Kim e Trump no seu primeiro date: deu match mas a relação terá futuro?

Um aperto de mão histórico, um encontro a dois, um almoço com as delegações e a assinatura de um acordo que prevê o caminho para a desnuclearização total da península da Coreia e a manutenção de um regime estável e pacífico na península.

Duas pessoas vivem em pontos diferentes do mundo. Nunca se conheceram e vão trocando mensagens e piropos à distância. À medida que a relação evolui – com altos e baixos, como todas – aumentam a expectativa de todos os que as rodeiam para o que há de vir. Deixam um mundo de olhos postos no seu primeiro date, cujo resultado se antecipa altamente imprevisível. Os espectadores (mais ou menos apoiantes) esperam um match, e qualquer semelhança com um encontro de Tinder não é só especulação, é mesmo a metáfora perfeita para descrever aquele que foi, ao mesmo tempo, um dos momentos mais mediáticos e bizarros dos últimos tempos, protagonizado por uma relação de amor-ódio do mais cliché que existe – como aquela obsessão que tiveste no liceu por aquela miúda alternativa que não te liga nenhuma, com a qual nem tens nada a ver, como se não houvesse um motivo lógico para que te preocupasses com ela.

Bom, nesta nossa história, que nem nos nossos melhores sonhos conseguiríamos escrever, Trump é o obcecado e Kim a rapariga que, de algum modo até gosta da atenção, mas tem vivido bem no seu cantinho.

“Passámos horas intensas juntos”, contou o Presidente norte-americano na conferência de imprensa que terminou um dia de intensas negociações bilaterais, agradecendo o que considera ser a coragem do líder norte-coreano. “A mudança é possível. Tivemos um reunião honesta, direta e produtiva. Conhecemo-nos e estamos dispostos a começar um novo episódio da história dos nossos países.”

No início da conferência, tinha sido emitido um filme de alguns minutos onde se vêem mísseis a regressar à base, em rewind. Numa edição tipo Hollywood, vê-se uma imagem de satélite da Coreia do Norte a iluminar-se. No final, a conclusão à filme: a esperança e o destino do mundo é entregue a Donald Trump e Kim Jong-un. “Espero que tenham gostado, achei interessante mostrá-lo, na versão inglesa e coreana. Mostrei-o hoje [a Kim], durante a reunião e acho que ele adorou. E mostrei-lho porque pode muito bem representar aquilo que será o futuro”, disse Trump quando questionado sobre o conteúdo do vídeo.

Os pontos altos do acordo histórico desta terça-feira são dois: a total desnuclearização da Coreia do Norte e o fim das manobras militares de intimidação por parte dos Estados Unidos.

Desnuclearização da Coreia do Norte

O primeiro está contido no documento histórico assinado pelo Presidente norte-americano e pelo líder norte-coreano. Ainda que o seu conteúdo não tenha sido divulgado oficialmente, a Reuters conseguiu transcrevê-lo a partir das fotografias que tirou na cimeira, em Singapura. Revela que, em suma, o documento se refere à destruição total de armamento nuclear da Coreia do Norte e às garantias de segurança oferecidas pelos Estados Unidos, criando-se novas relações entre os dois países para promover a “paz, prosperidade e segurança”.

Fica ainda a intenção de continuar as negociações entre os dois países o mais rapidamente possível, mas muitos assuntos são abordados de forma vaga e grande parte é deixada em aberto.

Fim das manobras militares dos EUA

O segundo não está contempladoo no documento assinado pelos dois e foi a grande surpresa da cimeira. “Vamos parar com os jogos de guerra”disse Trump, num anúncio feito na conferência de imprensa acima referida, que deixou a imprensa mundial na expectativa de que as manobras conjuntas com a Coreia do Sul tenham os dias contados.

Não se sabe ainda se a decisão dos Estados Unidos de deixar de participar nos exercícios será imediata ou será sido apenas um truque de sedução. O Comando Militar dos Estados Unidos na Coreia do Sul disse que “não recebeu nenhuma nova orientação na execução ou cessação dos exercícios militares.” “Em coordenação com os nossos parceiros [sul-coreanos], continuaremos com a nossa postura militar até que recebamos novas orientações por parte do Departamento da Defesa”, acrescentou.

Na conferência de imprensa, Trump referiu ainda que quer trazer as forças militares norte-americanas que estão na Coreia do Sul (mais de 28 mil efectivos) “de volta para casa”, mas que isso “não faz parte da equação para já”.

O fim das manobras conjuntas é uma exigência de longa data da Coreia do Norte, que as vê como uma provocação. Geralmente, o regime norte-coreano responde com testes de armamento ou declarações de guerra sempre que estes exercícios ocorrem. Curiosamente, Trump usou a mesma expressão — “provocatórios” — para os qualificar durante a conferência de imprensa, para além de ter insistido em várias ocasiões que são “muito caros”.

O futuro

Inspetores internacionais e norte-americanos vão estar na Coreia do Norte a acompanhar o processo de desnuclearização, garantiu o líder dos EUA, acrescentando ainda que a Coreia do Norte quer tanto honrar este acordo como os americanos: “Acredito que Kim vai respeitar o acordo”.

O líder norte-americano reconheceu que durante a reunião com Kim Jong-un foi abordado o tema dos direitos humanos, mas que ambos voltarão ao assunto no futuro. “Kim é muito inteligente, bom negociador e quer fazer as coisas certas”, reforçou, em resposta às perguntas dos jornalistas. Reconheceu a existência de uma situação dura na Coreia do Norte (humana, de condições de vida e direitos humanos). “Vamos fazer algo, é complicado, mas vamos continuar e chegaremos a um acordo.” Quanto às sanções impostas a Pyongyang, só serão levantadas quando houver certezas do fim da ameaça nuclear. “Estou ansioso por levantá-las”, garantiu.

Trump recordou ainda que convidou Kim Jong-un para visitar a Casa Branca, que o convite foi aceite e Kim irá a Washington “na altura apropriada”.

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Voltando ao Tinder: Trump assumiu o papel de macho-alfa. Chovem as leituras de especialistas em expressão corporal que dizem que ambos tentaram dominar o encontro e as presenças em público, com o nervosismo típico de um primeiro encontro. Um toque no braço para mostrar confiança, um olhar profundo nos olhos para mostrar dominância, acompanhado de risinhos e mãos impacientes. Mais uma vez, onde é que já vimos isto?

Apesar da postura praticamente idêntica entre ambos, talvez tenha sido a questão da língua e comunicação um dos principais pontos de desigualdade – tipo usar o Tinder no estrangeiro. Esse aspecto foi, aliás, um dos fait divers mais comentados pela imprensa internacional que especulou bastante acerca da capacidade de Kim para falar inglês. Entre tantas traduções e pausas feitas para a intervenção de intérpretes, pareceu várias vezes que o líder norte-coreano não era propriamente fluente na língua, apesar de ter estudado na Escola Internacional da Suíça.

Isso fez com que Trump assumisse as rédeas de todos os momentos mediáticos, assumindo até, no encontro para assinar o documento, a posição de gentleman carregada de ironia, ao perguntar a Kim, como se fosse o moderador da reunião, se este queria dizer algumas palavras.

Apesar de o desconhecido e a curiosidade terem deixado o mundo de olhos postos na personagem de Kim Jong-un, que ao longo dos tempos tem sido protagonista de uma transformação surpreendente da sua imagem aos olhos da comunidade internacional, é sempre a imprevisibilidade e convicção de Trump que faz as manchetes – vingando o estatuto de celebridade internacional típico dos presidentes norte-americanas.

O Presidente dos EUA lançou farpas à anterior Administração (e às outras) ao afirmar que este acordo deveria ter acontecido “há 25 anos”. Interrogado por jornalistas sobre o acordo que, em 1992, a então secretária de Estado de Bill Clinton, Madeleine Albright, firmou com o pai de Kim Jong-un, Kim Jong-il, Trump desprezou-o: “Gastaram 3000 milhões de dólares sem obter nada em troca”.

O actual líder norte-americano teve o início de uma relação que poderá dar casamento ou divórcio, mas que vai certamente ser uma das mais mediáticas do mundo e chegar aos livros de história. Ainda seguindo a lógica é possível conjecturar sobre quem domina a relação e se essa dominação não se tornará obsessiva ou controladora, com o síndrome machista a revogar os direitos da mulher da relação.

 


 

Para ler mais:

Trump-Kim summit: world scrambles to decipher ‘denuclearisation’ deal – as it happened – The Guardian

The 9 Trump quotes that explain his Kim summit – Politico