“Não há imagens que substituam a realidade.” Um eurodeputado português num barco de refugiados

João Pimenta Lopes, do PCP, passou uma noite no Lifeline para chamar à atenção para este problema humanitário que a Europa e o Mundo ainda não resolveram.

Lifeline

Quase todos os dias nos chegam testemunhos sobre a frágil situação dos refugiados a bordo de embarcações precárias à deriva do Mediterrâneo. A um problema já difícil de resolver, junta-se agora a recusa de vários Governos estrategicamente importantes para combater a situação, em aceitar a entrada de migrantes no seu país.

No início deste mês, falou-se do caso que ficou conhecido por Aquarius, uma das três embarcações (as outras duas eram o Dattilo e o Orione) que no total transportavam 630 migrantes, que durante várias horas à deriva no Mediterrâneo porque nem Itália nem Malta aceitaram a entrada nos seus portos, antes de serem acolhidos por Espanha. Ainda Junho não terminou e outra embarcação – a Lifeline –, reforça a ideia de que este problema tem de ser encarado politica e seriamente pela comunidade europeia. Desta vez são cerca de 200 os migrantes a bordo deste navio humanitário que, neste caso, serão acolhidos por oito países europeus: Bélgica, França, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Malta, Holanda e Portugal. Uma mostra da disponibilidade de mais países superior à verificada aquando do Aquarius a que só Espanha e França abriu os seus portos.

O eurodeputado João Pimenta Lopes, que em Portugal se senta ao lado do PCP e no Parlamento Europeu integra Grupo Confederal da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Nórdica Verde, passou uma noite no Lifeline, ao largo de Malta, conheceu as condições em que viajam estas pessoas e viveu na pele os dissabores das indecisões políticas. O Shifter conversou com ele, numa curta e sintética entrevista em que o eurodeputado explica o que o levou até ao meio do Mediterrâneo e dá pistas de como cada um se pode envolver neste assunto mais do que político, humano.

O que te levou a tomar esta decisão? Achas que a informação que passa, mesmo as imagens chocantes, não são suficientes para ter consciência do problema ou quiseste ser por uma noite ainda mais parte da solução?

A decisão de ir a bordo decorreu de um apelo da organização Lifeline, tendo em conta a degradação das situações a bordo. Serviu, assim, para prestar a solidariedade dos comunistas portugueses com os mais de 200 refugiados ali detidos, e dar visibilidade à situação. Não há imagens que substituam a realidade. Estar presente não é ser parte da solução. Não temos essa capacidade. Essa tem que ser determinada pelos Estados que têm responsabilidades na resposta às migrações.

Enquanto eurodeputado quais são os teus próximos passos para que se resolva este assunto?

Os deputados do PCP no Parlamento Europeu acompanham as questões das migrações desde longa data, mesmo antes da crise humanitária de 2015. Temos visitado vários locais na Europa e no continente Africano, e temos intervindo directamente no Parlamento Europeu, denunciando a situação, denunciando as consequências das políticas da UE no contexto das migrações, não só as políticas directas sobre as migrações, mas as políticas que estão na génese, que motivam esta crise humanitária. Ou seja, temos denunciado as consequência das políticas de ingerência, interferência sobre países terceiros, que em situações extremas como a Líbia, a Síria, o Iraque ou o Afeganistão, resultaram em agressões que destruíram aqueles países. Ou políticas que impõem relações de domínio económico e rapina de recursos, que promovem o subdesenvolvimento e a dependência de países terceiros, levando a situações de pobreza extrema, miséria, fome. Estas são pessoas que se veem forçadas a sair dos seus países, muitas vezes vítimas de perseguições, da guerra.

Nós, cidadãos, vemos notícias disso todos os dias mas não sabemos formas de colaborar. Há alguma? Fazer pressão sobre os governos locais ainda pode resultar?

Podemos assumir uma postura pro-activa na defesa dos direitos que são vítimas destas condições, rejeitar visões xenófobas e racistas tantas vezes alimentadas. A talhe de foice, não devemos esquecer o que é o nosso passado, enquanto país. As centenas de milhares de pessoas que nas últimas seis décadas saíram para países terceiros em busca de uma vida melhor, com toda a legitimidade, e que foram então vítimas das acusações de que hoje muitos destes migrantes são acusados. Foram considerados ilegais, discriminados, olhados de lado. Hoje a solidariedade que nos foi devida, é a mesma que devemos aos que chegam à Europa. E é esse apelo que podemos e devemos fazer aos governos nacionais, nomeadamente o cumprimento e respeito pelas convenções internacionais.

O número de pessoas realmente acolhidas está abaixo dos anunciados, havendo estas situações de urgência o que complica tanto os processos burocráticos? Não seria possível simplificar?

Presumo que se refira ao número de pessoas que os Estados-Membros se comprometeram a acolher no âmbito dos compromissos de relocalização assumidos em 2016. Sim de facto os números são baixos. Serão, seguramente uma demonstração cabal da ausência de solidariedade generalizada na UE na resposta às necessidades. Infelizmente as políticas que a UE tem vindo a impor para as migrações são sobretudo direccionadas a impor barreiras aos processos dos refugiados. Lamentavelmente, não se vislumbra no presente outra abordagem que não seja ainda mais restritiva, contrariando, inclusivamente convenções internacionais. Também aqui podemos erguer a nossa voz e exigir respostas de efectiva solidariedade, e que não constituam uma criminalização dos refugiados.

Foi já de madrugada que regressámos a malta. A situação a bordo é crítica e com as alterações marítimas previstas, serão…

Publicado por João Pimenta Lopes em Segunda-feira, 25 de Junho de 2018

É urgente uma ordem de autorização de desembarque em ponto seguro, seja se Itália seja de Malta. Estes 234 refugiados (mais 100 do Alexander Maersk) não podem esperar mais ou ser sujeitos à violência de um mar agitado que se espera a partir de 3a feira. Cumpra-se o direito internacional, o resgate de seres humanos em águas internacionais exige o desembarque no Porto de abrigo mais próximo. Acabem-se com jogos do empurra, no qual a UE tem responsabilidades, e permitam JÁ o desembarque destes seres humanos, pessoas como nós.

Publicado por João Pimenta Lopes em Domingo, 24 de Junho de 2018

00:30 no Lifeline. 25 milhas da Costa maltesa e do Porto mais seguro.Os que podem e conseguem dormem, encostados uns…

Publicado por João Pimenta Lopes em Domingo, 24 de Junho de 2018

Já a bordo da embarcação que nos levará ao Lifeline

Publicado por João Pimenta Lopes em Domingo, 24 de Junho de 2018

Artigo produzido em colaboração por João Ribeiro, Rita Pinto e Mário Rui André