A LocalCoinSwap quer revolucionar o mercado redistribuindo os lucros

No primeiro trimestre deste ano, a plataforma de trocas Binance deu mais lucro do que o clássico Deutsche Bank – 200 milhões de dólares em comparação com 146 milhões do banco alemão.

Chama-se LocalCoinSwap. No mainstream, pouco ou nada se ouviu falar sobre esta empresa. Em pesquisas pela internet, para além do seu site, apenas é possível encontrar um par de vídeos produzidos por aficionados das criptomoedas, que analisam a sua documentação e comentam a sua proposta de valor. Ao contacto com o Shifter, chegou João Barroso, que, a partir da Bélgica, integra esta empresa e deu a conhecer a ideia de uma forma mais detalhada, dando nota do entusiasmo de todos os envolvidos e das especificidades da sua organização.

A LocalCoinSwap ainda não está funcional mas chega com a promessa de se tornar o primeiro mercado de troca de criptomoedas totalmente democrático. Isto é, um sítio onde os seus utilizadores são igualmente accionistas da plataforma, com poder de decisão e direito a uma percentagem no momento da repartição dos lucros. Promessa ousada que João Barroso diz inspirar-se no espírito Cypherpunk que as criptomoedas fizeram reviver.

Para perceber a dimensão da revolução a que a LocalCoinSwap se propõe é preciso conhecer o mercado das transacções de criptomoedas e ter noção de que, por exemplo, no primeiro trimestre deste ano, a plataforma de trocas Binance deu mais lucro do que o clássico Deutsche Bank – 200 milhões de dólares em comparação com 146 milhões do banco alemão. A Binance conseguiu tal fasquia apenas oito meses depois de ter sido criada, por Changpeng Zhaoou (ou CZ, como é conhecido no meio),

Distribuir os lucros das transacções pelos utilizadores

Se a principal proposta das criptomoedas é a descentralização do sistema, a concentração do número de transacções destas moedas em alguns mercados online – como a Binance  – está a fazer com que neste universo se centralizem os lucros gerados pelas margens das trocas monetárias; assim se explicam as somas atingidas em tão pouco tempo.

E é esta outra forma de centralização que a LocalCoinSwap diz querer combater. Para isso, estruturam-se de um modo diferenciado: não têm CEO e, mais do que utilizadores, procuram accionistas com poder de voto e habilitados a receber dividendos ao final de cada ano. Não através de acções mas de… cripto-acções.

A ideia, como apelidam no white paper (documento que suporta qualquer ICO), é “tokenizar” a propriedade do mercado, criando para tal as Local Coin Shares (LCS) – uma recriação do mundo das acções aplicado ao universo das criptomoedas, com alguns detalhes que garantem a suficiente dispersão que continue a corresponder ao conceito.

Com esta promessa, de migrar para o blockchain os contratos associados à propriedade das empresas, os promotores da LocalCoinSwap (não lhes chamaremos donos) garantem aumentar o nível de transparência e, por consequente, diminuir a possibilidade de fraude. Para isso todos os contratos em que corre a plataforma são públicos e acessíveis na plataforma GitHub.

Vamos aos detalhes e… por fim aos contras.

Sem CEO, quem manda?

Uma das particularidades que distingue esta empresa desde a primeira impressão é que na sua estrutura – dada a conhece no tal white paper – a LocalCoinSwap não designou nenhum CEO. Os responsáveis máximos da organização são os programadores responsáveis pela criação da plataforma e dos protocolos que permitem o seu funcionamento, mas nenhum deles é proprietário maioritário da empresa ou ocupa um cargo distinto de gestão. Esta diferença na definição hierárquica pode parecer menor mas é substancialmente reveladora da promessa da LocalCoinSwap.

Como referimos sucintamente no parágrafo anterior, mais do que utilizadores, a LocalCoinSwap quer pequenos accionistas como se de uma gigante cooperativa online se tratasse. Assim, cada decisão será votada pelos detentores das Local Coin Shares (LCS), que terão direito a uma percentagem de votos correspondente ao número de LCS que detém.

Nesse sentido, em cada momento de decisão, a equipa de gestão da plataforma distribuí tokens de voto proporcionalmente pelos utilizadores e disponibiliza duas moradas, que, neste caso, funcionam como duas urnas onde cada um pode colocar os seus votos. Este tipo de votação é também ele uma prova de conceito, que pretende explorar e mostrar como as criptomoedas podem enriquecer as soluções democráticas. Ao acontecer desta forma, cada votante não precisa de se render à dicotomia do “sim” ou “não”, podendo repartir os seus tokens de voto numa percentagem que considere mais justa – por exemplo, 60% no “sim” e 40% no “não”, ou outra percentagem que traduza a sua opinião.

Como a promessa e a estrutura revelam, a LocalCoinSwap pretende ser altamente descentralizada e conta, para isso, com a ajuda de quem acredita e se entusiasma com a sua promessa de valor – remunerando muito dos colaboradores com LCS, em vez de dinheiro real. É disso exemplo o Bounty Program. Anunciado num fórum de entusiastas de criptomoedas, este programa foi um modelo criado por este grupo para contratar vários serviços, oferecendo acções da empresa em troca.

Assim foram contratadas traduções, promoção e outros pequenos mas indispensáveis serviços à criação do produto viável. Para este Bounty Program funcionar, a LocalCoinSwap reservou 5% das cripto-acções e criou um sistema de correspondência entre a ajuda e a remuneração, com diferentes retribuições a serem dadas aos utilizadores em função do seu trabalho ou dos números de alcance das suas redes sociais, no caso da promoção.

Contras

Se até aqui tudo parece bem, há algumas questões que importa colocar na análise desta iniciativa. Como muitas iniciativas no mundo das criptomoedas, a esmola faz-nos sempre desconfiar e este caso não é excepção, sendo uma das questões mais importantes de ter em conta: a da regulação.

A LocalCoinSwap quer posicionar-se como um mercado para troca directa de várias moedas, fiduciárias e criptográficas, já existentes e que venham a surgir. Nesse sentido e para que se mantenha competitiva e útil, a plataforma está dependente da forma como este tipo de transacções for regulada em cada mercado. É certo que os lucros da Binance dão um especial brilho a esta área de negócio, mas é preciso ter em conta que muitas das transacções ainda se dão numa zona cinzenta no que toca a legislação – muitos países, como Portugal, ainda não definiram leis nem regras de tributação para este tipo de transacção, o que por agora as torna atractivas. O surgimento destas regras e as suas potenciais restrições são por isso uma preocupação a ter em conta se pensarmos no potencial do projecto a longo prazo, para percebermos a sua influência basta recordarmos a queda de valor das criptomoedas resultante da legislação proibitiva em países como a China.

Os próximos passos

Seja qual for o desfecho no horizonte desta empresa, os próximos passos estão bem delineados e ao acesso de qualquer utilizador, reforçando a política de transparência por que se querem distinguir. Em trabalho desde 2015, a equipa encabeçada pelo especialista em segurança Aapeli Vuorinen planeia lançar a primeira versão da sua plataforma ainda este mês e o primeiro momento de votações já no próximo, tendo previsto outros passos importantes como a criação da API e da aplicação para smartphones.

O seu white paper pode ser consultado no seu site, estando disponível em várias línguas e oferecendo interessantes detalhes técnicos sobre a plataforma, nomeadamente a nível da arquitectura de servidores focada na segurança.

Nota importante:

Escrever sobre criptomoedas não é incentivar à sua compra