Como Trump descarrilou o mundo em duas semanas e pôs em risco cimeira com a Coreia do Norte

Da situação em Israel ao acordo nuclear com o Irão, o Presidente dos Estados Unidos culminou duas semanas de extenso trabalho diplomático com um exercício militar conjunto com a Coreia do Sul, que pode vir a pôr em causa a participação de Pyongyang na reunião marcada para 12 de Junho.

Donald Trump Coreia do Norte

Já não é novidade que Donald Trump rasgou o acordo nuclear com o Irão criando uma guerra diplomática com o Irão, com os países europeus signatários do pacto e com Rússia e a China que defendem a manutenção do pacto, argumentando que este impede de forma eficaz e efectiva o desenvolvimento de armas nucleares no futuro. Também não é novidade que a decisão de mudar a embaixada norte-americana em Israel de Tel Aviv para Jerusálem foi como o puxar a cavilha da situação explosiva que se vive em Gaza e o apoiar de uma insistência interminável de Benjamin Netanyahu em transformar uma cidade que sempre foi um símbolo maior de espiritualidade para três religiões num pretexto político para afirmação do seu estado.

Em duas semanas, os Estados Unidos conseguiram interferir com a política interna de, pelo menos, três países que nas suas diferenças encontram em comum este confronto com a habitual posição paternalista que leva os EUA a querer decidir sozinhos em todas as frentes. O terceiro da lista é a Coreia do Norte, com quem nos últimos tempos houve uma aproximação muito antecipada e aplaudida mas que nunca foi fácil, nem de submissão de Pyongyang face a Washington, como estes provavelmente esperariam.

Prova disso é a mais recente reacção do regime de Kim Jong-un às manobras militares conjuntas de Seul e Washington, levadas a cabo no início desta semana. Pyongyang anunciou na televisão estatal que tinha cancelado um encontro bilateral com a Coreia do Sul e acusou Seul de desrespeitar o acordo histórico alcançado dia 27 de Abril, por ter realizado exercícios militares com os Estados Unidos.

Entretanto, o Ministério da Defesa sul-coreano garantiu que os exercícios militares vão continuar apesar da “reacção irada” do Norte, uma vez que se destinam a melhorar as habilidades dos pilotos e “não são exercícios de ataque”.

O descontentamento norte-coreano, numa espécie de regresso à sua retórica tradicional, ameaça agora pôr em causa a histórica cimeira entre o líder norte-coreano, Kim Jong-un, e o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, marcada para 12 Junho em Singapura. Em declarações oficiais, o vice-ministro norte-coreano dos Negócios Estrangeiros afirmou que a Coreia não tem qualquer interesse numa cimeira de “negociações unilaterais”. Kim Kye-gwan criticou os recentes comentários do conselheiro da Segurança Nacional de Trump, John Bolton, e de outras autoridades norte-americanas, sobre como o Norte devia seguir o “modelo líbio” de desarmamento nuclear e fornecer um “desmantelamento completo, verificável e irreversível”.

O responsável também criticou outros comentários dos EUA, relativos ao abandono não apenas do nuclear, mas também das armas biológicas e químicas. “Não estamos interessados numa negociação que se reduza a levar-nos para uma esquina com a exigência unilateral de desistirmos das nossas armas nucleares, o que nos força a reconsiderar se avançamos mesmo com a cimeira entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos”, concluiu. Kim Jong-un chegou ao poder semanas após a morte do ex-líder líbio Muammar Khadafi, pelas forças rebeldes aquando de uma revolta popular em Outubro de 2011. Pyongyang usa frequentemente a morte de Khadafi como argumento para justificar o desenvolvimento nuclear perante as ameaças dos Estados Unidos.

Hoje chega a notícia de que a Coreia do Sul está a tentar reactivar a ponte entre Estados Unidos e Coreia do Norte, para tentar amenizar “algum tipo de diferenças” antes do encontro planeado. A Casa Azul refere que o governo sul-coreano e o presidente Moon Jae-in pretendem desempenhar mais activamente “o papel de mediador”.

Trump vai receber Moon Jae-in na Casa Branca a 22 de Maio para antecipar o encontro com Pyongyang. O Presidente dos Estados Unidos tem reagido com cautela perante a ameaça da Coreia do Norte de cancelar a cimeira. “Nada nos foi comunicado, não sabemos de nada. Veremos o que acontece”, disse, a partir da Sala Oval, Donald Trump, que não esconde, desde há várias semanas, o seu entusiasmo quanto ao encontro inédito com o líder norte-coreano.

Relembramos que Washington exige “a desnuclearização completa, verificável e irreversível” da Coreia do Norte mas, por enquanto, não divulgou as concessões que propõe, além dos compromissos com vista à desnuclearização da “península coreana”, uma fórmula sujeita a interpretação.