Tranquility Base Hotel & Casino: bem-vindos ao lounge de Alex Turner

A banda que começou no indie e já passou por várias identidades volta a reinventar-se.

Finalmente, os velhos Arctic Monkeys ouviram-nos e estão de volta. De volta aos riffs acelerados e sonantes, às baterias hiperactivas, aos polos e hoodies e cabelos despenteados… certo?

Errado, e quem (secretamente) ainda tinha essa esperança não podia estar mais desatento à evolução da banda inglesa. Há muito que deixaram de estar confinados ao indie rápido de guitarras adolescentes. Humbug, o terceiro trabalho de estúdio, para além de ser um dos melhores álbuns da banda, foi também importante por ter sido o primeiro a surpreender as expectativas dos fãs e da crítica. Foi o primeiro álbum onde a banda diz “nós não precisamos de fazer apenas indie juvenil, podemos fazer música sombria e introspectiva, por exemplo. Podemos explorar qualquer território que quisermos.” Foi com o Humbug que os Arctic Monkeys saíram da caixa e ganharam liberdade para lançar um musculado e sexy AM, que os elevou ao estatuto de stadium rock band.

O sexto álbum Tranquility Base Hotel & Casino volta a ser uma jogada inesperada. Os Arctic Monkeys ganharam uma clara afeição à reinvenção. Que é como quem diz, Alex Turner ganhou uma clara afeição à reinvenção.

Se até agora toda a banda pareceu caminhar lado a lado com o ex-tímido vocalista, concretizando em conjunto canções que começavam na cabeça e guitarra de Turner, Tranquility Base dá a sensação de ser o álbum mais pessoal até à data, até mais do que qualquer álbum dos The Last Shadow Puppets, que seria o escape (ainda que partilhado) de Turner – não fosse ele creditado também como produtor ao lado do já habitual James Ford.

Os riffs de guitarra foram substituídos pelos acordes de piano – onde Turner escreveu todas as canções – são raros os encontros com as melodias de guitarra distorcida a la Jamie Cook (que até sugeriu que Turner lançasse as canções num álbum a solo, numa primeira fase) e até Matt Helders, o baterista outrora carinhosamente apelidado de “Agile Beast” está agora preocupado em refrear os seus impulsos para “servir as canções”. Tudo isto não quer dizer que o álbum soe mal. Soa, aliás, muito bem.

Desde o início, Tranquility Base é um álbum quente, sujo (o bom tipo de sujo) mergulhado em ruídos de vinil, distorção analógica e delays vintage. As sinergias entre os teclados luxuosos e baixos em slow motion criam ambientes que poderiam figurar num álbum de Gainsbourg. Há arranjos de cordas preciosos e mais algumas incursões pelos meandros do RnB que contrastam com alguns mergulhos no psicadélico dark dos 70s. Turner canta como Bowie ou até como Amy Winehouse, utilizando a sua voz como nunca antes tínhamos visto, pavoneando-se pelas músicas sem qualquer preocupação em deixar para trás refrões memoráveis. 

Arctic Monkeys

Se existe um Hotel & Casino na Tranquility Base (local na lua onde a Apollo 11 aterrou), Alex Turner é o tipo que está no lounge, de luzes apagadas, a tocar as suas canções ao piano, por entre copos de vinho e cigarros. Debruça-se, acima de tudo e como só ele sabe fazer, sobre a sua condição irreparável de celebridade. Cada canção é uma colagem labiríntica de declarações irónicas ou devaneios, de tal forma que ficamos sem perceber se ele regressa vivo das suas fantasias, ou se foi sugado para sempre para dentro da personagem que retrata. A sua ironia pode ser até demasiado alienante, como admite o próprio: “I tried to write a song to make you blush, but I’ve a feeling that the whole thing may well just end up being too clever for its own good, the way some science fiction does.” 

Muito se falou do não lançamento de um single. Provavelmente, isso aconteceu por ser muito difícil encontrar algum no álbum. As canções não têm estruturas “clássicas” e servem principalmente para adornar as histórias que Turner que conta, da forma que lhe apetece.

Não serão canções que vão levar multidões de festivais a ecoar refrões em uníssono, enquanto saltam e suam. A banda não parece muito preocupada com isso, de qualquer forma. Afinal, teremos sempre os “velhos” êxitos. Alex Turner, esse, levantou voo com os Arctic Monkeys numa nave vintage de veludo movida a whiskey e aterrou-a na Tranquility Base, bem longe do planeta indie. E nós podemos ficar à espera do indie que nunca vai voltar, ou podemos ir ter com eles à base. É ouvir o sexto dos Arctic Monkeys, e decidir.

Melhores momentos: “Star Treatment”, “Golden Trunks”, “Four Out of Five”, “Batphone”