Só livres de preconceitos podemos pensar em liberdade

Um resumo da 2ª edição do Shifter.

Durante o passado mês de Abril, debruçámo-nos sobre o complexo tema da Liberdade. Tal como no mês antecessor, não com o objectivo de o abordar por completo mas antes de começar a esculpir com o pensamento colectivo e os diferentes diálogos provocados pelo material produzido e publicado, os valores que melhor definem e ilustram a filosofia editorial do Shifter, em constante crescimento e maturação.

O resultado acabou por ser em termos quantitativos semelhante ao da informação: com o mesmo número e o mesmo género de artigos em predominância mas, do ponto de vista qualitativo, as conclusões, ou pelo contrário, as introduções não podiam ser mais cumulativas com o que tinha resultado da edição anterior.

Pensar a liberdade no século XXI, no ano 2018, é sobretudo marcado pela capacidade de consciencializar as diferentes formas e técnicas de opressão que por vezes tomamos como normais no nosso dia-a-dia. No fundo, é perceber que qualquer desigualdade – social, económico, religiosa, ou política – pode ser um elemento promotor da privação de liberdade do indivíduo.

Pensar a liberdade no século XXI, no ano 2018, torna-se sobretudo difícil porque passados 44 anos da queda do Estado Novo, a ditadura mais duradoura da Europa, parecemos continuar com dificuldade em resgatar por completo a liberdade de pensamento, eternamente condenada ao politicamente aceitável – não significa que seja correcto. Assim, conceptualiza-se num mundo diferente, prisões com símbolos iguais, tornando difícil pensar com uma toada realmente progressista que questione as bases do sistema.

Num mundo tendencialmente online, onde os dados dos utilizadores são ficheiros criminais em potência e as interacções sociais mecanizadas ao jeito dos casinos, a ignorância parece elevar-se com notório relevo privando-nos da liberdade. Não a ignorância comum, ou a vulgar falta de cultura geral, mas antes, a incapacidade de percebermos com exactidão o mundo em que convivemos parcimoniosamente. Como referia Richard Stallman, num artigo publicado no The Guardian, o novo consenso manufacturado já não é só promovido pelos mainstream media, como postulava Noam Chomsky, mas também pela nossa concordância sem critério com políticas de privacidade e condições de subscrições.

Foi com estas premissas em jogo que partimos para a abordagem do tema da liberdade dando especial enfoque a questões que acabam por ser transversais a todos nós, embora poucas vezes as concebamos. O conhecimento livre, o acesso a ferramentas gratuitas ou a criação cooperativa de alternativas são formas de liberdade que contrastam com um mundo onde as acções sociais se tornam monetizáveis por terceiros monopolistas como Facebooks, Twitters, Googles, etc.

Esta definição e reflexão não rejeita nem despreza que outras formas de opressão continuem a vingar perpetradas por estados por todo o mundo. Violência policial, alta carga fiscal, descriminação racial ou o coloquialmente extinto colonialismo são exemplos do que se passa um pouco por todas as geografias do planeta e cuja discussão é indispensável mas exige ser livre, de preconceitos, vícios, expectativas criadas pelas dinâmicas sociais em que nos enquadramos.

Foi pela junção destas duas realidades bem presentes na nossa equação que iniciámos a reflexão por aqueles que podendo não ser os problemas mais importantes do mundo, são os que nos afectam a nós. Rejeitando paternalismos ou moralismos, e questionando desde logo a liberdade da nossa prática diária em que usamos software por subscrição, páginas de código proprietário e acabamos por nos deixar aprisionar em bolhas intelectuais que nos levam a crer até nas nossas certezas e pensamentos mais descabidos.

Podes rever a 2ª edição do Shifter, dedicada à Liberdade, aqui.