Da repressão à liberdade sexual nas distopias de Orwell e Huxley

De que forma a liberdade sexual é essencial para a liberdade e para o pensamento crítico?

liberdade sexual Orwell
Ilustração de Ricardo Santos

Diz-nos a Bíblia que toda a mulher que viva com um homem, sem ser casada, vive em concubinato e que qualquer acto sexual entre os dois é considerado fornicação. Em linha com o raciocínio anterior, o cardeal patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, veio recentemente aconselhar a abstinência sexual a todos os casais recasados que não tenham obtido a nulidade do casamento anterior.

Embora estas palavras tenham sido recebidas com incredulidade e até alguma comicidade, a verdade é que esta tentativa de ditar o comportamento sexual das pessoas é na realidade um laivo da velha e ancestral prática da Igreja Católica de tentar restringir a liberdade sexual dos seus crentes. Através de uma forte doutrinação inerente a conceitos como ‘adultério’, ‘imoralidade’ ou ‘profanação’, aquela conseguiu, ao longo de séculos, inculcar um sentimento de culpa que mesmo assim não foi capaz de fazer desaparecer os comportamentos ‘adúlteros’, ‘imorais’ e ‘profanos’ que ambicionava eliminar.

No entanto, no que esta doutrina foi realmente eficaz foi na criação de várias gerações de indivíduos sexualmente recalcados. Até que ponto este controlo da conduta sexual pode ter influenciado a subserviência dos cristãos e a hegemonia cultural e espiritual da Igreja durante a Idade Média que, por sua vez, afundaram a civilização europeia num mar de trevas?

Para esta discussão partimos de dois livros, 1984 e Brave New World, escritos por dois ingleses no séc. XX, Orwell e Huxley, respectivamente. As histórias destes dois livros são sobejamente conhecidas: ambos apresentam sociedades distópicas em que uma elite consegue manter-se no poder à custa da subtracção do espírito crítico aos restantes indivíduos.

Importa, por isso, reflectir sobre a abordagem de cada um dos livros à sexualidade. Se, em Orwell, o instinto sexual é reprimido e castigado e a monogamia obrigatória, em Huxley, por outro lado, o primeiro é incentivado desde tenra idade e a segunda recriminada. As perspectivas não podiam ser mais antagónicas, mas a verdade é que o objectivo é o mesmo, a subtracção do espírito crítico. Para compreender esta contradição exponhamos alguns factos científicos sobre o assunto.

No dealbar do séc. XX, Freud trouxe à humanidade um inestimável contributo para o conhecimento da psique e do comportamento humanos. Uma das suas principais descobertas foi que as “instâncias morais do ser humano” em vez de serem características inatas são, pelo contrário, determinadas pela educação dada pelos pais durante a infância. Nesse sentido, a repressão sexual, que se inicia nessa altura, começa por criar conflitos entre os desejos do indivíduo e as proibições dos pais, sendo mais tarde assimiladas pela moral. Assim, a moral actua no indivíduo durante a vida inteira como uma forma de repressão que contraria os seus impulsos sexuais.

Sociólogos como Reich, Marcuse e Browne tentaram perceber as implicações desta descoberta na estrutura dos sistemas sociais. Diz-nos Reich, em The Mass Psychology of Fascism que “a estruturação autoritária do homem se processa através da fixação das inibições e medos sexuais na matéria viva dos impulsos sexuais [sendo que assim] a proibição sexual causa uma paralisação geral do pensamento e falta de espírito crítico, [cujo objectivo é a transformação do indivíduo num] súbdito da ordem autoritária, suportando-a apesar do sofrimento e humilhação”.

Ou seja, segundo Reich, um indivíduo que seja submetido a uma repressão sexual desde a infância é mais permeável à subjugação por outros indivíduos. Estes sociólogos registaram, também, que do recalcamento sexual resulta outra força que “apoia activamente a ordem autoritária”. A origem desta força é a satisfação dos impulsos sexuais reprimidos nas manifestações da ordem autoritária. Veja-se, por exemplo, o mecanismo libidinoso do militarismo com os seus militares em uniformes elegantes ou o efeito excitante do ritmo dos tambores que pontuam os desfiles militares, tanto na realidade como em 1984.

Por seu turno, na parábola de Huxley, mais do que as implicações directas da liberalização sexual na psique humana, o autor foca-se nas consequências que a promiscuidade tem nas relações sociais e inter-pessoais. A abordagem huxleyana argumenta que a liberalização sexual, a par do condicionamento levado a cabo durante a infância, conduzirão ao desaparecimento de relações amorosas e, por conseguinte, ao fim do amor e da paixão.

Desta forma, a inabilidade de sentir emoções profundas, aliada à toma do soma – uma droga que deixa os “Brave New Worlders” ligeiramente anestesiados e que estes tomam sempre que se sentem frustrados, desiludidos ou tristes – leva a que os personagens vivam vidas superficiais e desprovidas de espírito crítico.

Assim a liberalização ou, se quiserem, a democratização dos costumes sexuais surge integrada num contexto mais alargado que visa, em primeira instância, a alienação. Nesse sentido, os habitantes do Brave New World vivem num estado de felicidade constante. Uma felicidade relativa que mantém os cidadãos num estado de apatia, tal como nos diz Neil Postman no final do livro Amusing Ourselves to Death: “(…) aquilo que afligia as pessoas de Brave New World não era estarem a rir-se em vez de pensar, mas sim não saberem do que se estavam a rir e terem parado de pensar”.

Posto isto, importa talvez notar que Huxley, para além de ter feito vista grossa às teorias de Freud, parece ter sido incapaz de conceber relações sexuais guarnecidas de sentimento e paixão fora de uma relação monogâmica. Esta será talvez a implausibilidade maior no seu relato distópico. Até porque a História nos mostra que, em determinados momentos, a liberalização dos costumes sexuais conduziu a um maior auto-conhecimento e respeito mútuo. Veja-se, por exemplo, a sociedade Apache do início do séc. XIX onde os membros das tribos gozavam de uma liberdade sexual quase total. Socialmente, os seus membros viviam naquilo que se poderia designar de associação livre em oposição à associação involuntária que é a base da existência dum Estado. Desta forma, e neste caso, a liberalização dos costumes sexuais trazida à tona por Huxley conduziu não à fortificação do Estado, mas ao seu desaparecimento.

Em qualquer dos casos, a importância destes livros extravasa o âmbito das profecias científicas que se propõem fazer e torna-se, por isso, um marco incontornável do espírito humano. A sua virtude reside precisamente no apelo feito à valorização do espírito crítico, quer seja numa sociedade capaz de escrutinar os seus superiores, quer seja no plano individual pelo questionamento da própria vida e existência.

Passadas décadas e séculos desde a publicação destes livros, as profecias científicas tornar-se-ão certamente obsoletas, mas essa virtude permanecerá intemporal.

Texto de Afonso Anjos

(Nota: este texto foi redigido pelo Diferencial, jornal dos estudantes do Instituto Superior Técnico, a propósito de um debate que decorrerá esta sexta-feira, 8 de Junho.)