E no Mundial da democracia, quem sairia vencedor? Portugal com lugar no pódio

Os resultados no que toca à realização democrática não são propriamente surpreendentes, com o topo e o fundo da tabela a serem previsivelmente ocupados por Suécia e Arábia Sáudita.

O Mundial arrancou e durante um mês vamos ouvir falar de 32 países, das suas seleções de futebol e dos seus principais trunfos (nas alas). Durante este tempo, normalizam-se todos os estados e nações equiparando-se sem comentários que vã,o para além das quatro linhas, salvo em raras excepções humorísticas, protagonizadas muitas vezes por quem não liga assim tanto ao futebol mas se vê envolto ou arrastado no espírito do Mundial.

A contrariar esta normal tendência, sugerimos aproveitar o momento para que se coloque em perspectiva os países de onde provêm as selecções que se defrontam em campo. O jogo de abertura do Mundial não podia, de resto, ser um exemplo melhor de como a questão pode ser interessante. Rússia e Arábia Saudita, países com regimes políticos duvidosos, foram os primeiros a dar o pontapé de saída no Mundial 2018.

Alexandre Afonso, professor assistente na Universidade de Leiden, na Holanda, utilizou mais uma vez as suas capacidades de visualização de dados e criou uma análise gráfica que permite explorar um pouco mais essas diferenças extra-futebolísticas.

Cruzando o ranking da FIFA com os dados sobre a saúde eleitoral democrática do instituto V-Dem, da Universidade de Gotemburgo, criou 3 gráficos que nos permitem ter uma ideia de quem ganharia o Mundial da democracia e, por outro lado, das relações entre o desenvolvimento no desporto e a tendência democrática.

Os resultados no que toca à realização democrática não são propriamente surpreendentes, com o topo e o fundo da tabela a serem previsivelmente ocupados por Suécia e Arábia Sáudita, respectivamente. A análise torna-se por isso mais interessante olhando ao meio da tabela e para os cruzamentos acima referidos.

Relacionando os dois universos – futebolístico e democrático –, a Alemanha sobe para primeiro, valendo-se da mais fraca prestação desportiva da democrática suécia. Noutro dado interessante e que salta à vista, é possível perceber-se a discrepância entre os resultados desportivos e democráticos no Brasil, que surgindo como o segundo país mais bem posicionado no ranking Fifa é apenas a 11º no que toca ao cumprimento dos preceitos democráticos.

Outras análises semelhantes foram sendo feitas nestes dias. A organização Freedom House, que monitoriza o nível de liberdade em volta do globo, fez uma análise semelhante à de Alexandre Afonso, cruzando desta feita o índice de liberdade vivendo em cada país.

Tanto numa análise como na outra, destaque para a posição portuguesa, que se destaca no top 3 na relação entre sucesso desportivo e democrático.

Num comentário é relevante também que se evidencie como o sucesso desportivo, ou a simples presença em certâmes como este, aproximam países com regimes absolutamente criticáveis de um estatuto de normalidade ou, por outro lado, como os comentários sobre as suas prestações podem basear-se em preconceitos e agudizar estereótipos sem que haja mais escrutínio, novos dados ou informações relevantes no plano social ou política – uma mostra de como o futebol pode enviesar percepções em vários sentidos.