Filme português Diamantino vence Grande Prémio da Semana da Crítica em Cannes

Filme de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt conta a história de uma superestrela do futebol mundial cuja carreira cai em desgraça.

Cristiano Ronaldo – É a primeira coisa em que pensamos ao ver imagens da primeira longa-metragem de ficção de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt. Diamantino pretende ser uma caricatura aos excessos da fama. Conta a história de uma super-estrela do futebol internacional que,  depois de falhar o penálti decisivo na final do Campeonato do Mundo da FIFA entra em crise. Angustiado com a morte do pai, o tratamento opressivo das irmãs e o gozo na net pelo seu fracasso na selecção portuguesa, ingressa numa experiência científica que visa clonar o seu génio futebolista para deixar anestesiado o povo português.

 “À procura de um novo objectivo para a sua vida, Diamantino entra numa odisseia delirante, que envolve neofascismo, crise dos refugiados, modificação genética e a busca pela origem da genialidade”, lê-se no comunicado divulgado pela produtora.

Sem admitirem a inspiração no jogador português – até porque a carreira de Ronaldo não parece minimamente perto do fim – os dois realizadores explicam que quiseram fazer um filme sobre as adopções feitas pelas celebridades. Pensaram em nomes como Madonna, Angelina Jolie, mas quando decidiram filmar em Portugal, o caminho da personagem principal traçou-se de forma quase automática. Afinal, quem é o maior ícone português destes tempos, a estrela mais reconhecida lá fora e que melhor para representa o país? Cristiano Ronaldo centra em si aspectos tão portugueses como a luta pelo trabalho para sair da pobreza até à riqueza, através desse grande amor lusitano que é o futebol.

E se a inspiração não fosse óbvia o suficiente num olhar geral pelo argumento, torna-se mais evidente nos tais aspectos caricaturados do protagonista. Diamantino é um Carloto Cotta com mais 20 quilos de músculo, penteado desenhado à máquina, brincos de diamante, cara de uma campanha de roupa interior, entre outros. Só não é madeirense porque podia dar demasiado nas vistas, mas é açoriano, com um sotaque cerrado e muitas histórias da ilha para contar.

O filme, que é uma co-produção portuguesa e brasileira, venceu ontem o Grande Prémio da Semana da Crítica do Festival de Cinema de Cannes, que decorre até sábado na cidade do Sul de França. O prémio foi atribuído por um júri, presidido pelo realizador Joachim Trier e composto pelos actores Chloe Sevigny e Nahuel Pérez Biscayart. Além de Carloto Cotta, o elenco desta co-produção entre Portugal, Brasil e França inclui Cleo Tavares, Anabela Moreira, Margarida Moreira, Carla Maciel, Filipe Vargas, Manuela Moura Guedes, Joana Barrios e Maria Leite.

“Diamantino”, refere a produtora, “vai ter estreia comercial em Portugal, numa data a anunciar brevemente”.

Gabriel Abrantes e o norte-americano Daniel Schmidt têm trabalhado juntos nos últimos anos em filmes como Tristes Monroes (2017) e A History of Mutual Respect (2010).

Além de Diamantino, havia outro filme português em competição na Semana da Crítica do Festival, a curta-metragem Amor, Avenidas Novas, de Duarte Coimbra, feita em contexto escolar e produzida pela Escola Superior de Teatro e Cinema. O filme de Duarte Coimbra, de 21 anos, foi um trabalho final do curso de Realização da Escola Superior de Teatro e Cinema e estreou-se no final de Abril no IndieLisboa, nas competições nacional e internacional.

A 57.ª Semana da Crítica de Cannes, um dos programas paralelos do festival francês, termina hoje. Este ano, a abertura da Semana da Crítica ficou por conta de Wildlife, primeiro filme do actor e realizador norte-americano Paul Dano, protagonizado por Carey Mulligan, enquanto o encerramento será com Guy, do francês Alex Lutz.

Criada em 1962 para revelar novos talentos, a Semana da Crítica de Cannes é uma iniciativa do Sindicato Francês dos Críticos de Cinema. A 71.ª edição do Festival de Cinema de Cannes termina no sábado. Para o encerramento, Cannes escolheu O homem que matou D. Quixote, projecto antigo de Terry Gilliam agora concretizado, em estreia mundial no festival, com Adam Driver e a portuguesa Joana Ribeiro.