BitTorrent e Tron, dois sonhos da Internet, unidos por 140 milhões

O BitTorrent foi comprado por start-up que quer criar mais uma nova Internet. Qual o futuro desta união?

BitTorrent
Um anúncio do BitTorrent

Criado em Abril em 2001 por Bram Cohen, BitTorrent começou por ser um protocolo de partilha de ficheiros como aquele que utilizamos diariamente para transferir documentos pesados. Em síntese, é um conjunto de processos, programados em Python, que fazem com que ficheiros de médias e grandes dimensões possam ser partilhados entre utilizadores através da sua repartição em pequenos pedaços com geralmente 256 kb.

Foi a partir daí, e de modo a garantir a manutenção e operacionalização do protocolo, que Bram e Ashwin Navin criaram a empresa – a BitTorrent Inc, em 2004. Agora, passados 16 anos foi comprada por 140 milhões de dólares em dinheiro pela Tron, uma start-up de blockchain que parece querer aproveitar-se dos primeiros passos dados ao longo destes anos no caminho da descentralização para cumprir a sua promessa: criar uma nova Internet (esperem, como a do Telegram?).

Uma união em torno da Internet descentralizada

A tecnologia desenvolvida e popularizada pela BitTorrent, actualmente o maior player no mundo dos torrents, foi uma das primeiras iniciativas que conduziram realmente à descentralização da Internet, com redes de utilizadores a substituírem servidores, naquilo a que se chama uma arquitectura peer-to-peer.

A ideia de Cohen começou por ser utilizar essa estrutura para a transferência de ficheiros, mas ultimamente as valências do BitTorrent procurava alargar-se a outros sectores importantes da Internet, acompanhando tendências como o streaming em projectos como o BitTorrent Now, focado na partilha de material criativo. No momento, e contabilizando os utilizadores do BitTorrent Now – bem como de outras aplicações que permitam usar este protocolo, como o uTorrent –, estima-se que possa representar 40% do tráfico online de um dia normal.

A Tron

A Tron, por seu turno, tem uma história completa distinta e, apesar da valorização que já atingiu, apenas um ano e meio de vida. Criada por Justin Sum, a Tron Foundation, organização sem fins lucrativos com sede na Singapura, tem como promessa criar a primeira infra-estrutura para uma internet realmente descentralizada, baseando-se, para isso, num protocolo próprio chamado também ele de Tron. Segundo consta no seu white paper, a equipa é composta por seguidores de Tim Berners-Lee, que acreditam, tal como este acreditou no seu tempo, que os protocolos quando são criados devem ser vistos como um recurso à disposição de todos os humanos e não uma forma de alguns agentes fazerem dinheiro.

Uma união previsível?

Quanto à junção das duas empresas, ainda não se sabe grande coisa; todavia, este já era um negócio previsível. Bram Cohen, criador do BitTorrent, já havia abandonado a empresa para se aventurar num novo projecto, a criação de uma cripto-ecológica, chamada Chia. Também Ashwin Navin já estava fora, actualmente a trabalhar na SAMBA TV. E Justin Sun, o fundador do Tron, já havia demonstrado o seu interesse em adquirir o gigante da partilha online.

Por saber, ficam apenas os planos conjuntos. Sem comentários oficiais de nenhum dos representantes das empresas, o TechCrunch falou com um dos accionistas envolvidos na transacção, que explicou os dois lados do plano. O primeiro deve passar por legitimar a Tron, que tem sido acusada de copiar a FileCoin e a Ethereum,;e o segundo, por potencializar a mineração de moedas, recorrendo à arquitectura P2P do BitTorrent.

A plataforma Tron tem a si associada o TRX, uma criptomoeda que deverá ser usada na sua “nova Internet” como forma dos utilizadores pagarem o conteúdo consumido. Em apenas um ano, conseguiu subir até ao top das criptomoedas, apesar de algumas flutuações na valorização.

Esta aquisição surge num momento importante para a Tron. Dia 25 de Junho será o Dia da Independência para esta criptomoeda, como Justin Sun tem vindo a anunciar. Independência essa que se caracterizará pela migração da rede Ethereum – tokens ERC20 – para uma rede própria com o standard TRON20.