudo isto pode estar a um ou dois anos de distância e que Mattiel não se importa nem um bocadinho com ter de os percorrer. Chegou a Portugal na recta final da sua digressão europeia e algo nos diz que foi o princípio de uma boa relação com o público português. Mais uma boa surpresa.

O jantar em festivais só não devia ter hora marcada porque isso alongaria as filas mas como era bom ter uma hora de sossego sem medo de perder o que quer que fosse. Quem dava horas era a barriga, não o alinhamento e, por isso, rumámos até outra das atrações do festival: as Sandes do Guedes. Daí descemos em direcção ao palco principal onde as senhoras The Breeders já faziam a festa. O som não estava mau, o ambiente também não, mas depois da aceleração de Zeal & Ardor e da juventude de Mattiel pareceu ligeiramente desenquadrado – de qualquer forma, jantar ao som de The Breeders ao vivo é um luxo assinalável. Daqui partimos para outro ponto assente no cartaz, Grizzly Bear que lotavam o palco Seat, isto até começarmos a receber mensagens sobre o show das Ibeyi e nos vermos obrigados a mudar de rumo.

As gémeas francesas-cubanas, que ganharam notoriedade ao entrar no Lemonade de Beyoncé, mostraram que não se querem ficar por aí, nem desperdiçar a oportunidade dada, fazendo tudo para a agarrar. Uma toca teclados, outra fica responsável pelas percussões, ambas cantam, dançam e desafiam o público a soltar-se com uma energia contagiante e global acentuada pelas três línguas em que cantam: francês, espanhol e yoruba. Praticamente sem querer ou muito casualmente, acabaram por servir de aquecimento até momentos antes de Vince Staples.

Para descrever a actuação do rapper de 24 anos não há muitas palavras possíveis. Sozinho contra o mundo ou sozinho mas com o mundo, encarou o anfiteatro tão lotado como para ver Lorde e não descansou nem por um segundo. Com um visual de palco pensado ao pormenor e para cada faixa e uma indumentária à Navy Seal, reveladora do seu sentido de missão em palco, Vince Staples deu um dos concertos da noite. A versatilidade dos seus beats, sem que percam consistência, foi um dos pontos chave do espetáculo. Se, por exemplo, em Tyler, The Creator nos perdemos entre batidas, aqui perdemo-nos nas batidas. E isso faz toda a diferença. Proporcionou momentos de clubbing com beats a roçar o techno, e pedaços de puro hip hop, fazendo do conteúdo do seu discurso música para os nossos ouvidos. Com apenas 24 anos, a quantidade de trabalhos editados e performances a este nível, Vince posiciona-se como um dos rappers mais promissores do momento no panorama hip hop.

Do hip hop para o momento seguinte foi um saltinho; afinal de contas, Thundercat não se posiciona num espectro assim tão distante. Com o baixo que marcou discos como To Pimp a Butterfly, Thundercat fez as delícias dos festivaleiros ao seu estilo habitual e ainda dedicou uma faixa a Anthony Bourdain, cuja notícia da morte caiu de pára-quedas sobre muitos dos que por ali estavam. Thundercat prometia, mas Fever Ray ao vivo é uma experiência inegável e, a muito custo, lá migrámos entre palcos e não nos arrependemos. O projecto de Karin Dreijer Andersson tem uma componente fortíssima ao vivo que faz qualquer concerto valer a pena. A performance em palco das suecas cruza a música, a performance e o teatro, com momentos de humor e uma dose gigantesca de sátira.

O cabeça-de-cartaz desta segunda noite era A$AP Rocky e, apesar de a fasquia hip hop se ter estabelecido bem alto com o concerto de young Vince, o novo Rakim mostrou ser capaz de lidar com isso. Não foi tão dedicado nem tão incólume como Vince Staples – a meio chegou mesmo a ter de recorrer à bomba de asma –, mas com uma interação com o público até então rara conseguiu agarrar toda a multidão, literalmente. O poder de Rocky em palco foi tal que chegou para abrir clareiras de mais 50 metros mesmo nas primeiras filas, para dar lugar ao sempre louco moshpit (se não acreditam, passem no nosso Instagram). Rocky veio até Portugal testar o Testing, seu mais recente álbum mas, apesar da recepção ser bastante boa, não deixou de fora os tempos passados como Lord Pretty Flacko ou os sonhos com L$D, tudo para concluir que “The Kids Turned Out Fine”

Mensagem que de resto se aplica transversalmente à noite e a todo o festival: drogas mas não muitas, sexo mas não demasiado, qualidade e rigor mas sem ser motivo de obstinação, porque, como dizia Rocky, tudo acabará por ficar bem. Hoje há mais, para terminar.