WordCamp Porto: mais que um encontro de geeks, um encontro de forças

Um pouco por todo o mundo, realizam-se WordCamps – encontros das comunidades locais que usam o WordPress e contribuem para o desenvolvimento da plataforma. Em Portugal, há todos os anos um WordCamp, alternadamente entre Lisboa e Porto.

Zé Fontainhas a abrir o WordCamp Porto 2018 (foto via Flickr)

Estima-se que 30% dos sites da Internet sejam WordPress. Quer isso dizer que utilizam uma plataforma criada globalmente por milhões de programadores voluntários, com a ajuda do investimento de algumas empresas, como a Automattic, o WooComerce ou o Yoast. É que, ao contrário de um Wix ou de um Squarespace, o código do WordPress é aberto, o que significa que é frequentemente actualizado com os diferentes contributos que, apesar de poderem ser pequenos actos de motivação pessoal – feitos para resolver um problema pessoal ou do próprio negócio –, acabam por beneficiar directa ou indirectamente todos.

É essa a lógica que explica o porquê de tanta gente contribuir gratuitamente com código ou outras valências para o WordPress, e o porquê desta plataforma interessar às referidas empresas. A popularidade da utilização do WordPress está directamente relacionada com a dimensão da sua comunidade – quanto mais pessoas instalam e usam o WordPress, mais contributos vão dar para o seu futuro. Mais temas para personalizar o estilo dos sites e mais plug-ins para estender as funcionalidades do core vão existir.

A organização do WordCamp Porto 2018 estava identificada com t-shirts que, na parte traseira, tinham a frase “local host”, uma piada geek (foto via Flickr)

“A comunidade WordPress é talvez das comunidades mais interessantes em que estive envolvido”, refere Marco Almeida, programador e membro activo da comunidade portuguesa de WordPress há vários anos. “Aquilo que começou por ser para mim uma ferramenta de trabalho, é hoje em dia mais que um software – é essencialmente uma comunidade.” E uma comunidade que não é exclusivamente de geeks: “Se calhar, o maior grupo é o de implementadores – são as pessoas que instalam um tema ou um plug-in, nunca viram uma linha de código e provavelmente nunca vão ver, e pedem ajuda à malta.”

A comunidade do WordPress está dispersa pelo mundo – pequenas comunidades locais que, juntas, formam uma massa global de programadores, designers, tradutores, criadores de conteúdo e meros utilizadores ou entusiastas e que, nas suas cidades, se vão encontrando online (em Portugal, há um grupo no Facebook e uma comunidade no Slack, “que é teoricamente o principal canal de comunicação da comunidade”) ou offline, em eventos como o WordCamp. São oportunidades para aprender com membros mais experientes ou admiradas, partilhar conhecimento, conhecer novas pessoas e reforçar relações já existentes.

Uma pausa no WordCamp Porto 2018 (foto via Flickr)

“O WordCamp é o ponto alto da comunidade”, comenta Marco. Em Portugal, o WordCamp realiza-se alternadamente entre Lisboa e Porto porque, por cá, a comunidade WordPress não é suficientemente grande para justificar a existência de um evento anual nas duas cidades. “É uma forma que nós temos de dar a volta à organização internacional e de fazermos um WordCamp Portugal que acontece em dois sítios diferentes”, referiu Marco. Este ano, calhou ser a norte, nas instalações da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP). Foram dois dias de conferências e networking, numa edição que fica marcada pelas afinações do formato, que permitiram diversificar os temas na tentativa de chegar a novos públicos. Em vez de um único dia de palestras, desta vez houve dois – um primeiro, na sexta, com sessões de uma hora; um segundo, no sábado, com apresentações de 30 minutos alternadas entre dois auditórios e uma pequena feira onde algumas empresas, patrocinadoras do evento, puderam apresentar os seus serviços. Bilhetes a 35 euros com tudo incluído, vendidos na sua totalidade: mais de 300 participantes.

Chris Lema, um dos oradores mais aguardados no WordCamp Porto 2018 (foto via Flickr)
José Freitas é um dos organizadores do WordCamp Porto 2018 (foto via Flickr)

O WordCamp Porto 2018 arrancou com uma apresentação de Zé Fontainhas, um dos rostos mais conhecidos da comunidade WordPress Portugal, sobre hooks, um pormenor técnico do WordPress que interessa sobretudo a aventureiros do código e que permite alterar o comportamento de plug-ins ou do core do WordPress sem mexer no seu código original. Seguiu-se Chris Lema“uma das figuras mais conhecidas do WordPress mundial”, descreve Marco – e que deixou a audiência com vontade de criar um curso online com vídeos de outras pessoas. Falou-se ainda de padrões de design com exemplos práticos, de SEO com uma responsável do Yoast, o plug-in mais conhecido da especialidade, e de Gutenberg, a nova interface do WordPress que apresenta um conceito estrutural de blocos. O Gutenberg, que está a ser desenvolvido também por dois portugueses – Miguel Fonseca e Jorge Costa – foi assunto de destaque no segundo dia, quando também foi apresentado o jornal ECO enquanto caso de estudo de WordPress em Portugal, e se discutiu quando se deve ou não usar cache e foram esclarecidas dúvidas sobre o RGPD, numa sessão muito descontraída e por isso acessível com uma jurista, Caribay Camacho.

Miguel Fonseca e Jorge Costa, programadores do Gutenberg, a esclarecer algumas dúvidas no WordCamp Porto 2018 (foto via Flickr)

Muitas das palestras estão associadas a empresas, como é o caso das duas do Gutenberg, que está a ser desenvolvido pela Automattic, da apresentação do ECO, que foi feita pela Widgilabs, empresa portuguesa que desenvolveu o site, ou a do Yoast, que foi um dos patrocinadores deste WordCamp Porto. Mas, apesar de essas entidades competirem lá fora, “é giro ver que aqui se juntam todas”, como comenta Pedro Mendonça, membro também da comunidade WordPress Portugal e que, tal como Marco, um membro bastante activo. “E depois vês pessoas que estão a colaborar num determinado projecto e que sabes que são pessoas que trabalham separadas, juntando-se naquela equipa”, acrescenta.

Algumas sessões no WordCamp Porto 2018 foram mais técnicas, outras menos (foto via Flickr)

Marco e Pedro estavam sentados no corredor do WordCamp a colaborar na tradução de uma nova versão do WordPress que tinha acabado de sair. É que o WordPress é escrito e lançado em inglês e “depois existem comunidades no mundo inteiro a traduzir isto para uma quantidade imensa de idiomas”, explica Marco. “O Pedro estava a perguntar-me o que achava, porque havia ali umas frases mais técnicas para traduzir. Se calhar, a gente daqui a bocado resolve isso e amanhã tu sem reparares o teu WordPress vai actualizar e vai receber as frases traduzidas porque a gente esteve ali num banco a traduzi-las.”

Um workshop para crianças no WordCamp Porto 2018 (foto via Flickr)

Os dois dias de conferências do WordCamp Porto foram antecedidos pelo chamado Dia do Contribuidor, uma das iniciativas quase obrigatórias num WordCamp e que permite a quem tiver interessado juntar-se numa mesa e contribuir para o desenvolvimento do WordPress, seja com traduções, código, design ou outra valência. Outra novidade neste WordCamp Porto foi um workshop dedicado a crianças. “Temos ali uma sala, só se inscreveram seis crianças mas é a primeira vez”, diz Marco Almeida. “Temos lá crianças como o meu filho, com 8 anos, a miúdos e miúdas com 11 ou 12 anos a aprender a fazer um blogue em WordPress.”

Para o ano há mais WordCamp em Portugal, será a vez de Lisboa acolher a comunidade. Para estares a par de todas as novidades da comunidade portuguesa, podes seguir o e estar atento aos próximos eventos. É que, apesar de o WordCamp ser o ponto alto, existem diversos encontros ao longo do ano.