A novela em torno da suspeita de assassinato encomendado de Marielle Franco

A morte de Marielle Franco foi planeada por um político e o chefe de uma milícia, diz uma testemunha. A vereadora terá interferido com uma milícia que controla uma zona da cidade onde o político tem a sua base de apoio, diz a fonte citada pelo jornal O Globo.

A história é trágica desde o início, por tudo o que representou para as comunidades que Marielle ajudou em vida e para as lutas sociais que o Brasil ainda enfrenta. Prova disso é que, à medida que avançou a investigação nos últimos dois meses, avançaram também uma série de candidaturas de activistas a deputados do Rio de Janeiro inspirados pelo legado da vereadora.

Desde o primeiro dia que as autoridades suspeitam que se tenha tratado de um homicídio premeditado, mas os últimos desenvolvimentos fazem o caso parecer uma verdadeira novela brasileira, com todos os contornos mirabolantes que as costumam caracterizar.

Uma testemunha ouvida pela polícia brasileira acusa o vereador do Rio de Janeiro Marcello Siciliano e o ex-polícia militar Orlando Oliveira de Araújo de envolvimento na morte da vereadora Marielle Franco, acusação refutada pelo político. De acordo com informações obtidas pelo jornal O Globo, a motivação do crime, segundo o depoimento da testemunha, foi o avanço de acções comunitárias de Marielle Franco em áreas de interesse da milícia na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro.

De acordo com O Globo, a testemunha alegou que foi forçada a trabalhar para Orlando Oliveira de Araújo e deu detalhes de como a execução da vereadora foi planeada. As conversas entre o ex-polícia militar e Siciliano sobre o plano teriam começado em Junho do ano passado.

O jornal diz que a testemunha forneceu três depoimentos à Divisão de Homicídios, dando informações sobre datas, horários e reuniões entre Siciliano e o ex-polícia, que actualmente está preso em Bangu 9, no Complexo Penitenciário de Gericinó, na zona oeste do Rio de Janeiro. A testemunha também terá fornecido os nomes de quatro homens escolhidos para o assassínio, agora investigados pela polícia.

Ainda segundo a publicação, a testemunha contou que, um mês antes do atentado contra Marielle Franco, Orlando Oliveira de Araújo deu a ordem para o crime de dentro da cela de Bangu 9. O depoimento também adianta que o ex-polícia é “dono” da favela Vila Sapê, em Curicica, na zona oeste do Rio de Janeiro, que trava uma guerra com os traficantes da Cidade de Deus. Segundo o depoimento, a vereadora passou a apoiar os moradores da Cidade de Deus e “comprou uma briga” com o ex-polícia e o vereador Siciliano, que tem uma parte do seu reduto eleitoral na região.

Num comunicado, o vereador Marcello Siciliano negou qualquer envolvimento no crime. “Expresso aqui meu total repúdio a acusação de que eu queria a morte de Marielle Franco. Ela é totalmente falsa. Não conheço ‘Orlando da Curicica’ e acho uma covardia tentarem me incriminar dessa forma”, referiu em nota. “Marielle, além de colega de trabalho, era minha amiga. Tínhamos projectos de lei juntos. Essa acusação causa um sentimento de revolta por não ter qualquer fundamento. Eu, assim como muitos, já esperava que esse caso fosse elucidado o mais rápido possível. Agora, desejo ainda mais celeridade”, referiu o vereador em comunicado.

Depois de o testemunho ter sido tornado público, a imprensa brasileira avançou que o inquérito sobre o assassinato de Marielle está quase terminado. De acordo com o Ministro brasileiro da Segurança Pública os resultados devem chegar “em breve”. 

A polícia brasileira fez ontem à noite a reconstituição do crime, no local onde ocorreu, no centro do Rio de Janeiro. As autoridades recriaram a cena, numa medida que consideraram “imprescindível” para ajudar a compreender o que aconteceu e na esperança de descobrirem provas sobre o autor do homicídio. “Durante a reconstituição, poderão ser disparados tiros em alguns lugares (…) É por isso que o acesso de peões e de veículos será bloqueado em toda a área”, explicou a polícia local num comunicado, antes da acção. As quatro testemunhas que estavam na rua no dia do crime, em pontos diferentes, participaram na acção desta quinta-feira. Os investigadores querem saber se reconhecem o som dos disparos e se, assim, podem ajudar a confirmar a arma usada no crime.

Marielle Franco, vereadora do Rio de Janeiro envolvida na luta contra o racismo, a homofobia e a violência policial, foi morta no dia 14 de Março com quatro tiros na cabeça, aos 38 anos. O carro onde se encontrava ficou cravado de balas, o motorista Anderson Gomes também foi atingido e acabou por morrer e uma assessora foi ferida por estilhaços.

A sua morte continua a comover o Brasil e o Mundo, que pedem acção e respostas urgentes. Até agora ainda não foi detido nenhum suspeito.