3ª Edição – Trabalho: trabalhar para viver ou viver para trabalhar?

Trabalhar para (sobre)viver faz historicamente parte do nosso ADN cultural, mas a discussão em torno dos direitos laborais em Portugal é recente.

Portugal: país de trabalhadores natos, daqueles que em todo o mundo são conhecidos por serem esforçados e desenrascados. Nação que se ergueu do ócio e que por isso nos ensinou que um emprego não é necessariamente um trabalho e que alguém trabalhador não é necessariamente recompensado com uma carreira.

Trabalhar para (sobre)viver faz historicamente parte do nosso ADN cultural, mas a discussão em torno dos direitos laborais em Portugal é recente.

O trabalho como o conhecemos hoje é uma concepção que se foi criando pós-Estado Novo – foi depois do 25 de Abril que se consagrou o salário mínimo nacional, se definiram as regras para os despedimentos colectivos ou se aplicou o pagamento do subsídio de Natal e de férias, por exemplo.

Mas o conceito, como o país, está a mudar. Se por um lado, a noção de um emprego como uma profissão para a vida e uma carreira longa está cada vez mais desaparecida, por outro, começa a privilegiar-se cada vez mais a ideia de realização pessoal. Ou então essa foi também uma ideia que mudou. Porque se antes a realização pessoal estava limitada aos objectivos – o trabalho como forma de subsistência e de providenciar uma família e futuro – hoje passa também pelo processo. Passou a ser uma prioridade para nós gostar de trabalhar. Porque o trabalho será sempre algo central nas nossas vidas – está intimamente ligado à nossa independência, financeira e não só – agora focamo-nos cada vez mais em melhorar a forma como encaramos a sua natureza inevitável.

Por outro lado, somos empurrados para isso por força das circunstâncias. Se as condições não são boas – salários, flexibilidade de horários – temos de nos agarrar ao que nos deixa mais felizes. Que realidade tão portuguesa, certo? Talvez seja por isso que também cada vez mais portugueses vão procurar realizar-se profissionalmente em realidades estrangeiras. Este fosso entre expectativas e oportunidades existe também porque temos cada vez mais acesso a mercados exteriores, onde a filosofia de trabalho é diferente da nossa, mais respeitosa das vontades e necessidades do trabalhador.

A nossa geração foi moldada para nos acharmos destinados a grandes feitos e valorizarmos a nossa individualidade… Mas depois arranjamos um trabalho e o mercado molda-nos de novo. Afinal estamos apenas destinados, no máximo, a uma vida normal – isto quando as condições não são mesmo horríveis e temos de ouvir que não há espaço para sonhar porque “sorte é termos sequer um emprego.”

Mas será que estamos mesmo? É muitas vezes de situações de precariedade e desencanto que nascem projectos como o Shifter – onde jornalistas que trabalham de madrugada para poderem servir cafés à tarde e pagarem as contas e designers e marketeers que vivem na incerteza do trabalho de freelancer podem ser os seus próprios patrões – realizados e com vontade de trabalhar naquilo que mais gostam de fazer.

É nesta ideia que nos vamos basear, neste mês que começou com o Dia do Trabalhador, para discutirmos e debatermos as novas formas de trabalho, a forma como devemos encarar uma profissão, os contrastes entre a realidade laboral portuguesa e a internacional e a entrada num mercado cada vez mais especializado (com o bom e o mau que isso traz associado). Como sempre, pedimos-te que nos acompanhes nesta reflexão e nos envies as tuas sugestões, questões e inquietações sobre este tema que é tão sugestivo, questionável e inquietante.