Ontem pareceu um dia normal mas foi um dia negro para Israel e o mundo actual

O assunto pode parecer distante ou pouco relacionável com a nossa realidade mas não o é. Só uma sociedade consciente, informada, activa e construtivamente crítica pode conceber alternativas e exercer pressão política e social para que algo possa mudar.

Ao longo das últimas décadas, fomo-nos habituando a legitimar todo e qualquer regime que pareça uma democracia. Foi isso que os anos de luta contra ditaduras nos deixou como sinal de alarme nos nossos próprios territórios e é isso que socialmente acabamos por projectar de forma por vezes pouco ponderada. Se é certo que não há nada mais vil para um povo do que ser controlado por um líder e condenado a um pensamento uno, não é certo que os mecanismos de controlo sejam sempre evidentes, que o único potencial lesado de um estado seja o seu próprio povo, nem que este deva ser o único critério que um estado deve cumprir para bem da sua legitimidade. E muita atenção devemos ter à forma como este é retratado nos media.

Israel é o caso mais paradigmático desta definição. Tantas vezes dado como a única democracia viável no Médio Oriente, o estado de Israel continua a carecer de uma política honesta e humilde que lhe permita organizar-se e evoluir dentro do que foi lhe foi consignado, com consideração pelos outros povos e, em último caso, pela lei internacional.

Se lhes foi reconhecido o sonho, não têm direito de tornar a Palestina num pesadelo. Não nos podemos esquecer que Israel começou pela mão dos britânicos, quando estes controlavam o território da Palestina, fruto da I Guerra Mundial, e designaram o local “terra de Judeus”, designação que daria lugar a Estado em 1948 quando este controlo se perdia, no fim da 2ª Grande Guerra. E é essencial que percebamos este ponto para perceber o que significam os protestos palestinianos – isso e que o território Palestiniano se encontra dividido em duas porções, também importa não esquecer.

Gráfico da Vox: The growth of Israeli settlements, explained in 5 charts

O país fundado há 70 anos, teve presente numa guerra a cada década da sua história. E se a tentação pode ser condenar os seus vizinhos, a que nos habituámos a chamar sem critério radicais, actualmente e com o suporte político dos Estados Unidos da América, a posição do Governo Israelita tem sido cada vez mais provocadora.

Se é facto que o Hamas ganhou relevância política e social crescente no território palestiniano, não se pode descartar que no seio das motivações que levam a população a juntar-se e a suportar grupos de ideais radicais está um sentimento de injustiça e impotência presente em qualquer que seja a versão da história. Não é preciso pisar o terreno para perceber esta relação simples entre o medo e a adopção de ideias radicais. Os próprios americanos o experimentaram contra amigos imaginários levando à eleição do radical Trump – por muito que mudem as técnicas, os humanos não são assim tão diferentes.

Israel mantém-se uma aparente democracia dentro de portas, apesar das notícias de maus tratos a comunidades africanas e a políticas de controlo de natalidade absolutamente radicais, com tiques de colono para quem vê de fora. Se os gráficos que circulam por toda a internet da evolução do território e dos colonatos mostram dezenas de anos de desprezo da lei internacional e o crescente confinamento do povo palestiniano, as últimas acções e expressões mostram que a estratégia de Netanyahu segue o mesmo caminho. De resto foi Netanyahu quem decretou Jerusalém como capital do Estado Israelita, ignorando a deliberação da ONU de que a cidade, por ser sagrada para 3 cultos devia permanecer corpus seperatum e livre de controlo político.

E se todo este contexto é extremamente sensível, o confronto entre as os lados da narrativa que se materializa na faixa de Gaza é explosivo e desproporcional como o que se viu ontem, no dia da inauguração da embaixada (provisória) norte-americana em Jerusalém, um dos dias mais sangrentos dos últimos anos.

A concentração de palestinianos junto da vedação foi especialmente incentivada para esta segunda devido à inauguração da embaixada norte-americana, a que os palestinianos logicamente se opõe. Altas instâncias israelitas negam o uso desproporcional da força, alegando que vêm nos protestos uma ameaça séria. De resto, ainda esta segunda-feira, aviões largaram panfletos sobre a zona de origem dos manifestantes, procurando dissuadi-los de estarem presentes, com uma mensagem: “Estás a participar em protestos violentos. Salva-te e prioriza o teu futuro.”

Do lado de Israel, a tese é de que os protestos são incentivados por uma organização que consideram de índole terrorista, o Hamas, que, por seu turno, reitera defender soluções pacíficas. Para balanço ficam os números: desde 30 de Março, início das manifestações junto da Faixa de Gaza, já morreram 58 palestinianos, enquanto do lado de Israel e – apesar das alegações de perigo e do sentimento de ameaça descrito – não há nenhuma morte a registar.

Shifter – 14/05/2018

À manifestação popular a que se juntam activista e, muito provavelmente, alguns radicais armados, do lado Palestiniano, Israel responde com a violência do estado, sofisticada e coordenada do seu exército. Tiros de sniper – de longo alcance, entenda-se – e drones com granadas de gás lacrimogénio tentam afastar o povo palestiniano, da vedação que os separa de um território que historicamente já foi seu, e que se esconde em cortinas de fumo negro provocadas por pneus ardentes.

Quem nos guarda dos guardas?

Se quanto a conflitos no Médio Oriente estamos habituados a ver os Estados Unidos no papel de defensor da democracia, este caso merece a expressão retórica popular “quem nos guarda dos guardas” especialmente com Donald Trump no comando. Os EUA têm alinhado ao lado do estado israelita contra toda e qualquer diplomacia ou consenso internacional enquanto enunciam livremente “querer a paz”.

Neste contexto já foram vários os países a mostrar a sua discordância com as atitudes e decisões de Donald Trump. 120 países condenaram a sua decisão de alterar a embaixada para a cidade de Jerusalém mas, apesar disso, a decisão prosseguiu, deixando no ar a dúvida sobre que tipo de democracia e direito internacional defendem afinal as instâncias norte-americanas.

Trump mandou inaugurar uma embaixada provisória, dias depois de rasgar unilateralmente o acordo com o Irão e num dia histórico para israelitas e traumático para palestinianos. Uma atitude que não podendo ser considerada irreflectida – não se pode conceber que um presidente com tanto poder tome decisões sem pensar – vai no sentido inverso à paz que as suas palavras apregoam.

Do lado ocidental e apesar das palavras de alguns líderes importantes como Emanuel Macron que já condenou a desproporcional do exército israelita, ainda continua a reinar uma certa normalidade ou, por outro, uma certa normatividade que por muito que se negue se torna evidente na insistência em chamar “confrontos” a um embate desproporcional ou em rotular como terroristas as dezenas de milhares de manifestantes, como vimos em artigos de opinião na imprensa nacional. Para além desta banalização da violência genocida, falta também coragem ou prioridades bem definidas para confrontar escrutinar as principais potências do mundo e o seu papel neste tipo de conflitos.

Um exemplo claro e simples para que qualquer um possa compreender passa pela venda de armas que todos os países ocidentais e ditos desenvolvidos continuam a fazer indiscriminadamente para zonas de conflito, armando quer estados, quer dissidente, fornecendo, por assim dizer em metáfora, a pólvora necessária à explosão previsível. Só em 2016, os Estados Unidos venderam 38 mil milhões de dólares em armamento a Israel, nos últimos dois anos o Reino Unido vendeu 230 milhões de dólares de armas, enquanto por seu turno se suspeita que Israel venda armas a países proibidos de as comprar.

O assunto pode parecer distante ou pouco relacionável com a nossa realidade mas não o é. Só uma sociedade consciente, informada, activa e construtivamente crítica pode conceber alternativas a estes acordos milionários dos Estados e exercer pressão política e social para que algo possa mudar. De resto, em Portugal, a posição quanto à mudança de local embaixada dos EUA, o Ministro dos Negócios Estrangeiros ecoou a condenação internacional, quanto às reações às mortes de ontem, nota para Marcelo que se escusou a comentar.