Como sobreviver no mundo da automação

É importante definir bem um ponto. Os trabalhos não se vão desvanecer. O que vai acontecer é uma redefinição dos mesmos. Tal como já aconteceu no passado.

automação trabalho
Ilustração de Ricardo Santos/Shifter

Assistimos continuamente à “extinção” de postos de trabalho devido à automação de tarefas. Um relatório recente do McKinsey Global Institute prevê que até 2030 cerca de 800 milhões de profissões em todo o mundo desapareçam porque a inteligência artificial e a robótica tomarão o seu lugar. Esta automação deverá ter um impacto na sociedade inimaginável, semelhante ao que a Revolução Industrial teve há uns séculos atrás.

A automação das profissões não é necessariamente uma coisa má. Há muitas funções das quais a força humana é escrava – são tarefas monótonas e repetitivas que podem ser desempenhadas por máquinas. Em fábricas isso já acontece, mas com o desenvolvimento da inteligência artificial e da aprendizagem automática está a permitir que as máquinas possam desempenhar tarefas cada vez mais complexas, sem a nossa mão. Isto levará a que determinadas profissões desapareçam (ligadas a contextos previsíveis, como preparação de fast food ou processamento de dados), outras surjam, outras ainda se mantenham – como as profissões que envolvem gerir pessoas ou que tenham um certo grau de imprevisibilidade.

Todas as profissões, mais tarde ou mais cedo, vão ter de lidar com esta questão da automação. Não vale a pena lutar contra a tecnologia, pois ela é em muitos casos mais eficiente que nós, humanos, pelo que o melhor é a coexistência. Se as máquinas nos libertarem tempo, temos a oportunidade de nos dedicarmos a outras coisas que não tarefas de trabalho. A melhor forma de estarmos prontos para o que aí vem é antecipar a automação e sermos nós a criá-la.

Neste artigo vamos ajudar-te a compreender melhor o fenómeno da automação profissional e explicar porque é que o conhecimento de programação é uma valência importante para garantires um espaço no mercado laboral do futuro e te valorizares profissionalmente.

“Brace yourselves, automation is coming”

Pode ser um pouco estranho dizer que automação pode ser igual a oportunidade, mas estima-se que exista um aumento das oportunidades para trabalhos que requerem capacidades cognitivas e inter-pessoais elevadas. Ou seja, a melhor forma de vermos isto é assim: em vez de pensarmos que vamos estar desempregados devido aos robôs, podemos pensar que os trabalhos que fazemos vão amadurecer e vão passar por alterações.

Como tal, a melhor opção é abraçar esse amadurecimento e começar a aprender algo que nos permita ficar por cima.

Podes estar descansado. A automação é indiferente ao “status” social. “Ela” não quer saber se és pedreiro, conselheiro financeiro ou trompetista. Segundo o The Guardian, estas são as profissões em maior risco e menor risco devido à automação:

As profissões em maior risco de automação

  • Telemarketer – 99%
  • Gerente financeiro – 98%
  • Encarregado de caixa – 97%
  • Assistente-geral – 94%
  • Condutor de táxi/autocarro/comboio – 89%
  • Cozinheiro de fast food – 81%
Foto de Berkeley Communications via Unsplash

As profissões em menor risco de automação

  • Trabalhador social/saúde mental – 0,30 %
  • Terapeuta – 0,35%
  • Nutricionista – 0,39%
  • Médico cirurgião – 0,42%

É importante definir bem um ponto. Os trabalhos não se vão desvanecer. O que vai acontecer é uma redefinição dos mesmos. Tal como já aconteceu no passado. É o que refere o autor britânico Richard Susskind no livro The Future of the Professions and Tomorrow’s Lawyers: “Aquilo que vamos ver em muitas profissões é uma série de tarefas diferentes”, diz. “Um advogado de hoje não desenvolve sistemas que ofereçam conselhos, mas um advogado de 2025 vai fazer. Vão continuar a chamar-se advogados mas vão estar a fazer coisas diferentes.”

Martin Ford, futurista e autor do livro Rise of the Robots Technology and the Threat of a Jobless Future, explica que os trabalhos com maior risco de automação são aqueles rotineiros, previsíveis e repetitivos. Um bom exemplo é o trabalho de cozinheiro em restaurantes de fast food, que, segundo o The Guardian, enfrenta uma probabilidade de 81% de ser substituído por robôs como o Flippy:

Que trabalhos estão a salvo?

É sabido que a automação tem vindo a “comer” e extinguir vários trabalhos. O certo é que isto das tecnologias está constantemente em evolução e como tal novos empregos também serão criados. Uma perspectiva interessante é a de que os programadores são quem controla e controlará, pelo menos nos próximos tempos, esta parte da automação.

Alguns dizem que não há trabalhos a salvo destes “malvados”, outros são menos fatalistas. Segundo o The Guardian, há três áreas que são consideradas mais seguras. A primeira área envolve trabalhos com características genuínas e criativas. Ou seja, artistas, cientistas, empreendedores que desenvolvem novos planos de negócio e serviços, etc.

Foto de Rachael Gorjestani via Unsplash

Contudo, nada nos garante que daqui a uns 20 anos não haja computador que seja mais criativo que qualquer ser humano. Até à data, nós somos mais criativos que as máquinas. “Já existem computadores capazes de pintar obras de arte originais. Portanto, quem sabe o quão longe poderemos ir dentro de 20 anos?”, observa Martin Ford.

A segunda área abrange áreas com um objectivo de criar relações complexas com as pessoas. Enfermeiras, psicólogos ou uma outra profissão que necessite de criar laços de afinidade bastante próximos e fortes. Por fim, a terceira área está associado a trabalhos bastante imprevisíveis.

Sim, a área da inteligência artificial está a crescer e as máquinas poderão vir a ter a capacidade de se programar a elas mesmas. Doreen Lorenzo, investigadora da Universidade do Texas, atacou este tema de forma muito interessante: “Isso é verdade, mas alguém vai ter de programar essas máquinas. E à medida que essas máquinas aprendem e começam a programar-se sozinhas, os humanos vão criar e programar a evolução seguinte da inteligência artificial. No fim de contas, humanos têm a capacidade empática de ver quando algo novo deve ser criado.”

Porque é que programar é importante?

Toda a tecnologia necessita de humanos para a programar e, por isso, programação é uma habilidade que mais pessoas deveriam estar a aprender neste momento para evitar perderem o seu emprego no futuro (ou para se valorizarem profissionalmente no presente).

Código é a linguagem do nosso actual “mundo digital”. Começa a ser difícil encontrar algo que nos seja útil e que não tenha código à mistura. Qualquer página na Internet, aplicação no telemóvel, jogo na consola… dependem das linhas de código para funcionarem.

Foto de Hack Capital via Unsplash

Só para teres uma ideia mais numérica: estima-se que daqui a uma década haja cerca de 1,4 milhões de postos de trabalho na área da engenharia informática mas apenas 400 mil pessoas qualificadas para ocupar esses lugares.

O curioso é que as coisas não param aqui. Trabalhos que não estão ligados directamente à área da engenharia informática – tais como a banca, o marketing/comunicação, a medicina, o jornalismo, entre outros – vão ser “afectados” pela necessidade de pelo menos compreender/saber ler minimamente o que está a acontecer no código: veja-se como o Python está a comer o mundo das ciências (a “morte” dos papers científicos?).

Exemplo de que isto da programação não é uma coisa que só os “nerds” defendem é esta frase do economista James Heckman, premiado com o Prémio Nobel em 2000: “Programar é a literacia do século XXI, precisamos de começar a ensiná-lo bem cedo, ao mesmo tempo que ensinamos os estudamos a ler ou escrever.”

Agora é decidir

O “segredo” é ter literacia digital. Isso sim vai distinguir as pessoas. Agora é decidir. Esperar que o teu trabalho seja canibalizada pela automação ou dares o passo seguinte e estares “on fire” para quando o momento chegar. Ou, quem sabe, seres mesmo tu a criar esse “momento certo”.