Ataques químicos na Síria: o que sabemos no meio de tanta notícia

De um lado surge o ímpeto conclusivo dos Estados Unidos que, em conjunto com os seus aliados, já falam na possível retaliação armada — recuando entretanto na iniciativa. Do outro, surge a Rússia que, apoiante do governo de Bashar Al-Assad, pede prudência e uma investigação cautelosa.

Síria ataques químicos

As notícias apontam todas num sentido impossível de ignorar, dando conta de um ataque químico de larga escala perpetrado pelo Governo de Bashar Al-Assad. A experiência em momentos como este, como há 15 anos na Guerra do Iraque, apontam no sentido inverso: quanto mais óbvias são as evidências mais devemos desconfiar. A conclusão é difícil mas a questão fundamental deve ser: será que devemos mesmo chegar a alguma conclusão ou evitar as conclusões ao ponto de nos mantermos abertos a qualquer uma? Será o julgamento prévio, a solidariedade naquele post de facebook reveladora de humanidade ou de um julgamento heurístico perante as notícias que se citam em cascata?

Num mundo em crescente polarização e com meios técnicos cada vez mais sofisticados — onde ainda há semanas assistimos ao estranho caso de envenenamento do espião russo — todas as acções nos parecem parte de uma estratégia de apologia à guerra que, aí sim, devemos conclusivamente refutar.

Trump & Cia vs Bashar Al-Assad & Cia, lda.

De um lado temos Estados Unidos, Reino Unido e França (e Israel), do outro Rússia, e Síria, essencialmente. Piões nesta guerra informacional, encontramo-nos no meio sem saber muito bem no que temos e devemos acreditar, mas resumamos o que se sabe ou… O que se diz:

As notícias apontam para um ataque químico promovido pelo governo de Bashar Al-Assad à cidade de Douma, perto de Damasco, capital da Síria, que terá exposto a agentes nocivos cerca de 500 pessoas.

Essa informação, bem como o número de pessoas atingidas, surgem em todos os órgãos de comunicação social — portugueses incluídos — como avançados pela Organização Mundial de Saúde, no comunicado em que pede acesso ao local e afirma não ter a certeza do ataque nem conseguir conseguir confirmar o seu autor, como se pode ler na notícia redigida pelo site oficial das Nações Unidas e na nota de imprensa da Reuters.

It cautioned that the WHO has no formal role in forensic inquiries into the use of chemical weapons. International chemical weapons inspectors are seeking assurances from Damascus of safe passage to and from Douma to determine whether globally banned munitions were used, though will not assign blame.

Ignorando essa questão fundamental — a confirmação do autor e, até, do ataque — fala-se já em retaliação um pouco por toda a imprensa, polarizando ainda mais a discussão e deixando a ideia de que a única conclusão possível terá de ser pro-belicismo. Assim a questão volta a repartir-se em apenas dois lados.

https://www.jn.pt/mundo/interior/ha-500-pessoas-com-sinais-de-exposicao-a-quimicos-na-siria-9250526.html

De um lado surge o ímpeto conclusivo dos Estados Unidos que, em conjunto com os seus aliados, já falam na possível retaliação armada — recuando entretanto na iniciativa. Do outro, surge a Rússia que, apoiante do governo de Bashar Al-Assad, pede prudência e uma investigação cautelosa e justa, e a Israel que pare com os ataques ao território sírio. Será este pedido exagerado à luz do que já vivemos?

Organização para Proibição de Armas Químicas ainda vai investigar

Se o número de vítimas e as imagens chocantes que vamos vendo nos impelem a abreviar até às conclusões, por outro lado este pedido parece, mais uma vez, à luz do que se passou no Iraque, uma condição que todos devíamos exigir. De resto, não deve ser ignorado o facto de num momento tão sensível surgirem a público vozes como a de Tony Blair, incentivando ataques armados, como outrora fez com o país vizinho.

Da parte da Síria, segundo a mesma Reuters, foi pedida uma investigação pela Organização para Proibição de Armas Químicas (OPAQ), a organização com competência para provar este tipo de alegação. No comunicado, divulgado pela agência noticiosa, pode ler-se que “A Síria está disposta a cooperar com a Organização para a Proibição de Armas Químicas para desvendar a verdade por detrás de todas as alegações que alguns países ocidentais têm propagado para justificar as suas intenções agressivas”.

A OPAQ não deve deslocar-se ao local, por ter sido atacada nas duas vezes anteriores em que os fez, mas segundo o seu director, já está a conduzir conduzir uma investigação através de testemunhos, recolhas de sangue e monitorização do tráfego aéreo de modo a confirmar a veracidade e a autoria dos ataques. As zonas atacadas recentemente, Ghouta e Douma, são essencialmente dominadas por rebeldes o que torna mais difícil qualquer acesso, comunicação ou confirmação.

Portanto, por muito que os posts de Facebook e os headlines falem já em retaliação, não será mais sensato aguardar para que se realize uma cuidada investigação? Importa não esquecer que dias depois da irremediável invasão do Iraque as notícias sobre a posse de armas de destruição massiva foram refutadas pelos organismos competentes, manchando de forma indelével a iniciativa bélica subscrita e apoiada por grande parte do ocidente — portugueses incluídos — para quem não restavam dúvidas.

O ponto na escolha dos lados não deve ser simplesmente a acusação. É importante percebermos onde nos situamos e como se propagam as mensagens no ocidente, pensando por exemplo no descrédito dado a Trump quando se refere a Stormy Daniels ou ao FBI, em comparação, com aquele que é dado quando afirma a autoria de um ataque químico a milhares de quilómetros do seu posicionamento. Ou pensar nas acusações de ligação entre Putin e Trump numa altura em que as posições de ambos colidem de frente.

O tom bélico e a escalada argumentativa não são necessariamente provas ou sinais de veracidade, pelo contrário, são muitas vezes propostas de conclusão indiferentes à existência ou não de provas numa jogada que em tantos outros casos já foi desmontada. Mais do que condenar — o mais que condenável, mas ainda não confirmado, ataque químico a 500 civis — é importante discernir o substrato das acusações antes de fazer disso um pretexto para aumentar o volume e magnitude do conflito ou para defender de forma acérrima uma posição. Afinal de contas, ser civil ou mesmo jornalista, não é ser juíz ou promotor de conflitos, pelo contrário, deve ser um exercício de informação e refutação constante, indiferente às partes e sensível às vidas humanas.

Hoje sabemos que nada sabemos, voltaremos a falar no assunto para corroborar a nossa ignorância ou evidenciar os factos que sustentem uma conclusão realista e ponderada. O imediatismo não é bom conselheiro e numa posição tão periférica em relação ao conflito, podemos valer-nos disso para o pensar de forma neutra sem clubismos imperialistas.

Umberto Eco disse na voz de Maia: “Quem disse que a verdade vos libertará?”