A iniciativa do Telegram para criar uma “nova Internet”

Uma “nova Internet” descentralizada e de todos.

A internet de hoje é em teoria descentralizada mas na prática bastante centralizada. Quer isso dizer que é “gerida” por apenas meia dúzia de tecnológicas, do Facebook à Amazon, da Google ao Twitter. Por outras palavras, os produtos e serviços destas empresas satisfazem as nossas principais necessidades humanas, permitindo-nos encontrar a informação que procuramos, receber notícias, manter o contacto com os amigos ou partilhar ficheiros. Podemos viver nesse ecossistema, não precisamos de mais, e mesmo os menos hábeis à tecnologia percebem como essas plataformas funcionam – isto é, aprendem-nas facilmente.

Se a centralização da internet a descomplica em termos tecnológicos, ao mesmo tempo dá lugar a monopólios que são controlados por grandes empresas e não pelas pessoas. As consequências disso sentem-se quando essas firmas mudam as regras para, acima de tudo, proteger os seus negócios. É neste contexto que surge o Telegram e o seu proposto TON.

O Telegram é uma aplicação de mensagens encriptadas como o WhatsApp, que saltou para o círculo mediático aquando da invasão online do ISIS. O facto de ser uma app que permite comunicar sem que essas mensagens passem por um servidor central (ou seja, em teoria não podem ser intersectadas por ninguém) tornou-se um chamariz para o auto-proclamado Estado Islâmico planear possíveis atentados.

O início do fim do Telegram

O certo é que o Telegram já se afastou desse cenário. A app tem ganho popularidade como alternativa ao WhatsApp. Mais de 100 milhões de utilizadores e 15 mil milhões de mensagens enviadas por dia definem estatisticamente esta aplicação, que oferece as funcionalidades a que estamos habituados e tem aplicações para praticamente qualquer plataforma. Mas os planos do Telegram vão muito além da app de chat – a ideia é agora criar o TON (ou Telegram Open Network), uma espécie de “nova Internet” baseada em blockchain.

Telegram Open Network / The Open Network

A Telegram Open Network será desenvolvida até 2021, ano em que deverá mudar de nome para The Open Network (mantendo-se a sigla TON) e passar a ser gerido pela TON Foundation, uma organização sem fins lucrativos. Até lá, há um longo caminho pela frente e a necessidade um processo cuidado, com um roadmap que prevê a venda dos primeiros tokens da criptomoeda que servirá de base à TON – os Grams – no início deste 2018.

Os Grams vendidos – de uma reserva de 2,2 mil milhões – só serão úteis quando a rede TON for lançada, prevendo-se que tal aconteça até ao final deste ano. Esta venda inicial destina-se apenas investidores de referência mas a ideia da equipa do Telegram é que o TON e os Grams não sejam uma cena só de geeks e muito menos de poderosos. Pelo contrário a ideia é criar o primeiro mercado massificado de criptomoedas e de aplicações descentralizadas, que qualquer um perceba como funciona com um esforço minímo. De resto, quando a TON estiver devidamente implementada (no final de 2018), esta será uma nova rede onde os internautas podem comprar Grams e gastá-los em serviços ou funcionalidades dentro da própria aplicação.

Existirá uma reserva de 5 mil milhões de Grams

O actual ecossistema do Telegram – composto por 200 milhões de utilizadores, 800 mil bots, e milhares de grupos e canais públicos – servirá de rampa de lançamento para toda a infraestrutura em rede. Através de uma carteira digital, a Telegram Wallet, os utilizadores poderão comprar e vender Grams entre si e, com a ajuda de bots, investir em publicidade nos grupos e canais, subscrever serviços, fazer doações a criadores de conteúdo e publicações, adquirir produtos, etc.

Apesar de o Telegram querer vender apenas 2,2 mil milhões de tokens do Grams, a reserva total será de 5 mil milhões. Destes, 4% servirão para cobrir os custos de desenvolvimento da TON num prazo de quatro anos; os restantes 44% serão guardados na chamada TON Reserve, de forma a proteger o valor da recém-criada criptomoeda da especulação do mercado e a preservar a flexibilidade do sistema na sua primeira fase de vida. O primeiro token será vendido a aproximadamente 0,10 dólares americanos; os seguintes serão exponencialmente mais caros.

Gráfico disponível no White Paper explicativo do TON

O blockchain como esqueleto

Com a TON, nascerá um novo mercado digital, no qual existirão validadores, pessoas que estarão autorizadas a processar as transacções e os smart contracts, que servem de base às aplicações e serviços disponíveis na rede — no fundo, chega a público o melhor da tecnologia blockchain, com os contribuidores da rede a serem remunerados em tokens, neste caso, Grams.

As Grams serão também a moeda para comprar alojamento necessário (TON Storage, que se baseará na mesma tecnologia P2P dos torrents) e registar domínios (TON DNS e TON WWW). Tudo isto tendo como esqueleto a tecnologia blockchain, com arquitectura descrita como única, escalável e que permite processar milhões de transacções por segundo.

Este TON Blockchain, como foi baptizado, procura responder directamente às limitações descobertas nas outras cripto conhecidas – tanto a Bitcoin como o Ethereum, por exemplo, não permitem mais que 7 ou 15 transacções por segundo, respectivamente, o que acaba por resultar em custos elevados por transação. Já o Telegram diz ter conseguido desenvolver um TON Blockchain que pode ser adoptado em massa, uma vez que, por exemplo, os diferentes blocos (blockchain não é mais que uma “cadeia de blocos”) podem ser divididos e unidos de forma eficiente e rápida, evitando longas filas de espera e mantendo os custos baixos.

O blockchain dará à TON a transparência e segurança que se pretende que esta “nova Internet” tenha, mantendo-a descentralizada – ou seja, nas mãos de todos. Mas o TON Blockchain, o TON Storage, o TON DNS e o TON WWW são apenas uma parte do que será a TON enquanto rede. Outra componente fundamental é o chamado TON Proxy, um proxy que garantirá a privacidade dos utilizadores e dos serviços ao proteger a sua identidade e os seus endereços IP e que evitará também qualquer tipo de censura.

Uma “nova Internet” financiada pela comunidade

O Telegram está a promover uma ICO (Inicial Coin Offering ou Oferta Pública de Moeda), que lhe permitirá custear as despesas associadas ao desenvolvimento desta nova rede. Em Março, levantou 850 milhões de dólares, que se juntaram a outros 850 milhões já angariados em Fevereiro, podendo realizar uma ou mais ofertas adicionais.

Mais de 80% deste valor está previsto ser gasto em equipamento, largura de banda, infra-estrutura web e verificação dos utilizadores; a restante fatia será para salários, escritórios e serviços legais e de consultoria necessários a toda a operação. O Telegram prevê gastar um total de 400 milhões de dólares nos próximos três anos (2018-2020), precisando de 620 milhões de dólares adicionais depois para manter o crescimento da sua base de utilizadores, permitindo-lhe superar a meta dos mil milhões em Janeiro de 2022.

Antes de ser transferida para a TON Foundation em 2021, a rede TON será gerida pelos dois fundadores do Telegram – Nikolai Durov e Pavel Durov –, que serão responsáveis pela reserva de 5 mil milhões de Grams (a TON Reserve). Nikolai e Pavel são dois entusiastas do mundo do blockchain e das criptomoedas desde meados de 2013/14; além de terem fundado o Telegram em 2013, criaram em 2006 a VK, rede social com mais de 100 milhões de utilizadores activos e que é extremamente popular em mercados como a Rússia, Ucrânia e Bielorrússia.

Nikolai Durov é, por assim dizer, o cérebro das operações, matemático e programador russo, começou a resolver equações cúbicas aos 8 anos e a programar aos 13, já concluiu dois doutoramentos e arrecadou diversos prémios. Já Pavel Durov é muitas vezes conhecido como o “Mark Zuckerberg russo” – de índole libertária, procurou junto do Governo da Rússia a desregulação e descentralização da economia local, mas acabou por ser expulso do país em 2014. Os irmãos são conhecidos no mundo das tecnologias pela sua abordagem disruptiva, como esta iniciativa prova mais uma vez. As suas criações suportam-se em protocolos por si inventados, muitas vezes, sem procurar a validação da comunidade internacional como seria expectável.

Criado em 2013, o Telegram nasceu para preservar a liberdade de expressão online, oferecendo um serviço de chat encriptado. O projecto foi sempre mantido sem fins lucrativos, uma promessa validada pelo domínio .org e possível graças à doação dos milionários Durov. Em Outubro de 2017, a aplicação – disponível para diferentes dispositivos – tinha 170 milhões de utilizadores mensalmente activos e por ela passavam 70 mil milhões de mensagens por dia. No início deste 2018, o Telegram chegou aos 200 milhões de utilizadores mensalmente activos, uma massa crítica que poderá contribuir para o sucesso da futura TON – até porque, segundo dados do Tokenmarket, 84% dos projectos baseados em blockchain têm uma comunidade activa no Telegram.

Gráfico disponível no White Paper explicativo do TON

Recentemente a aplicação tem-se visto envolta em complicações, mais uma vez por ingerência do Governo Russo, país onde a aplicação tem grande parte dos seus utilizadores. O executivo liderado por Putin anunciou que proibirá a app caso não lhe sejam facultadas as chaves de encriptação que permitem aceder ao conteúdo que circula na rede Telegram.

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