Sleaford Mods declararam independência da ZDB, em Lisboa

Os beats de Andrew Fearn são o bilhete de ida para um espaço governado unicamente pela voz de Jason Williamson – sejam bem-vindos a Sleaford.

Não durou muito tempo, mas foi quanto bastou para fazer a revolução e declarar independência por auto-determinação da pequena e carismática sala de espectáculos completamente apinhada. O espaço esgotado há já alguns dias não foi em Lisboa, embora a geografia o afirme, nem em Nottingham, como o sotaque da voz prevalente insistia em fazer crer.

Os beats de Andrew Fearn são o bilhete de ida para um espaço governado unicamente pela voz de Jason Williamson sejam bem-vindos a Sleaford. Apesar de haver dois homens aos comandos, a regra é que todos desfrutem e se sintam à vontade para se expressar, e as ordens são dadas pelo exemplo. Se Jason diz as letras com uma carga dramática digna de um palco de teatro, Andrew desfruta dos beats com um sentido rítmico que serve de compasso para a toda a plateia feita pista de dança – desengane-se quem acha que é fácil estar uma hora sem nada para fazer em palco.

Foto de Vera Marmelo

A dupla britânica, que mistura a frieza da electrónica com a emoção da poesia, transporta-nos para um estado algures onde nem as regras do senso comum prevalecem e irreverência é a palavra de ordem. Não uma irreverência infantil ou gratuita, como a que invade os tops com apologias sexuais ou violentas, mas a irreverência inflexível de quem por não se sentir livre aprende a viver no seu próprio mundo e a partilhá-lo com os outros.

As letras são honestas, humildes e anti-autoritárias. A performance é minimalista mas extravagante. O que não investem em produção ou adereços, compensam com humanidade – aquela que se transmite quando se olha o público nos olhos e se partilha efectivamente emoção.

Não houve ‘boa noite’, nem ‘obrigado’, porque a língua não é norma nesta vila de Sleaford, não há tempo a perder a meio da revolução e nos entendermos perfeitamente pelo abanar das cabeças e bater dos pés que une toda a sala.

Foto de Vera Marmelo

O concerto durou cerca de 55 minutos a um ritmo que o fez parecer mais extenso e não desapontou quem fez questão de marcar presença – na sala ou, como habitual na ZDB, no vidro. Como Jason Williamson disse, no momento da primeira saída de palco, que temos de compreender que a idade vai pesando, embora durante todo o espéctaculo não se sinta nem um bocadinho de falta de força.

Foto de Vera Marmelo
Foto de Vera Marmelo

Nesses 55 minutos, absolutamente imparáveis, houve tempo para apresentar o novo registo de longa duração – English Tapas –, mas também para servir alguns dos temas mais conhecidos. A entrega e o à vontade de Jason em cada faixa fizeram com que o nível não baixasse, nem nos temas mais recentes e, talvez por isso, menos conhecidos. O britânico de 48 anos está sempre pronto para surpreender, até o seu colega de palco. Faixas terminadas com caretas, tosse de cão, a forma única de segurar no microfone e de fazer dele uma espécie de varão móvel em torno do qual gira a actuação e, até, momentos para danças sedutoras mostram a que inspira o líder deste culto.

Foto de Vera Marmelo

Sleaford Mods tornaram a ZDB independente, com público e artistas a rejeitar toda e qualquer autoridade, num momento de expressão livre e descomprometido, sem cair no excessivamente político ou sequer contestatário. Andrew e Jason não são propriamente vozes contra o sistema, embora as suas letras por lá andem muitas vezes, mas antes fiéis representantes de um sistema alternativo ao que criticam em que se responde à realidade sem discursos utópicos, só com sangue na guelra.

(fotos de Vera Marmelo, mais aqui)