Da política ao festival: Marcelo confirmado no Rock in Rio

Se Cavaco só ouvíamos praticamente em mensagens de Ano Novo e cerimónias oficiais, com Marcelo será difícil que chegue ao dia um com algo novo por dizer.

Marcelo Rebelo de Sousa Photo by Sam Barnes/Web Summit via Sportsfile

Mais do que por questões políticas – a complexa gestão de um Governo de acordo e não maioritário parece não ser a principal ocupação do PR –, o mandato de Marcelo Rebelo de Sousa tem sido marcado por questões mediáticas. Marcelo trouxe para o gabinete do Palácio de Belém um estilo antagónico ao do seu antecessor, Cavaco Silva.

Se Cavaco só ouvíamos praticamente em mensagens de Ano Novo e cerimónias oficiais, com Marcelo será difícil que chegue ao dia um com algo novo por dizer. Fazendo jus à sua personalidade reconhecidamente carismática e à empatia que foi criando com o povo português (depois de mais de uma década a fazer comentário político na TVI), o “Presidente dos Afectos” tornou-se numa presença expectável e quase sempre assídua em todos os grandes temas nacionais – mais do que nos momentos importantes, Marcelo aparece nos mediáticos.

Às questões chamadas fracturantes sobre os seus pareceres políticos não é raro vermos Marcelo Rebelo de Sousa adiar as respostas, já nos temas mediáticos é presença garantida. Foi assim na Feira do Livro de Lisboa, onde filas se juntaram por uma selfie; foi assim também no campeonato do mundo de futebol, tornando-se o primeiro Presidente dos países das proximidades a assistir ao vivo a um jogo do torneio – por exemplo, Macron já anunciou que só marcaria presença caso os Les Bleus chegassem às meias.

Uma homenagem a Zé Pedro

Depois desta sequência, só faltava a Marcelo uma presença num festival. E eis que, aproveitando o facto de este ano se realizar em Portugal o Rock In Rio, esta falta será suprida. Será no concerto dos Xutos & Pontapés, marcado como homenagem ao recém falecido Zé Pedro. E Marcelo não será o único político a marcar presença.

Ferro Rodrigues, Francisco Louçã e Catarina Martins são outros dos nomes que têm sido dados como presenças garantidas neste momento de homenagem a uns dos grandes representantes do espírito punk e anti-sistema em Portugal, em que a banda cantará o clássico “A Minha Casinha”, acompanhada por um coro de 80 pessoas.

Políticos em festivais

A presença de políticos em festivais também não é propriamente de estranhar; noutras geografias, nomeadamente no Reino Unido, Jeremy Corbyn fez presença em concertos dos Run The Jewels em prol da sua campanha. Também o fez Bernie Sanders.

O que continua a surpreender nestas movimentações é a forma como são mediaticamente abordadas, privilegiando quase sempre e exclusivamente o Presidente da República, criando uma aura de mediatismo exagerado em seu torno, onde o escrutínio da acção política é esquecido em prol de um acompanhamento em directo e em exclusivo.

A presença mediática de Marcelo gera um ponto geralmente a favor na opinião pública, beneficiando do contraste referido com o seu antecessor. Contudo, não pode ou não se deve sobrepor às funções designadas em Constituição. Marcelo-comentador, cantor, a dar toques de bola ou a cuspir barras de rap são bons momentos televisivos mas, por vezes, dúbios momentos políticos uma vez que privilegiam simbolismo a informação, escrutínio e crítica.

E se, quanto a este mandato os efeitos podem não ser imediatamente notórios, à entrada na era da reputação, o excesso de peso dado à popularidade do Presidente pode enfraquecer as próximas eleições ao cargo, levando os eleitores a priorizar critérios de menor importância.