Os novos EUA: crianças separadas dos pais, retidas em centros com murais pro-Trump

As crianças só têm duas horas por dia para estar na rua, uma para brincar, a outra para actividades programadas, e passam o resto do tempo dentro das instalações.

Foto via Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA

A história tornou-se viral, contada numa thread de Twitter pelo jornalista norte-americano Jacob Soboroff, com todos os limites que a isso estão associados. O relato acabou por ganhar outra vida nos artigos que o repórter foi escrevendo nos últimos dias sobre a sua visita a um centro para crianças migrantes que chegam aos Estados Unidos sem documentos e sem os pais.

Jacob fez parte de um grupo de jornalistas que foi convidado pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos norte-americano para visitar um antigo supermercado Walmart, em Brownsville, Texas, convertido num abrigo.

No edifício estão cerca de 1500 crianças, com idades entre os 10 e os 17 anos, que foram separadas das famílias na fronteira que separa os Estados Unidos do México. De entre os vários pormenores insólitos relatados por Soboroff, destaque para as paredes das instalações onde se podem ver murais com a imagem de Donald Trump e mensagens “inspiradoras”. Num deles pode ler-se: “Às vezes ao perder uma batalha encontras uma nova forma de vencer a guerra”. 

O que aqui lemos relatado por Jacob, foi replicado numa série de outros artigos de outros jornalistas que, como ele, fizeram a tour pelo espaço. Neste do New York Times, por exemplo, percebe-se que o sentimento de perplexidade foi comum às várias pessoas que estiveram na chamada Casa Padre. As crianças só têm duas horas por dia para estar na rua, uma para brincar, a outra para actividades programadas, e passam o resto do tempo dentro das instalações. A comida é servida em turnos num antigo McDonald’s transformado num refeitório e as luzes apagam-se às nove da noite. Não há celas, mas nenhum dos jornalistas no local hesita em comparar o centro a uma prisão.

Além de promover a visita da imprensa ao local, o próprio Governo norte-americano divulgou imagens do interior do centro. O interesse em mostrar estes centros de detenção – ainda que com tudo o que de insólito têm – surge depois de, na passada quinta-feira, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos ter anunciado que seria instalada uma tenda temporária perto da estação da fronteira em Tornillo, no Texas, para abrigar até 360 crianças. 

Há uns meses, estavam a ser recebidas em centros de acolhimento como o descrito acima, no Texas, ou colocadas em casas de acolhimento de crianças para adopção. Agora, diz a Casa Branca, estão a ser levadas para um acampamentos de tendas no mesmo estado. O processo é gerido pelo Departamento de Saúde e Serviços Humanos e é o resultado da política de “tolerância zero” decidida pela Administração de Donald Trump e defendida nos últimos dias com recurso a citações da Bíblia pelo procurador-geral Jeff Sessions, e pela porta-voz da Casa Branca, Sarah Sanders que, em resposta aos jornalistas insistiu, na quinta-feira, que “fazer cumprir a lei” é algo defendido em “várias passagens bíblicas”.

Já se sabia que a nova política da Casa Branca equiparava traficantes a pais sem documentos e que pressuponha que: todo e qualquer adulto que tente atravessar a fronteira de forma ilegal será alvo de um processo criminal. Estimava-se que, desde Outubro, seriam 700 as famílias separadas na fronteira, mas a realidade só pode ser muito superior: o Departamento de Segurança Interna diz agora que só entre 19 de Abril e 31 de Maio, 1995 crianças foram separadas de 1949 adultos, alvo de processo criminais.

Foi em Abril que Jeff Sessions decidiu acusar todos os que atravessam a fronteira, incluindo os que o fazem acompanhados de crianças pequenas. O Presidente norte-americano tem-se descartado sucessivas vezes de qualquer responsabilidade da medida implementada pela sua Administração, atirando culpas ao Partido Democrata. “Separar famílias na fronteira é culpa da má legislação aprovada pelos democratas”, começou por escrever Donald Trump, no Twitter. “As leis de segurança na fronteira devem ser alteradas, mas os dems [democratas] não se resolvem.” 

Críticas que chegam de fora e de dentro

A notícia das tendas improvisadas no Texas serviu para elevar mais ainda o tom de contestação. Porque é impossível saber a idade de todos os menores que têm sido retirados aos pais, mas têm sido divulgadas imagens de crianças muito pequenas. E porque na cidade de Tornillo, no México, onde vai ser montado o abrigo, a temperatura chega aos 40 graus.

As acções do Governo têm sido muito criticadas por médicos, pelas Nações Unidas e vários líderes religiosos, críticas que se estendem até à base conservadora de apoio ao Presidente – e até a quem com ele partilha a cama (ou não). A primeira-dama quebrou o silêncio das últimas semanas e apelou a que se governe “com o coração”, mas evitou mencionar directamente as políticas de combate à imigração da Administração Trump. “A senhora Trump não gosta de ver crianças separadas das suas famílias e espera que ambos os partidos se consigam entender finalmente, para que se chegue a uma reforma bem-sucedida [das leis] da imigração”, lê-se no comunicado.

No Partido Republicano, são muitos os que apontam o dedo ao Presidente. “Trump podia acabar com esta política com um único telefonema”, disse o senador Lindsey Graham à CNN na sexta-feira. “Vou dizer-lhe: se não gosta de ver famílias separadas, pode pedir ao Departamento de Segurança Interna que deixe de o fazer”, acrescentou. Opinião partilhada pela também senadora republicana Susan Collins. “O que esta Administração decidiu fazer foi separar as crianças dos seus pais para tentar enviar uma mensagem. Se cruzares a fronteira com crianças, elas serão arrancadas dos teus braços”disse no programa da CBS, Face of the Nationfalando dos traumas causados aos menores separados. “Sabemos, por anos de experiência, que temos de alterar as nossas leis de imigração”, acrescentou. “Mas instrumentalizar crianças não é a solução.”

Também o presidente da Câmara dos Representantes, Paul Ryan, que anunciou em Abril que não pretender recandidatar-se nas eleições de Novembro, afirmou não se sentir “confortável” com as “actuais tácticas” praticadas na fronteira com o México.

As Nações Unidas pediram que a política seja imediatamente travada, a Academia de Pediatras Americanos diz que a prática provocará “danos irreparáveis” nas crianças afectadas, e pelo menos dois reverendos que noutras ocasiões tinham publicamente apoiado Trump, classificaram a medida como “horrível” e “vergonhosa”.

De acordo com o Washington Post, a ideia de Trump é insistir nesta política para forçar os democratas a sentarem-se à mesa e a votar com os republicanos. Uma estratégia à imagem da que adoptou o ano passado, quando quis ganhar apoios para as suas exigências sobre imigração ameaçando retirar (e retirando) a protecção dada por Barack Obama aos que entraram nos EUA quando eram crianças – os chamados Dreamers.

Enquanto isso, todos os dias chegam às páginas dos jornais relatos de centenas de crianças retidas em armazéns velhos no sul do Texas, dentro de “gaiolas” criadas com cercas de metal.

Fotos via Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA