Afinal onde será a próxima edição da Eurovisão e outras considerações sobre a vitória de Israel

O evento realiza-se tradicionalmente no país vencedor da edição anterior, mas questões de política interna e a crescente tensão diplomática em torno de Israel, deixam dúvidas e o Governo isrealita tem aproveitado o "fait divers" para alimentar a polémica em torno da verdadeira capital do país.

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“Para o ano em Jerusalém!” disse Netta, a israelita vencedora da 63ª edição do Festival Eurovisão da Canção no palco lisboeta, momentos após ter sido a concorrente mais votada. Horas mais tarde, o Primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu felicitava a sua representante pela vitória e afirmava o mesmo: “No próximo ano em Jerusalém”, lê-se num tweet acompanhado da actuação de Netta, que cantou “Toy”, uma música sobre brinquedos para enviar uma mensagem de poder às mulheres, que entre sons de galinhas e um espectáculo de apresentação carregado de pirotecnia e influências kawaii tem versos como “Levo o meu Pikachu para casa / És estúpido, como o teu smartphone”. 

O orgulho de Netanyahu foi tanto, que no dia seguinte à grande final do evento, o Primeiro-ministro dançou como a cantora à chegada à reunião matinal do Governo e até iniciou o encontro dizendo “toy dia”, em vez de “bom dia”.

Mas apesar dos dois anúncios, o futuro da 64ª edição do festival é incerto. No final da conferência de imprensa com a vencedora, o supervisor executivo do Festival Eurovisão da Canção, Jon Ola Sand, disse que ainda “não foi definida cidade nem data”. “Vamos a Israel em breve para discutir a próxima edição. Divirtam-se que em breve começa o trabalho a sério”, afirmou, dirigindo-se ao chefe de delegação de Israel, a quem entregou uma “‘pasta de boas-vindas’ com informação inicial.”

O problema está no facto de, há um ano, a IBA, emissora nacional de Israel ter anunciado que iria deixar de transmitir, depois de 50 anos no ar. Na altura do anúncio, decorria a fase de semi-final do Festival da Eurovisão. A participação de Israel não sofreu alterações mas cresceu a dúvida em torno da transmissão da edição seguinte. A IBA foi substituída pela à altura recém-criada KAN, lançada precisamente há um ano, a 15 de Maio, dois dias após a final do Festival. A nova estação pública não cumpria os requisitos para aderir à European Broadcasting Union. Em causa estava o carácter maioritariamente de entretenimento do novo canal, quando a EBU exige que as televisões parceiras tenham também conteúdo informativo. Ao comentar o assunto, a EBU considerou-se também “espantada” pela interferência do Governo na emissora nacional, e pelo facto de essa interferência não autorizar o canal a transmitir programas de notícias.

No momento da votação no ano passado, o apresentador israelita responsável por divulgar os votos do país anunciou em directo o fim da emissora nacional, deixando no ar o futuro da participação israelita nos próximos festivais da Eurovisão – as regras do concurso estabelecem que todas as emissoras devem transmitir o evento para poderem entrar e votar. Não estando a KAN autorizada à transmitir o evento pela EBU, Israel não teria assim direito a participar.

A EBU e a KAN assinaram em Outubro do ano passado um memorando de entendimento que concedia à nova emissora israelita a afiliação temporária à EBU, permitindo assim que Israel começasse a preparar a sua participação na Eurovisão 2018. O acordo final acabou por ser firmado em Dezembro, com a KAN a integrar oficialmente a EBU.

A European Broadcasting Union cede assim num tema que não pode ser simplesmente varrido para debaixo do tapete depois da tensão que existiu em relação à interferência do Governo no novo canal estatal na única democracia do Médio Oriente.

A vitória de Israel chega numa altura de foco significativo em Jerusalém. Foi inaugurada ontem em Jerusalém a polémica embaixada norte-americana, recentemente deslocada da cidade de Tel Aviv. No bairro de Arnona, nascerá a nova casa norte-americana naquele país díspar do Médio Oriente – um marco histórico da política internacional de Donald Trump, que reconhece Jerusalém como a capital de Israel, rompendo com gerações de consenso internacional de que o status da cidade devia ser estabilizado como parte de um acordo de paz de dois estados com a Palestina.

A decisão foi amplamente comentada, merecendo críticas de vários quadrantes da sociedade civil, por ignorar a diplomacia que prevalecia até então, mas as provas de que agrada a grandes grupos de israelitas independentemente de fugir ao consenso global são inegáveis.

A cidade de Jerusalém mantinha-se terreno isento e de mínima actuação política por ser considerada um local sagrado tanto para palestinianos como israelitas; numa designação da ONU de 1947, Jerusalém, foi inclusivamente considerada “corpus separatum”, numa assunção do seu carácter internacional muito particular.

Benjamin Netanyahu aproveitou o reconhecimento de Washington para instar todos os Estados a transferirem as suas embaixadas para Jerusalém, dizendo que a cidade é a capital do povo judaico “desde há 3.000 anos” e “continuará a sê-lo eternamente”, disse o chefe do Governo israelita e também ministro dos Negócios Estrangeiros, numa cerimónia celebrada nesse ministério para comemorar a conquista diplomática que significa a mudança, esta segunda-feira. Revelou ainda na semana passada que “há outros países” que estão a avaliar a possibilidade de fazerem o mesmo, mas recusou adiantar quais, invocando tratar-se de “segredos de Estado”. 

Netanyahu também se referiu, no seu discurso, à vitória de Israel no Festival da Eurovisão. “Aqueles que não queriam que Israel estivesse na Eurovisão vão ter uma Eurovisão em Jerusalém no próximo ano” disse, numa alusão ao movimento pró-palestiniano que pediu o boicote à artista.

Por enquanto, ainda não há confirmação oficial da cidade onde se vai realizar o evento no próximo ano, mas não há dúvidas de que o festival está a ser usado pelo Governo israelita como manobra de diversão para tentar cravar o nome de Jerusalém na história pelos que podem vir a ser os piores motivos, abrindo precedente para avanços políticos até aqui impossíveis num local até então isento, de mira apontada a Gaza e às aspirações nacionais dos palestinianos. O Festival da Eurovisão já se realizou anteriormente em Jerusalém (1979 e 1999) mas não em anos de polémica tão acesa nem de uma expressão mediática tão vincada.

Actualização 24 de Maio: Esta terça-feira, em tom de alerta, a Eurovisão fez uma publicação nas redes sociais, a pedir para que as pessoas não marquem já as viagens para Israel. “Já estão à espera da Eurovisão do próximo ano? Nós também. Mas não comprem já as vossas viagens. Para informações oficiais ou saber onde é que o evento será realizado, fiquem atentos aos nossos canais oficiais”, pode ler-se na nota publicada.