Third: os Portishead dez anos depois

O álbum acabou nas listas de melhores do ano e nos corações dos fãs que voltaram a encher salas e os festivais. Será o favorito de poucos, mas abraçado por quase todos.

Goldfrapp, Tricky e Portishead. Mesmo com um resultado final bastante diferente do som original de Bristol, a primeira metade de 2008 é marcada por edições de alguns dos mais importantes nomes trip-hop. Mas, enquanto os pares soam datados, os Portishead regressam com um som mais contemporâneo e arriscado. Ao contrário de tantos objetos revivalistas, a banda de Gibbons, Utley e Barrow nunca terminou para mais tarde regressar. Depois do álbum homónimo, decidem apenas regressar quando surge algo de valor para acrescentar. E, embora Adrian Utley tenha garantido que não levariam outros dez anos a editar um novo álbum, a verdade é que é 2018 e continuamos à espera.

Mas esta é uma história que tem que arrancar em 1994, com Dummy, disco tão especial para tanta gente, um dos melhores dos anos 90. Third é substancialmente diferente. Embora também também toque no hip hop, os samples dão lugar a instrumentação orgânica. O ritmo é, aliás, uma assinalável diferença: em Dummy, tudo é deslumbrante, mas o todo é prevísivel, sem grandes variações, ao contrário de Third que é menos belo, mas mais surpreendente. Numa entrevista de promoção a Third, Geoff Barrow referia que o sucesso de Dummy foi uma surpresa total, a estranheza que aquele som lhe causou no pós-grunge que ainda nem era bem pós-grunge, pois o álbum sai apenas quatro meses depois da morte de Kurt Cobain. Mas essa é uma estranheza que acompanha este Third: numa altura em que a música electrónica, a folk e o hip hop ganham terreno, o 3.º dos Portishead volta a adivinhar tendências, mesmo não estando na vanguarda das mesmas. Só faltou um revivalismo kraut, cuja influência também marca de forma clara o álbum de regresso do trio.

É estranho que um disco tão desafiante e pouco acessível gere um consenso tão alargado. O álbum acabou nas listas de melhores do ano e nos corações dos fãs que voltaram a encher salas e os festivais. Será o favorito de poucos, mas abraçado por quase todos.

Desde 2003, altura em que se deu o clique do regresso com a magnifica “Magic Doors”, a banda foi dando pistas em relação ao caminho a seguir: em 2007, a curadoria do All Tomorrow’s Parties terá sido a mais óbvia, com nomes como Madlib, Sun O))), Silver Apples e Aphex Twin, citando apenas alguns que nos parecem de mais óbvia associação. Segundo os próprios, todos os 47 nomes terão inspirado Third. Nico também nos ocorre em certos momentos e as bandas sonoras de John Carpenter são referência assumida pela própria banda. Compreende-se que os sons acústicos que alternam com sons maquinais não deixem o disco cair naqueles estatuto de clássico absoluto, mas está em qualquer lista de melhores da década que se preze.

Nota para a disponibilização em formato stream no Last.fm, uma semana antes da edição física.