Songdo: a cidade sul-coreana onde há uma câmara de vigilância em cada esquina

Black Mirror? 1984?

Vigilância massiva na cidade de Songdo (screenshot via documentário Digits, ep. 3)

O medo de podermos ser vigiados a qualquer instante e sem sabermos terá aumentado depois de, em 2013, Edward Snowden nos ter revelado os projectos de vigilância massiva por parte da norte-americana NSA. Também a internet e as suas fragilidades de segurança e privacidade têm contribuído para que agentes mal intencionados ou entidades governamentais se aproveitem dessas falhas para crimes ou os seus interesses. A tecnologia continua a evoluir a uma velocidade exponencial – está mais acessível e mais invisível, o que também facilita a recolha não autorizada de imagens e dados pessoais nossos.

Todavia, se alguns questionam a patrulha massiva dos cidadãos, outros vêem-na como dissuasora de crimes. Câmaras de vigilância são comuns nas nossas cidades em zonas militares ou de alto risco e em ruas de muito movimento, mas em Songdo, uma cidade construída de raiz na Coreia do Sul para ser uma smart city, há uma em cada esquina.

As câmaras em Songdo (screenshot via documentário Digits, ep. 3)

Apelidada de “cidade do futuro”, “cidade mais inteligente do mundo” ou de “utopia sul-coreana”, Songdo foi construída para ser sobretudo um centro empresarial, mais perto do aeroporto de Incheon que a capital Seul. Onde antes havia um terreno pantanoso, hoje existem arranha-céus, construídos depois de aquele terreno perto do Mar Amarelo ter sido acomodado com 500 milhões de toneladas de areia e mais de 35 mil milhões de dólares de investimento. Songdo, cuja edificação começou em 2002, ainda não está acabada, prevê-se a conclusão para 2020,  altura em que a área da cidade deverá ser quase o dobro da actual.

Criar uma cidade de raiz na era moderna permite concebê-la tendo em conta as preocupações e os modelos mais actuais. Por isso para além da videovigilância, Songdo é uma cidade pensada para ser ecológica. Não existem caixotes ou camiões de recolha de lixo, pois este é recolhido através de um sistema que liga casas e escritórios a uma central onde é transformado em energia ou separado e reciclado. Os edifícios são energicamente eficientes, parte da água usada é reutilizada e a cidade de Songdo, no seu todo, produz um terço a menos de gases com efeito estufa em comparação com outra cidade do mesmo tamanho.

A cidade de Songdo (foto via Flickr)

Cerca de 40% da área de Songdo é destinado a espaços verdes, cerca do dobro de Nova Iorque por comparação. O parque central é o maior da cidade, onde é possível encontrar coelhos entre a vegetação; é um espaço de encontro, corrida ao início ou final do dia e de relaxamento, onde se pode ouvir música clássica vinda de colunas.

O planeamento de Songdo teve em conta a mobilidade das pessoas. É uma cidade pensada para ser usada sem necessidade de carro, com transporte público, bicicleta e as deslocações a pé em foco. O metro cobre toda a área urbana, tem Wi-Fi para os utentes (ligação à Internet é algo que existe com fartura um pouco por toda a cidade de Songdo) e é meticulosamente cronometrado, com os tempos de espera mostrados em painéis fora da estações e nas paragens de autocarro. Existe uma rede extensa de ciclovias e a bicicleta é um meio de transporte bastante utilizado. Além disso, os pontos de comércio, escritórios, facilidades médicas, escolas, restaurantes… estão todos próximos das zonas residenciais.

Mas se tudo parece fantástico até aqui, eis que chegamos à parte que nos lembra Black Mirror ou 1984. Há um sistema de “telepresença” disponível nos escritórios e em algumas casas, que permite às pessoas encontrarem-se à frente de um ecrã de televisão; podem também receber aulas de fitness ou de inglês à distância através deste sistema. Para além disso, através de micro-chips, os pais poderão saber onde estão os seus filhos, se a tecnologia desenvolvida pela Cisco chegar a ser implementada na cidade – para já é apenas uma ideia em equação. Implementadas estão as câmaras de vigilância, espalhadas pela cidade e ligadas a uma central onde tudo é monitorizado.

Monitorização dos transportes públicos de Songdo (screenshot via documentário Digits, ep. 3)

A central não serve apenas para acompanhar o que se vê nas câmaras, mas também para monitorizar todos os restantes sensores da cidade, garantindo que tudo está operacional. Isto inclui condições meteorológicas, transportes públicos, alerta de pessoas desaparecidas, utilização energética, etc. Os operadores podem controlar o tempo dos semáforos e mexer nos sinais da cidade em tempo real para orientar o trânsito, de forma a evitar congestionamentos. Todos os carros estão registados e as câmaras funcionam quase como um polícia em cada esquina.

Alertas de crianças desaparecidas (screenshot via documentário Digits, ep. 3)

Residentes e visitantes dizem-se mais seguros ou simplesmente aceitam a vigilância a que estão sujeitos; consequência ou não dela, a criminalidade na cidade é baixa e as pessoas pedem câmaras junto às suas casas e escritórios. Dizem que até se esquecem das câmaras e também que não têm nada a esconder, mas, como Edward Snowden comenta tantas vezes, o direito à privacidade não tem a ver com termos ou não alguma coisa a esconder; tem a ver, sim, com termos algo a proteger – nós próprios e a nossa liberdade.

Certo é que Songdo ainda não tem “muita” gente. São cerca de 100 mil residentes e de 70 commuters diários, bem abaixo das 300 mil inicialmente previstas, normal atentendo ao facto de Songdo ainda estar a ser construída.

Para saberes um pouco mais como funciona a vigilância em Songdo, aconselhamos-te o episódio 3 (“Guardians of the Web”) do documentário Digits (2016).  Aqui podes encontrar excerto de 4 minutos que diz respeito à cidade sul-coreana.