Contra o “motherfu****” Trump, Spike Lee e Jordan Peele lançam ‘BlacKkKlansman’

Depois de ter vencido um Óscar no ano passado, Peele junta-se a um dos seus mestres como produtor, para um filme que pretende ser uma chamada de alerta para a América racista dos dias de hoje, contando uma história do passado.

Confirmaram em Setembro que iam trabalhar juntos. Para os fãs de ambos há de ter sido das melhores notícias de sempre: Spike Lee, um dos maiores ícones do cinema afro-americano, um realizador polémico com lugar garantido na hall of fame da indústria graças a trabalhos como Malcom X ou Do The Right Thing; Jordan Peele, mestre do humor que podes ter conhecido inicialmente da dupla da Comedy Central, Key & Peele, mas que desde o ano passado estará para sempre associado à história dos Óscares como o primeiro realizador negro a vencer a categoria de Melhor Argumento Original com Get Out, o seu primeiro filme que, em muito, toca nos temas recorrentes de Lee – trata-se de um conto de terror polvilhado com elementos de sátira, um discurso sobre o racismo na América de hoje.

Esta colaboração entre a nova e a antiga vaga de mestres a tratar a chamada black history norte-americana teve como inspiração a história real e improvável do polícia Ron Stallworth (interpretado por John David Washington, filho de Denzel Washington), que nos anos 1970 se infiltrou na filial do Ku Klux Klan em Colorado Springs. Ao lado de Washington está Adam Driver, como o polícia que ajuda Stallworth com o disfarce.

BlacKkKlansman é mais actual que nunca. Mistura acontecimentos de época com notícias da actualidade – no final do filme, a comédia satírica mostra peças de noticiário sobre a manifestação de extrema-direita em Charlottesville, Virginia, que em Agosto do ano passado fez pelo menos um morto; e vídeos de declarações de Donald Trump em que culpou “os dois lados” pela violência.

Spike Lee fez a estreia mundial do filme em Cannes e acabou por ser o protagonista de uma das mais incendiárias conferências de imprensa que o festival de cinema do sul de França alguma vez recebeu. A recepção a BlacKkKlansman foi tão boa que concedeu a Lee uma ovação de quase 10 minutos, mas o ponto alto viria na manhã seguinte, quando o realizador de 61 anos contou na conferência a história da mãe de Heather Heyer, a vítima de Charlottesville, que o autorizou a usar as imagens do assassinato da filha: “Once I got permission, I said, ‘Fuck everybody else, that motherfucking scene is staying in the motherfucking movie.’ Cuz that was a murder.” Lee disse ainda que que aconteceu foi uma ferida “feia feia feia nos Estados Unidos”.

Num discurso dividido entre Charlottesville, o estado da América hoje, e, claro, o presidente Donald Trump, aproveitou para falar sobre a “asneira da direita” que tem vindo a definir a sua presidência. 

“We have a guy in the White House — I’m not gonna say his fucking name — who defined that moment [post-Charlottesville] not just for Americans but the world, and that motherfucker was given the chance to say we are about love, not hate. And that motherfucker did not denounce the motherfucking Klan, the alt-right, and those Nazis motherfuckers. It was a defining moment, and he could have said to the world, not just the United States, that we were better than that.”

BlacKkKlansman parece ser uma crítica dura e furiosa às políticas do Presidente norte-americano e às políticas de extrema direita em todo o mundo que, diz Lee, parecem uma “praga”. O realizador diz que o filme é uma chamada de alerta e que não lhe interessa o que os críticos digam do trabalho; para ele, o filme já fica na História.

O filme será distribuído pela Focus Features dia 10 de Agosto, data em que se assinala um ano desde os acontecimentos de Charlottesville. Por enquanto podes ver o trailer, onde se percebe a linha humorística que Spike Lee optou por seguir para contar uma história tão séria e real.