Radical Philosophy torna-se gratuita e dá livre acesso a textos de Foucault, Derrida, Judith Butler e muito mais

A revista de filosofia de esquerda, promotora de movimentos como o feminismo ou a ecologia, está de volta e aberta a todos.

Quando os tempos se agitam é sempre positivo que surjam vozes a oferecer perspectivas demoradas e ponderadas sobre os assuntos com os quais nos debatemos. O exercício de ler uma longa reportagem, uma crónica fundamentada ou um bom ensaio é quase meditativo. Não é sequer necessário que subscrevamos o ponto do autor ou que enquadremos o tema em algo directamente ligado à nossa vida – o tempo dedicado à leitura exercita o músculo cerebral e as contorções intelectuais necessárias a apanhar o significado de tudo e, a partir daí, discernir uma opinião são alongamentos para a nossa tolerância, que, por vezes, se vai viciando em indignação nas redes sociais.

Foi com esse ethos que na década de 1970 surgiu a revista filosófica Radical Philosophy e é sobre a mesma perspectiva que agora se reinventa, numa iniciativa actual e ousada, disponibilizando os mais de 200 números que lhe compõe a história e lhe fazem o nome.

A ideia central desta revista é, desde o seu primeiro número, elevar o nível da discussão sobre os principais temas que marcam e definem uma sociedade. Com uma perspectiva que se pode perfeitamente associar à esquerda, publicaram ao longo destes 50 anos autores que se enquadram nos mais variados movimentos em que essa esquerda se divide. Nos anos 1970, a Radical Philosophy deu voz à nova esquerda intelectual que se opunha à pobreza filosófica. Nos anos 1980 e 1990, foi plataforma de impulso para ideias que hoje nos são familiares como o feminismo, a ecologia e movimentos sociais de oposição à índole neoliberal de Margaret Tatcher e Ronald Reagan. Já nos anos 2000, a Radical Philosophy juntou-se ao mundo da World Wide Web e alargou não só o seu espectro de leitores como a sua base de colaboradores – nessa altura reposicionou-se ao sabor dos tempos oferecendo perspectivas filosóficas sobre elementos culturais como arquitectura, literatura ou teoria da arte.

Agora, em 2018, dois anos após a edição número 200, a revista relança-se numa ousada operação conduzida pelo seu núcleo editorial. Com uma equipa reajustada, a Radical Philosophy abraçou a necessidade de mudança, repensando-se desde a criação. Assim esta nova fase, para além de ser marcada pela disponibilização da vasta biblioteca de artigos, ensaios e crónicas, caracteriza-se também pelo abraçar da filosofia de código aberto e de dados abertos, dois valores fundamentais da cultura web.

Tal como seria de prever numa revista com uma componente intelectual tão vincada, nenhum pormenor foi deixado de fora. Assim, a acompanhar esta mudança na forma de chegar ao público dá-se também uma mudança na forma de produção com o software proprietário, utilizado até aqui, a ser trocado por programas de código aberto e gratuitos, permitindo a redução de custos de infraestrutura e, facilitando, a gestão da revista ao longo dos anos.

De resto este tipo de atitude Radical Philosophy, tal como o nome indicia, já seria previsível ou talvez necessária para uma revista que se propõe a acompanhar os tempos, ajudando o público a reflectir sobre eles. Como o colectivo editorial nota, já na 100ª edição davam nota na necessidade de promover reformas na filosofia, modernizando-a.

Em traços gerais – e deixando como nota final do artigo o prelúdio para um mergulho na interessante biblioteca –, dizer que, para além do que o título da publicação honestamente revela, a Radical Philosophy caracteriza-se por textos incisivos, nem sempre consensuais de autores como Foucault, Badiou ou Judith Butle, alguns dos nomes que lhe valeram a associação à esquerda e a uma perspectiva de desafio aos cânones do pensamento académico.