Gutenberg: o “novo WordPress” promete mudar 30% da Internet e tem dedo português

O “novo WordPress” vai nascer dentro do WordPress. Artigos, páginas, plug-ins e temas vão ser conjuntos de pequenos blocos.

Gutenberg WordPress

Chegados ao WordCamp, no Porto, já se ouviam piadas e perguntas sobre o Gutenberg, a interface – se assim lhe podemos chamar – que promete mudar a forma como se publica conteúdo na plataforma WordPress – que se estima que seja usada em 30% dos sites existentes na Internet. O Gutenberg vai estruturar artigos, plug-ins e temas em blocos, que podem ser editados individualmente ou em grupo, automatizando assim algumas tarefas.

Mudar milhões de sites pela internet fora não é, como se imagina, uma tarefa fácil ou para levar de ânimo leve. Implica estruturar bem a mudança e envolver a comunidade, escutando as suas preocupações. Lançado em 2003, o core WordPress foi sendo ao longo dos anos aprimorado com shortcodes, meta-boxes, custom post types e outros elementos de customização que com os temas e plug-ins permitiram tornar a plataforma mais rica e personalizável. Com o Gutenberg, tudo o que já existe vai continuar a ser suportado com a expectativa de que, ao longo do tempo, com a introdução do conceito de blocos em todo o WordPress os autores de temas e plug-ins adaptem as suas ofertas actuais.

O Gutenberg vai ser lançado faseadamente em três momentos. A primeira fase afectará apenas os artigos, seguindo-se a mudança na forma como se montam páginas e, por fim, os blocos redefinirão temas e plug-ins, permitindo a todo o tipo de utilizadores, incluindo os menos aptos com código, personalizarem facilmente os seus sites e visualizarem como estes vão aparecer ao público directamente no editor – sem shortcodes, nem meta-boxes. A ideia é, assim, que a experiência de edição seja, no geral, mais rica, maleável e representativa do produto final.

Como nasceu o Gutenberg?

A ideia de simplificar a interface do WordPress é antiga, mas foi no final de 2016 que o Gutenberg começou a ganhar pernas para andar. “Foi numas conversas em Lisboa, por altura do Web Summit, com o Matías Ventura, nosso colega”, explicou Miguel Fonseca, um dos programadores envolvidos no desenvolvimento do projecto. Não foi no âmbito do Web Summit, “mas o facto de haver esse evento fez com que estivéssemos juntos na mesma cidade.” Na altura, ainda não se chamava Gutenberg nem era certo se iria ser lançado para todos os utilizadores do WordPress, mas foi nesse momento que “começámos a pensar numa coisa de raiz e feita em etapas”. “Depois daí começaram a nascer uns protótipos que foram sendo feitos entre nós, mais uns colegas, inicialmente pessoas dentro da empresa, que tinham motivação para explorar esta coisa que era muito embrionária”, acrescentou Miguel, que trabalha na Automattica empresa que não é dona do WordPress (porque esse é de todos), mas uma das principais forças de desenvolvimento desta plataforma de código aberto.

Uma das primeiras ideias de redesenhar o editor do WordPress, que nunca chegou a ser implementada

Para Miguel, o Gutenberg começou como um projecto lateral (ou side-project, em inglês). Jorge Costa já só viu o Gutenberg a ser um dos principais investimentos da Automattic. Entrou para a empresa no ano passado e, entre Setembro e Outubro, depois de concluído o processo de recrutamento, começou a trabalhar nesta nova interface de blocos que, se tudo correr como previsto, irá redefinir o WordPress. Na equipa do Gutenberg estão programadores, designers e implementadores espalhados por vários cantos do mundo que comunicam entre si através da internet. Miguel Fonseca trabalha em Lisboa, Jorge Costa no Porto. Estiveram juntos na cidade Invicta para apresentar o Gutenberg e tirarem todas as dúvidas à comunidade portuguesa de WordPress, participante no WordCamp portuense. Apesar de ser um trabalho de equipa, o Gutenberg começou sob liderança do uruguaio Matías Ventura, do dinamarquês Joen Asmussen e da inglesa Tammie Lister.

O que muda no Gutenberg?

Acima de tudo, o Gutenberg promete simplificar o WordPress, permitindo a quem não tem tanta habilidade com código personalizar o seu site e ver, enquanto está a editar, como estee vai aparecer publicamente. Usando blocos, uma nova unidade básica do WordPress, poderás montar artigos, construir páginas e criar a estrutura completa do teu site.

O Gutenberg quer limpar as diferentes interfaces que actualmente existem no WordPress e que fazem parecer que não estamos a usar a mesma plataforma quando saltamos de um plug-in para outro ou quando instalamos um novo tema. “O WordPress tem neste momento uma interface fragmentada. Não existe um sistema comum que te permita abrir um qualquer site WordPress e saber logo como é que ele funciona. Um conceito comum a todos e a partir do qual podes estender. O Gutenberg é um esforço dessa uniformização”, explicou Jorge.

No editor do Gutenberg, todo o conteúdo vai ser em blocos

Os blocos serão universais e a base de tudo. Os artigos serão conjuntos de blocos, as páginas serão conjuntos de blocos, os plug-ins serão blocos, os temas serão blocos. Os blocos não serão todos iguais: existirão blocos que serão parágrafos de texto, outros imagens, outros tweets, outros quebras de página, outros um layout de duas colunas, etc.

“Sozinho, nesta fase, o Gutenberg não adiciona muito mais coisas ao que já era possível com o editor clássico, a não ser a noção bloco ou de conteúdo atómico”, explicou Jorge, acrescentando que, em Portugal, o Observador e o ECO usam esse conceito através de shortcodes, palavras curtas que podes deixar no meio de um artigo no editor do WordPress para adicionar um determinado elemento no momento da publicação.“Um artigo deles é uma composição de unidades de conteúdo, como um tweet ou um vídeo”, disse. “O WordPress não tem por pré-definição esse conceito de bloco e o Gutenberg vem permitir que qualquer pessoa possa tirar partido de uma ferramenta utilizada profissionalmente.”

Na barra lateral, podes personalizar o teu bloco

Os programadores dos sites poderão estabelecer determinadas organizações de blocos. “Para que quando comeces um novo post, já tenhas um arranjo de blocos, a maior parte deles vazio para preencheres com informação”, explicou Jorge. “Embora os blocos estejam lá, podes ignorá-los ou adicionar outros.” Por exemplo, uma tipologia de artigo destinado a críticas de cinema em que há um bloco com o cartaz do filme alinhado à esquerda, um espaço para classificação de 1 a 5 estrelas e um bloco onde o redactor apenas terá de deixar o link de YouTube do trailer. “Os temas também poderão criar as suas pré-definições, ou seja, layouts recomendados pelo autor do tema para dar um ponto de partida ao utilizador”, comentou Miguel Fonseca. “Um tema é hoje as escolhas que o autor fez e enquanto utilizadores temos muito pouco a dizer. Se há certos aspectos de layout que o tema decidiu implementar e nós decidimos não ter, por norma não temos hipótese de mudar isso sem sabermos programar.”

Também podem ser criados os chamados “blocos partilhados”, isto é, blocos que criamos uma vez e que podemos inserir em qualquer artigo – sempre que actualizarmos esse bloco, ele é actualizado em todos os locais onde está, o que pode ser útil para, por exemplo, deixar um aviso no final de vários artigos a dizer que pertencem a uma rubrica comum.

Um bloco partilhado aparece igual sempre que o usas

No core do WordPress, isto é, na versão do WordPress que instalas no servidor, virão um conjunto de blocos padrão que poderás utilizar ou não no teu site. Novos blocos poderão ser instalados através de plug-ins ou do tema, estendendo, assim, a funcionalidades do editor. Pesquisando por “gutenberg” no directório de plug-ins do WordPress, já é possível encontrar alguns plug-ins que trazem novos blocos. É o caso do Drop It, que permite pesquisar fotos do Unsplash na barra do editor e arrastá-las directamente para o artigo.

Com o Drop It, podes adicionar fotos do Unsplash ao teu post

“A grande mais valia é permitir a qualquer pessoa estender o editor de forma simples”, observou Jorge. “Os editores que existem são caixas pretas – os programadores não têm API fáceis para os costumizar e configurar às suas necessidades.” Alguns plug-in mais populares, como é o caso do Yoast e do WooComerce, estão já adaptar as suas interfaces aos blocos – no WordCamp Porto, o Yoast anunciou inclusive que o lançamento do Gutenberg na versão 5.0 mudou todo o roadmap de desenvolvimento e lançamento da empresa.

E o antigo editor?

Assim que o editor do Gutenberg for lançado na versão 5.0 do WordPress, os conteúdos criados no editor clássico vão passar a abrir na nova interface num gigante bloco chamado “Classic”, que os utilizadores poderão converter ou não em blocos do Gutenberg. Caso não queiram de todo utilizar o Gutenberg quando este for lançado oficialmente, poderão instalar um plug-in que trará de volta o editor clássico.

Se quiseres experimentar ou ter o Gutenberg já hoje no teu site, podes instalar o plug-in oficial. No blogue do Miguel e no do Matías, podes sabes mais sobre o projecto – tens também a página oficial do WordPress sobre o Gutenberg.