Primavera Sound: da elegância de Father John Misty à loucura de Tyler

1º dia de NOS Primavera Sound e uma mão cheia de momentos únicos.

primavera sound tyler the creator
Miguel Oliveira/Canal180

Falamos todos os dias de alterações climatéricas e estavam à espera de uma Primavera previsível? A chuva arrefeceu expectativas, condicionou o trânsito e alagou o recinto mas não faz parar um festival – para nos ensinar que basta ser bom, não tem de ser perfeito – deixemo-nos de ser piegas. É verdade que o recinto quase todo de relva não augurava nada de bom neste cenário mas a queda de água cessou com o abrir das portas do festival. Se em Lisboa se celebra ao Sto. António, pode dizer-se que neste dia, os mais pessimistas devem ter passado a noite a rezar ao seu homólogo Pedro.

Miguel Oliveira/Canal180

De resto, e como nos outros anos de Primavera, apesar das mudanças cosméticas, alterações de patrocinadores e por mais barraquinhas de goodies que abram no recinto, o foco neste festival está sempre nos artistas. A seleção de nomes pode não ser a melhor de sempre, especialmente quando comparamos com o festival-irmão que se realiza uma semana antes na cidade de Barcelona, mas sempre dá para riscar alguns nomes da bucket list de qualquer melómano. Este primeiro é exemplo disso, como estreias de peso no nosso país: Tyler, The Creator; o restante cartaz: nomes fora do vulgar que não deixam de ser apostas seguras e de baixo risco: Lorde, Father John Misty ou Jamie XX. Não é a correria de outros festivais, nem o desfile de bandas de que nunca ouvimos falar na vida mas é uma boa noite de concertos na sempre agradável cidade do Porto; e é isso que tem de continuar a ser. Por muito que glitters e coroas de flores adornem o estilo e, perdoem-me, mas conferem-lhe um je ne sais quoi de festival pop.

O planeamento do festival não obriga mas convida aos fluxos constantes entre palcos. Podemos nem se conhecer a banda do momento mas ninguém veio a um festival para ficar sentado na zona da comida ou nas intermináveis filas. Para além da música, a comida do Porto – por exemplo, as Sandes do Guedes – continuam a fazer furor e, para que se perceba a referência, já se cria no festival o mito de que só se safa incólume ao tédio da bicha quem compra a senha as quatro da tarde.

Outra nota sintomática a marcar esta edição é a presença cada mais visível da marcas patrocinadoras: desde performances de dança com fibra óptica no meio dos festivaleiros (vale usar esta palavra em festivais sem campismo?), à “brandização” exagerada de stands de cenas, até ao palco que apresenta o novo sponsor.

Com medo da chuva atrasámo-nos a chegar e, ao chegar, terminavam as Waxahatchee. O tempo que ainda ouvimos o seu som foi mais ou menos o mesmo que demorámos a acertar na ordem das sílabas e a determinar uma lógica para saber onde e como colocar os pés no meio da lama, por isso acabou por ser apenas de warm-up e… muito pouquinho. Tinham a inglória tarefa de tocar para um anfiteatro natural já repleto mas notoriamente apreensivo.

Daqui seguimos para The Twilight Sad, a estreia do palco Seat. James Graham cantou entre tiques nervosos e acabou a conter as lágrimas. Primeiro momento de emoção no princípio de uma noite que prometia várias e diversas. O concerto de Twilight foi, se quisermos, o arranque oficial da noite e o exocrcisar do medo da chuva. A estreia do palco Seat trazia outra boa notícia: mais um palco com piso de alcatrão onde nem que chova a potes a lama nos chegará ao pescoço – pensar que aqui seriam mais dois dos concertos da noite era a tranquilidade de que precisávamos para aproveitar o festival. 

A partir daqui começam as decisões: Rhye ou Father John Misty foi o primeiro dilema da noite. 

Father John Misty com a receita do carisma: personalidade, versatilidade e excentridsde qb. Deu para quem queria ouvir os clássicos, namorar ao som das baladas e para aquecer para a noite de festival. Tudo isto, às vezes ao mesmo tempo, ao comando de Joshua Tillmans. O concerto começou atrasado 10 minutos, durou cerca de 1h mas foi bastante completo e satisfatório. Com as video-projeções a indicar o caminho que Father John ia seguindo entre a sua discografia – I love you, Honeybar com cenários de um cor-de-rosa delicado, e por aí adiante, sem deixar ninguém perdido. Mr. Tillmans foi a faixa que acabou por se destacar deste alinhamento, acompanhada por um video a fazer lembrar os anúncios dos ’80 e muita energia, marcou o concerto e libertou definitivamente o génio sensualo-intelectualo-criativo de J. Tillmans.

Miguel Oliveira/Canal180

Findo Father John Misty, a Lorde é a senhora que se segue no palco principal. A enchente esperada – sim, apontem este facto: muita gente veio ao NPS por causa da Lorde – baixava as expectativas de encontrar um lugar decente e aumentava a esperança de comer em paz. Não se verificou. As filas na restauração continuavam grandes apesar do mar de gente a assistir à neozelandesa ser absolutamente avassalador. E foi mesmo isso que o concerto foi, especialmente para a artista e para quem se identifica com o “exact same feeling” que escreveu num papel na outra ponta do mundo – palavras da Lorde. Houve lágrimas, muitas lágrimas, gritos histéricos, muitos gritos histéricos. Músicas conhecidas, um bom momento pop mas não muito mais que isso. Mas que raio podíamos querer mais? Talvez um pouco mais de critério e adequação ao tipo de Festival. Não existem duas Bjorks mas uma Lana Del Rey parecia ser mais a cena. Anyway, a quantidade de gente visivelmente agradada com o concerto da Lorde dizima qualquer ponto menos positivo que se pudesse apontar. Afinal de contas, temos todos o mesmo direito.

Depois do pranto da neo-zelandesa e de ser elevada em braços pelos seus bailarinos, tempo para o concerto de maior expectativa da noite. Tyler, The Creator preparava-se para subir pela primeira vez a um palco português e as dúvidas sobre como se apresentariam eram muitas – Tyler é sempre imprevisível e os concertos negociados para festivais também. Subiu a palco sozinho e sozinho se manteve até ao final, com a companhia de 3 homies que de lado no palco, fora do campo de visão, iam soltando as backs e mudando as faixas. Tyler aguentou e bem a multidão que esperava vê-lo há anos. Contudo, não foi uma grande surpresa, nem deu um Espeeeectáculo, percebem? Foi fixe, foi Tyler, mas sabe a pouco vê-lo assim sozinho. É divertido, excêntrico e muito, muito expressivo e teatral mas não a cria envolvência que uma troupe maior criaria. Também revisitou trabalhos antigos, sublinhando saber que “muita gente veio pelo Flower Boy, é giro ver o que esse álbum conseguiu”. (Numa nota lateral e que pouco tem a ver, só me lembrei do concerto de Oddissee no Mexefest e em como 6 meses depois se repete o booing mas desta vez com banda. Promotoras, that’s the way!). A tela de projeção foi mais uma vez um importante elemento cénico; neste espectáculo com peso redobrado por que Tyler estava efectivamente Lonely as Fuck. 

Miguel Oliveira/Canal180

Cantou deitado no chão, de pernas à chinês, escondido atrás dos holofotes; mostrou com orgulho o seu cabelo leopardo, o seu colete reflector e a t-shirt com as icónicas letras vermelhas: Golf. Se no público se dizia em tom de piada “tudo isto é cultura” que se tire à expressão todo o eufemismo. Isto é efectivamente cultura e uma cultura com que se identificam milhares de jovens portugueses, a música… é outra conversa, aqui a vibe é muito importante e nesse campeonato tudo conta. P.s.: a música foi fixe, não interpretem mal.

Miguel Oliveira/Canal180

Depois da descarga enérgica de Tyler, já não dava para muito mais. As mudanças de humor nas suas faixas desafiam a nossa inteligência emocional, tiram-nos da continuidade. Nada melhor que ir curtir a moca reflexiva para Jamie XX.  O problema é que tivemos todos a mesma ideia. À chegada ao palco principal onde o spin-off dos The XX iria actual, a quantidade de gente era tal que não permitia chegar com facilidade a menos de 200 metros do palco. Um Dj para tanta gente, acabou por não ser totalmente convincente. O facto de ser ao ar livre, num plano inclinado também dificultou a criação de um ambiente propício a sentir o beat ou, até para quem quisesse o habitual prémio de consoloção, ver o artista.

Para primeiro dia foram estes os momentos que ficam para a memória. Os dois dias vindouros de festival não permitem mais aventuras a este escriba cansado. Balanço positivo e claro, pelo menos não choveu, parece logo tudo melhor. Isso é que interessa, o que fica para a memória. Uma noite com bons momentos, alguns inéditos e provavelmente irrepetíveis. Nota negativa, como sempre nos festivais, fica para os concertos que não pudemos ver: Rhye, Starcrawler e Moullinex os medalhados nesta primeira volta davam para outra noite de festival. 

Miguel Oliveira/Canal180

Fotografias de: Miguel Oliveira/Canal180 // http://canal180.pt/

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