Karl Marx faria hoje 200 anos. Está na altura de ultrapassar os preconceitos

Sem que muitas vezes o consciencializemos, vivemos num estado que Marx mais ou menos profetizou.

Karl Marx e Emojis
Karl Marx, o pai do Marxismo faria hoje 200 anos

Passaram 200 anos desde o nascimento de Marx e continua a ser uma figura incontornável e frequente nos mais diversos contextos do espaço público sempre que o assunto é política ou, talvez o correcto seja dizer, sempre que o assunto é a visão da sociedade. Seja em memes, citações inspiracionais, blogues reinvindicativos ou textos de opinião satírica é relativamente vulgar vêmo-lo com um símbolo do lado esquerdo da força. E se esta visão facilita o discurso e até a esquerda agradece ter a quem recorrer quando falta outra coisa, um pequeno conhecimento sobre o marxismo exige-nos que duvidemos ao máximo da validade de todas estas referências.

Já o próprio confrontado com o que se tornara o Marxismo francês, terá dito ao seu genro, Paul Lafargue, “Ce qu’il y a de certain c’est que moi, je ne suis pas Marxiste”, conforme conta Engels numa carta enviada a Bernstein em 1882. Esta atitude reveladora da margem estreita do que é o marxismo é a pista para que não vejamos a sua obra como algo directamente associado a qualquer uma das suas interpretações mas antes como um modo de as questionar.

De resto, outra das ideias base de Marx, posteriormente apelidado de Materialismo Histórico, explica o porquê noutra citação curta: “Não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência.” Isto é, algo bruscamente, não é a ideia que determina a prática, mas a a possibilidade da prática que pode determinar a ideia. Em suma, e seguindo o raciocínio, nada poderia ser marxismo, até ser marxismo na sua assunção completa.

Isto deve lembrar-nos que a base de Marx era a filosofia, por muito que o próprio se opusesse à inacção inerente a muitos filósofos. A melhor coisa que deixou não foi um guia prático para o mundo perfeito, mas antes um conjunto de pensamentos, reflexões e análises que com certeza caberiam nesse mundo – por muito que a intenção pudesse ser a primeira. Em todas as obras, esconde contradições e lacunas que as podem tornar inoperantes mas de modo algum as tornam inúteis. A forma como Marx teorizou a influência da economia na sociedade é assunto em salas de aula de Sociologia e devia ser menos estigmatizada de um modo geral, porque tem pontos e questões fortes que, como qualquer outra corrente filosófica valorável, ajudam a redefinir, sedimentar e melhorar valores. Mais importantes que as certezas, até no momento científico, são as dúvidas que se levantam e é nesse capítulo que a obra de Marx pode contribuir.

Quem foi Karl Marx?

O tempo passado e as fotografias e a preto-e-branco com resolução que nem um iPhone 4s tem influenciam a nossa percepção. A tendência pode ser, por vezes, para imaginar estas figuras como personagens numa história devida estável, confortável, com algum luxo e luxúria. Ora, Marx foi mais ou menos o contrário.

Nasceu na pacata cidade e muito antiga cidade de Trier, na Alemanha, um de nove filhos de Heinrich e Henrietta Marx. Estudou em casa até aos 12 anos, altura em que ingressou numa secundária jesuíta na sua cidade-natal. Mais tarde, em 1935, viajou até Bonn na sua primeira experiência universitária. Neste período, entusiasmou-se com a vida estudantil e chegou a ser preso por causar distúrbios, acumular dívidas e andar à porrada. No ano seguinte foi conduzido pelo seu pai até uma universidade “mais séria”, em Berlim. Foi nesse mesmo ano em que começou a namorar com Jenny von Westphale, com quem viria a casar anos mais tarde. Apesar da mudança, continuava a descer na consideração do seu pai à medida que formava as suas próprias convicções políticas.

Até 1941 concluiu o seu doutoramento, já na Universidade de Jena, mas devido à sua atitude activista acabou por não seguir para professor; foi como jornalista que Marx começou a sua vida profissional, mais tarde tornou-se editor do Rheinische Zeitung até um mês antes do fecho do jornal por ordem do Governo alemão.

Edição fac-similada do último número do jornal onde escrevia Karl Marx.

Já casado, voou com Jenny para Paris. Continuou a trabalhar como jornalista na fundação de um jornal político, o Deutsch-Französische Jahrbücher (ou, em inglês, German-French Annals), que teve apenas uma edição antes de divergências políticas entre Marx e o co-fundador ditarem a cessação. Foi de resto no jornal que Karl Marx conhecera Frederich Engels, que mais tarde se tornara seu grande amigo e figura central na concepção, sistematização, publicação e divulgação do marxismo.

De Paris partiu para Bruxelas, onde intensificou a actividade política e a estreita colaboração com Frederich Engels na produção intelectual. Foi por esta altura, em 1847 que Karl Marx publicara uma importante obra, A Pobreza da Filosofia, uma crítica sobretudo do ponto de vista económico às ideias do socialista francês Proudhon, onde evidenciara alguns dos traços que se tornariam característicos da sua obra. Foi ainda em Bruxelas que começou a relação, digamos, institucional com o comunismo, fundando e sendo sempre um importante dinamizador do Comité de Correspondência Comunista em Bruxelas, uma inspiração para o que surgiria mais tarde, em Londres, a Liga Comunista e o Comité Central. Foi desta última instância que surgiu o convite a Marx e Engels para que redigissem o Manifest der Kommunistischen Partei (Manifesto Comunista), que, editado, em 1848 fez lhe valeu a expulsão de Bruxelas no ano seguinte.

De Bruxelas, sem quem editasse os seus textos, partiu para Paris, de onde foi igualmente expulso; tentou recuperar a nacionalidade original que também lhe foi negada, levando-o a rumar a Londres em busca de asilo com uma vida cada vez mais desregrada e, de certo modo, miserável mas ainda com a sua companheira Jenny que, em cartas para Alemanha, ia dando conta da sua condição.

Na última década da sua vida, mais debilitado, dedicara-se a comentários políticos mais breves e produziu textos críticos aos regimes muito válidos, num desses últimos escritos da sua vida, cunhou a expressão que hoje sintetiza o marxismo: “De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades.”

Marx acabou por morrer em 1883, no dia 14 de Março. Símbolo da vida errante que levara a sua tombola original não tinha qualquer inscrição, contudo, o Partido Comunista britânico em 1954 inscreveu na pedra algumas das citações mais simbólicas da sua obra, como o chavão “Trabalhadores de todo o mundo unidos”.

Edição Portuguesa do Manifesto Comunista de Karl Marx e Friederich Engels

Marxismo não é (só) comunismo

Na senda da vida que passámos em revista, é fácil perceber que, de autoritário, Marx teve muito pouco durante a sua vida. Sobretudo por se manter sempre em posições marginais e contra os estados onde vivia, Marx foi sobretudo um teórico disruptivo, que, seguindo parte dos ideais que preconizava, fez da sua vida a sua condição, recusando um emprego estável e normal, perseguindo uma vida de revolução interna constante, onde fundava as suas ideias mais ousadas.

Marx não se idealizava para a prática política num estado concreto ou como líder de uma nação, fazia-o como filósofo, intelectual pária e anti-sistémico. É por isso que quase todas as interpretações do marxismo conhecidas acabaram por falhar – porque qualquer ortodoxia poder ser insuficiente. Em suma, mais do que ser aplicado, o marxismo é uma doutrina que deve ser estudada como base para criar novas aplicações políticas.

Isto não significa que Marx não fosse comunista ou que o seu trabalho não tenha influenciado de forma decisiva esta ideologia. Mas até pelo comunismo lhe ser anterior, esta assunção é simplista e insuficiente. Marx teorizou sobre os vários estádios de organização social, explicando-os através das relações económicas que se estabeleciam (escravos vs donos; soberanos vs servos) e vendo o comunismo como um final desejável e inevitável – uma espécie de evolução do capitalismo depois de acumulada riqueza e conhecimento necessários a uma sociedade sem estados e igualitária.

Neste universo de ideias complexo, seleccionámos algumas para que percebas as linhas gerais do pensamento de Karl Marx para além do estigma de comuna ou outra coisa qualquer.

  • Oposição a sistemas que se baseiem na desigualdade, alienação e exploração: Marx opunha-se a qualquer espécie de sistema político opressor e por qualquer forma de exercer esta opressão. Fosse através da desigualdade nas condições de vida, da alienação (afastamento do trabalhador daquilo que produz) ou da exploração directa do homem pelo homem.
  • Internacionalismo: por ver no sistema económico vigente grande parte da explicação para os problemas, Marx afiançava que os trabalhadores de todo o mundo sujeito ao mesmo sistema partilhavam do mesmo problema e que, só unidos, o poderiam suplantar, ignorando as divisões impostas pelo conceito de nação.
  • Concepção Materialista da história: Marx era um filósofo, um intelectual com tudo o que isso tem de subjectivo mas tentava aproximar-se da ciência tanto quanto possível, assim se explica facilmente a sua concepção materialista da história em oposição ao idealismo vigente. Para Marx não são as ideias que determinam a realidade mas a realidade que determina as ideias que nela se desenvolvem.
  • A existência de classes: o reconhecimento da existência de classes pode ser relacionado com o ponto anterior como: o reconhecimento das diferentes realidades a que cada individuo se sujeitam. É esta a base de feminismo, movimentos LGBT ou precários que se unem enquanto classe para reinvindicar pautas ideológicas definidas: no fundo é a sua realidade enquanto grupo que lhes sustenta a luta. A chamada luta de classes.
  • Duvidar de tudo: um ponto menor mas d extraordinária importância era a atitude de dúvida permanente de Marx na tentativa de perceber o mundo. Na linha da sua visão materialista da história, a ideia aqui é não atribuir a responsabilidade de um fenómeno simplesmente ao seu agente, ou vice-versa, mas antes, duvidar de todos os pormenores que o tornaram possível até se perceber a realidade que lhe deu origem.

Porque ainda hoje é relevante

Passados todos estes anos, o trabalho de Marx mantém a sua importância. Um olhar sobre os títulos dedicados ao bicentenário de Karl Henrich Marx mostram que provavelmente estaremos numa das fases da história em que Marx pode ser mais relevante ou que, pelo menos, existir maior propensão para o compreender: basta ler, por exemplo, o gigante artigo do The Economist sobre o assunto.

Passados 200 anos, é possível aprofundar para além da bipolaridade geralmente associada ao seu trabalho e dos preconceitos criados por anos de confronto ideológico, assimilando para qualquer corrente ideológica partes importantes do estudo detalhado de Marx.

Afinal de contas, e sem que muitas vezes o consciencializemos, vivemos num estado que Marx mais ou menos profetizou – com as suas contradições e paradoxos, é certo. Recorrendo ao supra-citado artigo do The Economist, é fácil percebermos como algumas das principais ideias de Marx são válidas no século XXI.

O internacionalismo dos interesses económicos, que se revela nas complexas teias de relações que se estabelecem por todo o mundo, a precariedade que atomiza os trabalhadores mas por vezes junta os trabalhadores em classes de luta e os novos titãs económicos que controlam como o mercado (pense-se, neste caso, no mercado digital) evoluí são alguns dos pontos onde Marx continua a fazer sentido.

A grande lacuna e flanco por onde surgem grande parte das críticas, a falta de aplicação prática das ideias, não lhes tira necessariamente valor como ferramenta de análise. Em resumo, o marxismo pode tornar-se ainda mais valioso se assumirmos desde logo que em certos pontos é mau e requer a dúvida permanente. Marx acreditava que só pela revolução as coisas avançariam, mas foi sobretudo de reformas que se fizeram estes últimos 200 anos. No entanto, tecnologias como a internet que são palco para iniciativas como o SciHub, que mostram como as novas formas económicas geram novos modos de relação e as revoluções podem acontecer onde e quando menos se espera. De resto, toda o legado de Marx serviu de inspiração a dezenas, se não centenas, de intelectuais, escritores e artistas, uma influência que não se pode desprezar, estigmatizar, nem descriminar e que revela a riqueza da sua herança.