Apple apagou, literalmente, o Facebook do Mac

Apple tem vindo a construir um mundo alternativo ao Facebook e à Google, onde os dados dos utilizadores não são necessários para o negócio da empresa funcionar.

Apple Facebook

Numa conferência em Maio de 2012, Tim Cook enviou um pedido de amizade ao Facebook e a empresa de Mark Zuckerberg aceitou-o. “Penso que a relação [entre a Apple e o Facebook] é muito sólida”, referiu o CEO da Apple. “Temos um enorme respeito por eles.” Cook disse ainda que “qualquer pessoa com um iPhone ou iPad gostaria de ter a melhor experiência com o Facebook em qualquer equipamento” e, por isso, deixou-lhes uma sugestão: “Fiquem atentos.” Um mês depois, no palco do WWDC, a Apple apresentava a integração do Facebook no iOS 6, colocando a lista de amigos e os seus aniversários nas apps do iPhone e dando aos utilizadores uma forma fácil de partilharem fotos e outros conteúdos na rede social. Na altura, o iOS já oferecia uma integração parecida com o Twitter, mas o Facebook é que estava na berra.

Os tempos mudaram. O Facebook acumulou polémicas ao longo dos últimos anos, tendo os Cambridge Analytica Files sido dos casos mais mediáticos. A questão dos dados pessoais e da sua comercialização em benefício do modelo de negócio da empresa de Mark Zuckerberg é agora bem mais escrutinada e a empresa tem vê o cerco mais apertado. Mesmo com toda a vigilância pública relativamente ao Facebook e, por isso, ser mais improvável que uma situação como os Cambridge Analytica Files se repita, a Apple não quer correr riscos.

2017, Facebook removido do iPhone. 2018, Facebook removido do Mac

Em 2017, a tecnológica da maçã removeu todas as integrações do Facebook, Twitter e LinkedIn do iOS com o lançamento do iOS 11. Os utilizadores de iPhone e iPad deixaram, assim, de ter estas redes sociais nativamente no sistema operativo e passaram a ter de optar pelas respectivas aplicações caso quisessem partilhar conteúdos nelas. Este ano, o Facebook, Twitter e LinkedIn vão deixar de constar no Mac, com o novo macOS Mojave, que foi anunciado esta semana e disponibilizado para programadores em versão beta.

No novo macOS Mojave

Instalando o macOS Mojave e acedendo à aplicação Contacts, vai aparecer uma janela a perguntar se queres manter os contactos do Facebook no Mac ou apagá-los, isto se anteriormente tinhas integrado a conta no teu computador. Caso queiras partilhar uma foto do teu Mac no Facebook, Twitter ou LinkedIn sem abrir os respectivos sites, já não terás esse possibilidade. E no Calendar os aniversários dos teus amigos vão deixar de aparecer na nova versão do sistema operativo, cujo beta será lançado publicamente ainda este mês de Junho.

Safari vai perguntar se queres os botões do Facebook nos sites

Apesar de Twitter e LinkedIn também terem sido removidos do macOS (juntamente com o Flickr e Vimeo), a maior limpeza foi a do Facebook, não só porque a integração era mais forte mas também porque, caso sejas utilizador do Safari, o browser vai perguntar-te se queres ver os botões de Like, Share e a caixa de comentários do Facebook sempre que acedes a um site que tenha estas funcionalidades incorporadas. “Já todos vimos estas coisas”, disse Craig Federighi durante o último WWDC. “Estes botões de Like e Share, e estas caixas de comentários. Parece que estas coisas podem seguir-te, quer cliques nelas ou não. Por isso, este ano vamos acabar com isso”, terminou o executivo da Apple durante a apresentação, num tom forte que mereceu um caloroso aplauso da audiência. Craig acrescentou ainda que a decisão de manter as integrações do Facebook no Safari cabe aos utilizadores, que podem, dessa forma, “decidir manter a sua informação privada”.

Apple anuncia novidades do Safari no WWDC 2018

Esta decisão relembra-nos que qualquer botão ou plug-in associado ao Facebook serve potencialmente para estes recolherem informações sobre os utilizadores.

O Safari vai conseguir eliminar os botões e caixas de comentários dos sites que visitas graças a uma versão actualizada do “Intelligent Tracking Prevention” (ITP) que a Apple introduziu no ano passado. O ITP separa as cookies que os sites guardam no browser uma das outras para que estas possam ser lidas apenas por um site específico, garantindo que um distribuidor de anúncios, como a Google ou o Facebook, não consigam, por exemplo, usar esses cookies para seguir a navegação dos utilizadores em todos os outros sites onde têm espaços publicitários. A introdução do ITP no ano passado no Safari já assustou o suficiente a Google e o Facebook, mas Mark Zuckerberg particularmente não terá gostado da novidade apresentada este ano.

Utilizadores vão poder desactivar os botões e plug-ins do Facebook no Safari

O modelo de negócio da Apple é bem diferente do da Google e do Facebook. A empresa vende hardware e serviços e não comercializa os dados dos seus utilizadores pois não vende publicidade. Isso permite à empresa fundada por Steve Jobs ter um compromisso acrescido com a privacidade dos utilizadores que os seus concorrentes – um pilar que a Apple faz questão de destacar todos os anos nas apresentações de novas versões do iOS e macOS.

Apple cria a sua própria rede social

A Apple retirar espaço ao Facebook do seu ecossistema não significa que a vertente social vá desaparecer do iOS ou do macOS. No iPhone, os utilizadores podem logicamente instalar a app do Facebook e ter assim a rede social na palma da mão. No macOS, o Facebook pode lançar uma app para trazer de volta algumas das integrações, como os atalhos para partilhar conteúdo directamente do Finder e das apps do macOS, à semelhança do que fez o Vimeo recentemente.

Entretanto, a Apple tem reforçado o seu ecossistema para que os utilizadores possam manter o contacto com os amigos sem recorrer a aplicações de terceiros. O iMessage permite a troca instantânea de mensagens, stickers e GIFs, criar conversas de grupo, etc. No iOS 12, vai também permitir partilhar fotos com efeitos “à lá Snapchat/Instagram” e, com a ajuda do Apple Photos, enviar álbuns inteiros de uma festa, por exemplo, às pessoas que aparecem nessas fotos; o o FaceTime também surge melhorado com a possibilidade de fazer videochamadas com um máximo de 32 pessoas em simultâneo. O Apple News oferece notícias personalizadas para ti – uma personalização que também encontras noutros serviços, como o Apple Music, o Apple Maps ou o Apple Books.

Ou seja, discretamente a Apple tem vindo a construir um mundo alternativo ao Facebook e à Google, onde os dados dos utilizadores não são necessários para o negócio da empresa funcionar.