Philip Roth: perdemos um dos grandes a quem só faltou o Nobel

Muito fica por escrever sobre aquele que se estabeleceu como um dos nomes de referência da literatura americana. Faltam histórias, faltam nomes, faltam citações de algumas das suas obras, falta muita coisa.

Philip Roth fotografado para a revista LIFE em 1968

Morreu Alexander Portnoy. Morreu Neil Klugman e David Kepesh. Mickey Sabbath e até Nathan Zuckerman. Sim, morreram todos um bocadinho. Esta terça-feira, 22 de Maio, morreu Philip Roth, escritor norte-americano de 85 anos, e com ele também cada um dos personagens que durante décadas confundiram críticos e leitores com os traços e características que partilhavam com o seu criador.

Seria mais fácil usar o eufemismo batido que defende que estes são personagens para sempre eternizados nos livros de Philip Roth. Mas não vão encontrar isso por aqui. Não quando falamos de um autor que se misturou tão propositadamente com eles. Tanto que chegou mesmo a criar um personagem com o seu próprio nome (A Conspiração Contra a América, 2004). Um jovem Philip Roth assumido (?) no nome e pouco mais. Confuso o suficiente para alimentar esta eterna discussão, deitando ainda mais achas para a fogueira onde muitos o quiseram queimar.

Roth nasceu em Newark, NJ, a 19 de Março de 1933, no seio de uma família judaica de classe média e, apesar de sempre se ter afirmado como ateu, o tema do judaísmo está presente em praticamente todas as suas obras. Esta particularidade valeu-lhe inúmeras críticas ao longo da carreira. Faltava-lhe experiência própria capaz de o dotar da legitimidade que julgavam necessária para abordar o tema, diziam. Roth sempre se defendeu dizendo que a única preocupação que essas pessoas tinham era perceber se o que escrevia era ou não baseado em experiências que tinha tido sem nunca entenderem, em primeiro lugar, o que é uma obra de ficção.

Os problemas conjugais provocados por esta tendência em manter as suas obras e as suas próprias vivências demasiado interligadas também foram uma constante na vida de Philip Roth, mesmo que este não seja de todo um território exclusivo seu. A mestria e a forma crua com que o fazia talvez fosse o que o destacava de outros que foram palmilhando estes caminhos.

Só lhe faltou ganhar o Nobel

Pulitzer, Man Booker International Prize , PEN/Faulkner Award, National Book Award, e o rol de premiações continua, estendendo-se o suficiente para que muitos digam que só lhe faltou ganhar o Nobel. Tudo isto torna difícil não usar a palavra génio para descrever alguém com o estatuto que Roth atingiu. Fica difícil não fazê-lo quando as páginas finais de Engano (1990) nos fazem soltar um wow genuíno. Quantos projectos de homem se foram descobrindo sexualmente com o explicitíssimo poder descritivo d’O Complexo de Portnoy (1969), que o catapultou para a ribalta depois de chocar meia América? Roth sempre foi falando do que lhe era familiar. Do que via, vivia, sentia e descobria. Parece uma fórmula simples, mas esta faceta tão próxima do que o rodeava pode ser considerada uma das grandes chaves para o sucesso que, felizmente, conseguiu atingir. Infelizmente, custou-lhe muitas outras coisas.

O vício que tinha de representar papéis e fingir coisas na vida real, tal e qual como fazia com as meias verdades que transformava em verdades absolutas nos seus livros, nem sempre foi bem visto. Principalmente pelas mulheres com quem partilhou a sua vida. Esta mania de usar a vida e a arte como disfarces uma da outra talvez tenha sido o lado menos amigável de Roth, ainda que muitos atribuam esta faceta à genialidade do autor, merecendo-lhes todo o perdão possível.

Foram mais de 50 anos a escrever, entrelaçando verdades, meias-verdades e as mentiras que uma obra de ficção pede. Desde Goodbye Columbus (1959) até Némesis (2010), Roth deixou-nos algumas obras primas, como Pastoral Americana (1997), que lhe valeu o prémio Pulitzer. Casei Com Uma Comunista (1998) e A Mancha Humana (2000) fecham esta “trilogia americana”, mas há muito mais que merece a nossa atenção. O Teatro de Sabbath (1995) ou O Escritor Fantasma (1979), em que nos apresenta pela primeira vez o seu alter-ego Nathan Zuckerman, engrossam a lista de obras com particular interesse.

Muito fica por escrever sobre aquele que se estabeleceu como um dos nomes de referência da literatura americana. Faltam histórias, faltam nomes, faltam citações de algumas das suas obras, falta muita coisa. A Roth faltou o Nobel. É impossível acabar sem repetir que só faltou o Nobel. A mim faltou-me tempo e até um maior conhecimento de causa para dizer mais. Mas, nas palavras do próprio, “all we don’t know is astonishing” (A Mancha Humana, 2000). Aproveito para riscar da lista de faltas as citações de um dos livros do próprio e para lançar o desafio acreditando que a sua morte (e este artigo) pode servir para que procuremos saber mais sobre o que não sabemos e honrar quem um dia também escreveu “even more astonishing is what passes for knowing”. Farewell, Philip.