João Salaviza ganha prémio em Cannes e apela aos direitos dos povos indígenas brasileiros

'Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos', do realizador português e da brasileira Renée Nader Messora, foi esta sexta-feira premiado com o Prémio Especial do Júri ‘Un Certain Regard’, uma secção paralela à selecção oficial do Festival de Cannes.

Frame do trailer de "Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos"

É o segundo filme português a ser premiado nesta semana do Festival de Cannes. Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos é um trabalho conjunto de João Salaviza e da realizadora brasileira Renée Nader Messora, que foi assistente de produção da última longa do português, Montanha.

O filme rodado em 16mm, sem equipa, foi o resultado de meses passados com os krahô, povo indígena do Brasil, no estado de Tocantins, que Renée conhece há dez anos e ao qual expôs João logo após do seu anterior trabalho juntos. A ficção começou, como descreve o Público, como um filme de fuga a uma “parafernália”, o cinema com as suas equipas grandes, os seus compromissos de produção, e acabou na história do jovem índio Ihjãc, personagem perseguida e atordoada pela “realidade” e pelos “fantasmas”, que é o reencontro com o cinema como fabricação do mundo, numa espécie de nova vida de Salaviza. João e Renée reencontram uma potência a céu aberto, a aldeia da Pedra Branca, com as suas pessoas, os elementos, os animais, e João Salaviza que o Festival de Cannes premiou em 2009 com a Palma de Ouro pela curta-metragem Arena, e que em 2015 deslumbrava o mundo com a sua primeira longa, não é o Salaviza que a secção Un Certain Regard da 71.ª edição recebe com Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos.

O filme recebeu esta sexta-feira o Prémio Especial do Júri Un Certain Regard, secção paralela à selecção oficial do Festival de Cannes. Em declarações à Agência Lusa, o realizador português declarou que este “é um filme feito por duas pessoas no meio do mato, sem qualquer coprodução francesa, com 80 mil euros de apoio do ICA [Instituto do Cinema e do Audiovisual], e estar a ombrear com outros filmes da competição é fantástico”. 

“Não há espíritos ou cobras esta noite e a floresta em redor da aldeia está sossegada. Ihjãc, de 15 anos, tem pesadelos desde que perdeu o pai. É um Krahô indígena do norte do Brasil. Ihjãc caminha pela escuridão, o seu corpo suado move-se com receio. Um cântico distante atravessa as palmeiras. A voz de seu pai chama por ele através da cascata: é hora de organizar o festim funerário para que o espírito possa partir para a aldeia dos mortos. O luto deve cessar”, pode ler-se na sinopse disponibilizada pelo festival. “Negando o seu dever e para poder escapar o processo crucial de se tornar um xamã, Ihjãc foge para a cidade. Longe do seu povo e da sua cultura, enfrenta a realidade de ser um indígena no Brasil contemporâneo”.

Trata-se da secção mais importante da seleção oficial do festival a seguir à da competição pela Palma de Ouro, destinando-se a reconhecer jovens talentos e a encorajar trabalhos inovadores e audazes. O júri Un Certain Regard, que era presidido por Benicio del Toro, atribuiu o seu prémio principal a Border, de Ali Abbasi, o melhor argumento foi para Sofia, da franco-marroquina Meryem Benm’Barek. A melhor interpretação foi atribuída a Victor Polster, por Girl, de Lukas Dhont, e o melhor realizador foi Sergei Loznitsa, por Donbass.

Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos foi exibido em sessão de gala na quarta-feira à noite, oportunidade que a equipa do filme usou para denunciar na passadeira vermelha de Cannes o “genocídio indígena” e pedir a“demarcação das terras dos povos autóctones” no Brasil, com cartazes em vários idiomas. O protesto respondia à mobilização de líderes indígenas, que acusam o governo do presidente Michel Temer de se negar a demarcar as terras indígenas e favorecer os empresários rurais.

No final da sessão de estreia, a equipa foi aplaudida e houve ainda um momento de cânticos “Fora Temer”. Numa entrevista à AFP, Renée Nader Messora e João Salaviza criticaram o “perigoso discurso” político atual que “nega” aos índios a sua condição simplesmente porque adotam costumes ocidentais, como usar roupas ou ter um telemóvel. “Ser indígena é um modo de ser e não de aparentar”, declarou Salaviza.