“Burnout” não é depressão. O que é e como tratar?

Dentro das profissões que mais se destacam por casos de "burnout" estão, por exemplo, enfermeiros, polícias, bombeiros, professores e médicos.

Foto de Finn Hackshaw via Unsplash

O termo é inglês mas é mais usual em Portugal do que devia. O burnout tem-se tornado cada vez mais universal e é, por definição, praticamente literal. Trata-se de um distúrbio que se caracteriza pelo esgotamento físico, mental e psíquico de alguém, normalmente associado ao stress no trabalho.

É possível que mesmo que nunca tenhas ouvido a expressão, conheças os sintomas ou casos de alguém que enfrenta ou enfrentou este problema. Os números mais recentes em Portugal sobre o tema impressionam ao ponto deste ser um assunto que temos obrigatoriamente de associar ao mundo do trabalho hoje em dia.

Em 2016, o burnout afectava já mais de 13,7% das pessoas activas em Portugal. E a juntar a isso, havia cerca de 82% de trabalhadores em risco.

Apesar de afectar trabalhadores de todas as áreas, independentemente da idade, há quem fale em riscos superiores em sectores cuja actividade envolve um nível de stress elevado. Mas não só. Também há quem associe o esgotamento ao excesso de trabalho, que pode, muitas vezes, ser traduzido em excesso de horas de trabalho. Mas estará o burnout directamente ligado ao número de horas que se trabalha? A verdade é que as profissões com piores horários parecem estar mais próximas do risco. E como está Portugal em matéria de horas extraordinárias?

De acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística, juntando todos os sectores de actividade, em média, os portugueses trabalham cerca de oito horas extraordinárias semanalmente. Analisando diferentes sectores, pode dizer-se que é na agricultura, produção animal, caça, floresta e pesca que há menos trabalhadores a fazer horas extraordinárias. No entanto, dos 85 mil trabalhadores do sector, 8,6% fez horas extra.

Já na indústria, construção, energia e água, a percentagem de trabalhadores por conta de outrem a fazer horas extra é de 15%. Nos serviços, o INE refere que, em 2017, 14,5% dos trabalhadores deste sector fizeram horas extra. Em média, falamos de 9 horas semanais, neste caso.

Dentro das profissões que mais se destacam por casos de burnout estão, por exemplo, enfermeiros, polícias, bombeiros, professores e médicos.

Com ou sem horas extraordinárias, é preciso recordar que, de acordo com os dados da Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho, 50% dos trabalhadores considera o stress algo comum no trabalho, sendo que cerca de 60% dos dias de trabalho são perdidos devido ao stress associado à actividade profissional. De acordo com vários especialistas, o excesso de trabalho, as exigências contraditórias, a má gestão de mudanças organizacionais, a falta de apoio da parte de chefias ou até colegas e o assédio também fazem parte dos factores que pesam na incidência deste problema.

Mas é “burnout” ou depressão?

O burnout pode afectar indivíduos que não tenham uma depressão ou qualquer outra patologia prévia, mas pode degenerar num estado depressivo.

O burnout é causado por uma exaustão/stress profissional e, uma vez terminada a situação que provoca essa exaustão/stress, a pessoa melhora significativamente e recupera. Mas, se acompanhado de uma depressão, é muito provável que a pessoa continue a estar depressiva apesar de retirada da situação que lhe causava a exaustão/stress profissional.

De acordo com o Centro para a Informação Biotecnológica norte-americano, os sintomas de alguém com esta síndrome são a exaustão emocional, a alienação de actividades associadas à vida profissional e diminuição do nível de desempenho e perda da sensação realização pessoal. Inicialmente acreditava-se ser uma síndrome própria e exclusiva dos profissionais de ajuda, mas a psicologia veio a estender a patologia a outras actividades profissionais.

O bastonário da Ordem dos Psicólogos, Francisco Miranda Rodrigues, quantificou o impacto do burnout: “A perda de produtividade gerada pelo absentismo causado por problemas de saúde psicológica pode custar às pequenas e médias empresas (PME) cerca de 212 milhões por ano e às grandes empresas 117 milhões”.

Qual é o tratamento?

O tratamento implica melhorar as circunstâncias e condições que originaram o problema, como a melhoria das condições de trabalho, a melhoria das relações profissionais com diminuição do isolamento e uma melhor integração do profissional.

Muitas vezes implica a retirada temporária – que pode ter de ser definitiva – do trabalhador daquele local de trabalho, a reorganização do trabalho, um investimento noutros interesses como um maior convívio com a família ou os amigos, a prática de exercício físico ou de actividades relaxantes.

A psicoterapia pode ajudar a pessoa a compreender melhor as razões que a levaram ao problema e a evitar procedimentos semelhantes aos que originaram o burnout.

Numa perspectiva global, a evolução das sociedades tem tendido a preocupar-se progressivamente com as condições de trabalho. A imposição de limites ao trabalho continuado em determinados sectores, como aqueles que exigem a atenção necessária para, por exemplo, conduzir camiões, é demonstrativa disso mesmo. A implementação de melhores condições de trabalho, o combate ao assédio sexual, a obrigatoriedade de existir um médico do trabalho e técnico de segurança em muitas empresas, são algumas das muitas medidas que têm contribuído para melhorar as condições do trabalho mas ainda falta muito para que se atinja o equilíbrio perfeito necessário a uma vida saudável.