Primavera Sound: chuva entre emoções fortes no último dia de festival

Metá Metá, Nick Cave & The Bad Seeds e Nils Frahm tiveram a benção da chuva.

Diz a sabedoria popular que à terceira é de vez e assim foi com as ameaças de chuva no NOS Primavera Sound. À partida para o festival, na quinta-feira, as previsões do IPMA eram sensivelmente inversas mas o que fica como facto inapelável é que ao 3º dia de NOS Primavera Sound 2018 a chuva não deu tréguas nem por um minuto, pondo à prova o verdadeiro espírito do festival e dos festivaleiros. 

Nicole Goncalves/Canal180

À chegada, o maior atractivo não era nenhum palco nem tão pouco uma banda; a multidão ordenava-se na maior fila do festival para requerer uma daquelas capas à prova de água que inundaram as imagens do festival. Os que resistiam à chuva procuravam música para aquecer os corpos e as almas. E foi isso que encontraram, primeiro nas baladas delico-doces de Luís Severo, depois na irreverência punk dos Belako. Os projectos não têm absolutamente nada em comum, a não ser a alegria estampada que se vê no rosto dos seus intervenientes e que motiva o público a dar sempre mais. 

18 horas e os Belako já eram a surpresa da noite. Quatro putos, vindos do País Basco, metade homem, metade mulher e com uma atitude 100% punk e 200% cool. O seu esforço por interagir com o público e proporcionar um bom espectáculo, mesmo no meio da chuva, só se deixava abalar pelos sorrisos emocionados que especialmente o guitarrista e a vocalista não conseguiam esconder. Visivelmente jovens, os Belako são uma pequena mais valiosa demonstração de que punk is not dead e ainda em 2018 consegue ser cool. Aquelas profecias fatalistas sobre o hip hop ser o novo rock…. simplesmente não acreditem. Há espaço para todos e parecem estar todos a crescer, a diferença é que finalmente é lado a lado, sem tanta marginalização.

Belako – Nicole Goncalves/Canal180

Depois do punk dos Belako, foi a vez de Kelela se ligar ao público do Primavera Sound. Mais uma artista muito jovem que não disfarçava a surpresa de ver uma multidão de uma cidade até então desconhecida rendida à sua música. O gig foi bom, dentro do que se esperava, mas Kelela merecia o calor da luz e o romantismo do pôr do sol.

Depois deste começo marcado por gente mais jovem – Kelela, a mais velha, tem 35 – o destaque ia para um quintento de músicos que se vai tornando clássico no Brasil. Kiko Dinucci, Juçara Marçal e Thiago França são os membros fundadores de Metá Metá e alguns dos elementos mais activos cena paulistana contemporânea de onde resultaram, só para dar um exemplo, discos como o de Elza Soares. Metá Metá são uma mostra viva da música alternativa que se faz no Brasil para além daquilo que costuma chegar a este lado do Atlântico. Tinham estado em Lisboa recentemente mas o nome soava a desconhecido para a maioria do público, que acabou por se render aos devaneios jazzísticos profundamente marcados pela guitarra distorcida de Kiko Dinucci, o saxofone de Thiago França e a voz angelical de Juçara Marçal. “Na chuva dançou […] chama não se apagou.”

Dava-se por encerrada a primeira parte do festival – que é como quem diz, abriguemo-nos por uns momentos para secar o que se puder. A tenda coberta ao pé da comida permitia espreitar Public Service Broadcasting e assim foi – contudo, distância, chuva e barulho não permitiram sentir a cena.

Depois de uma pequena pausa, chegava um dos momentos mais aguardados da noite, Nick Cave & The Bad Seeds. Chovia ininterruptamente mas, como ficou provado, isso não é assim tão importante ou decisivo e o palco NOS voltou a ficar completamente lotado para receber este senhor. De resto, Nick Cave foi solidário e dando asas à sua habitual loucura cantou à chuva, perto do público na maioria do tempo. Sempre misterioso, seguro de si e no controlo das suas emoções, proporcionou um momentos de êxtase aos fãs. Tudo culminou com a subida de duas dezenas deles ao palco para terminar em beleza a última canção. 

Nicole Goncalves/Canal180

De Nick Cave seguia-se para outro momento potencialmente emocionante: Nils Frahm. O conhecimento da sua música era parco mas a descrição prometia. Se um homem com um piano consegue ser emocionante, imaginem o que fez Nils Frahm que montou um autêntico estúdio em palco com, pelo menos, uns seis teclados diferentes. A melhor palavra para descrever será provavelmente hipnotizante e intenso. A reconstrução ao vivo e por camadas, das suas músicas, os loops repetitivos e atraentes, criaram uma espiral de emoções inesperada em contexto de festival. 

Da viajem de Frahm para outra viagem, a dos Mogwai. Reduziu-se o número de teclados, juntaram-se algumas guitarras para sacudir a chuva mas mantiveram-se as emoções fortes. Dois momentos de música instrumental a lembrar o potencial de emoção da música em estado puro e o festival começava a aproximar-se do final – ou, pelo menos, a stamina e a resistência à chuva que por esta hora triplicou, como a fila para o único palco coberto.

Escasseavam as opções seguras e os sítios onde esperar pelos outros nomes de luxo que se perfilavam no cartaz: Arca às 2h30 e Talaboman às 4h00. As impressões vindas de Barcelona também não auguravam o melhor do Venezuelano e depois de 3 dias e cerca de 30 bandas, chegar às 4h… só se fosse a rastejar.