A lei sagrada das discussões online: tudo acabar em Hitler (ou Trump)

A história por detrás da famosa Lei de Godwin.

Sempre que socialmente atravessamos momentos de maior discussão online é inevitável, por todo o lado, começarem a surgir as analogias e comparações seja de quem for aos políticos e aos regimes mais condenáveis da nossa história. Geralmente com uma desproporção abismal, justificações dúbias ou simplesmente em CAPS LOCK, comparam-se quem quer que esteja na berlinda com um dos genocidas mais famosos da história, Hitler, ou outra figura semelhante que no momento ocupe esse lugar de “pior pessoa da história”.

Pode parecer casual mas não é. E a prova disso é que, há mais de 20 anos, que esta tendência foi detectada por um advogado norte-americano, que cunhou o termo pelo qual agora a podemos mencionar. É a chamada Lei de Godwin e diz que:

“À medida que uma discussão online se alonga, a probabilidade de surgir uma comparação envolvendo Adolf Hitler ou os nazis tende a 100%.”

Mike Godwin foi o autor desta formulação que, apesar de se assemelhar em tudo com uma lei, não o é propriamente como o próprio confessou 18 anos mais tarde, num extenso artigo, reflectindo sobre a evolução do conceito.

Mais do que afirmar uma descoberta científica ou cunhar um termo científico sobre um hábito social, a ideia de Godwin era estabelecer uma experiência mimética que pusesse quem profere essas comparações a pensar na sua proporcionalidade. A inspiração, segundo o próprio conta, foi a leitura da obra de Primo Levi, onde o escritor retratada com detalhe e emoção as condições de desumanização a que havia sido sujeito nas mãos do regime Nazi.

Confrontado com os padrões de maus tratos e de desrespeito pela dignidade da vida humana, e incrédulo com a forma como se permitiu que tudo aconteceu, Mike Godwin inspirou-se num artigo da revista Whole Earth Review sobre memes e ideias virais e… tentou criar um, assumindo por conta própria o trabalho de o disseminar nos meios de que dispunha na altura: a Usenet.

Assim, percorria fóruns e intervinha em discussões, reiterando a lei de Godwin sempre que este se aplicava. Depois, foi só esperar que o conceito desse entrada na Wikipédia para passar um daqueles mitos da Internet no limbo entre a verdade e a piada, mas que cumpre o seu objectivo.

“And to a great extent, our challenge as human beings who live in the period after that inflection point is that we no longer can be passive about history—we have a moral obligation to do what we can to prevent such events from ever happening again. Key to that obligation is remembering, which is what Godwin’s Law is all about.”

Quem conta um conto acrescenta um ponto

Como a todos os virais, os internautas fizeram questão de acrescentar mais algumas e à lei acrescentaram-se corolários que determinam como agir como esta é violada. Em alguns fóruns online, mantém-se o ritual de encerrar tópicos em que algum use a menção a Hitler como um argumento, dando essa pessoa como a derrotada na discussão.

Uma distinção importante a fazer é entre esta “lei” e o postulado de um professor da Universidade de Chicago, Leo Strauss, habitualmente conhecida como Reductio ad Hitlerum. Nesta definição, mais séria, o filósofo político crítica a falácia argumentativa de reduzir alguém ou os seus argumentos a Hitler.

De Hitler a Trump

Com o passar dos tempos e o surgimento de novos protagonista num teatro mediático, as ideias tanto de Godwin, como de Strauss, parecem começar a sofrer algumas mutações. Uma delas é a actualização para a figura de Trump.

Apesar da fama de Mike Godwin na Internet provir sobretudo deste momento, o autor deste early-meme continuou muito próximo do universo digital, tendo inclusive pertencido ao Conselho Geral da Fundação Wikimedia entre 2007 e 2010.

Em 2015, e no começo da campanha política de Donald Trump, Mike Godwin assinou um artigo no Washington Post, reforçando a ideia de que, quando se compara alguém a Hitler, se deve fazê-lo com algum cepticismo e remantando que não deve haver qualquer hesitação na hora de utilizar as novas ferramentas digitais para desafiar os potenciais líderes e confirmar os factos.

“The one thing we shouldn’t be skeptical of is our right — our obligation, even — as ordinary individuals to use the Internet and the other tools of the digital age to challenge our would-be leaders and check the facts.”