Caso Skripal: uma história de espiões com muitas pontas soltas

A discrição da espionagem esfumou-se perante a tensão internacional.

Sergei Skripal Rússia

Sergei Skripal, ex-espião russo dos serviços secretos britânicos, foi envenenado no início do mês, em Salisbury, Reino Unido. A Grã-Bretanha apontou o dedo a Moscovo e desde então que a tensão entre ambos os países aumentou, para níveis nunca vistos desde a Guerra Fria.

O Reino Unido e o MI6 são entidades constantes dos filmes de 007. As histórias de espionagem e de serviços secretos sempre fascinaram as pupilas dos espectadores do cinema. Mas a arte nem sempre imita a vida e a verdade é que nem tudo corre bem.

Sergei e Yulia Skripal foram alvo de um ataque com um agente nervoso no início do mês de março. Pai e filha, respetivamente, foram encontrados inconscientes num banco de um centro comercial de Salisbury, a cerca de 140 km a sudoeste de Londres. As vítimas foram encontradas pela polícia e reencaminhadas para o Hospital Distrital de Salisbury.

As investigações da polícia britânica decorrem e já foram divulgadas algumas das conclusões. Crê-se que o ataque terá sido perpetuado com Novichok, um agente neurotóxico desenvolvido na antiga União Soviética durante as décadas de 70 e 80. A exposição a esta neurotoxina deverá ter acontecido à porta de casa, ou seja, ao ar livre, pelo que a polícia local estima que mais de 130 pessoas poderão ter sido expostas à substância química. O governo local já tomou precauções, aconselhando a população a lavar as suas roupas e bens pessoais, assim como já prepara um plano de auxílio médico avaliado em mais de um milhão de euros.

Sergei e Yulia encontram-se neste momento hospitalizados. Enquanto o pai ainda se encontra em estado crítico, mas fisicamente estável, Yulia tem “recuperado rapidamente”, segundo as declarações da diretora do Hospital Distrital de Salisbury, Christine Blanshard: “Estou satisfeita por poder confirmar uma melhoria na condição clínica da Yulia Skripal. Tem respondido bem ao tratamento, mas continua a receber cuidados especializados 24 horas por dia”.

Contudo, o cenário não é o mais positivo. Segundo David Williams, juiz britânico do Tribunal Autónomo de Londres, as vítimas poderão não vir a recuperar a totalidade das suas capacidades mentais. “Os exames médicos sugerem que a capacidade mental pode ter ficado comprometida a um nível para já ainda desconhecido e incerto”, aferiu o juiz.

Viktoria Skripal, sobrinha do ex-espião, não acredita numa recuperação de ambos os familiares: “Sem ser os 99%, devo ter 1% de esperança”. Se sobreviverem, serão “inválidos para o resto da vida”, acrescentou.

Sergei Skripal foi um agente secreto de contra-espionagem que trabalhou para o MI6, os serviços secretos britânicos. O russo encarregou-se de divulgar dados acerca da identidade de diversos outros espiões compatriotas que operavam na Europa, além de vender segredos do regime moscovita. Em 2006 foi culpado por “alta traição na forma de espionagem” pelo Estado russo e condenado a 13 anos de prisão. Acabou por ser libertado em 2010, pelo então presidente Dmitri Medvedev.

O perdão do presidente russo foi dado no âmbito de uma troca de espiões: enquanto o Kremlin libertou 4 prisioneiros, Washington concedeu a liberdade a 10 espiões presos. Nesse mesmo ano, o Reino Unido concedeu asilo a Skripal.

Relações anglo-russas descem para temperaturas negativas

Face ao rumo dos acontecimentos e às suspeitas de envolvimento do regime russo na tentativa de homicídio de Sergei Skripal e da filha, o Kremlin desmente qualquer intervenção no caso. O Estado russo já mostrou disponibilidade para colaborar na investigação, mas Theresa May acredita que a Rússia é a responsável pelo crime.

Em discurso no Parlamento, a primeira-ministra britânica declara ser um “uso de força ilegal do Estado russo contra o Reino Unido”. “Logo, [este ataque] deve ser correspondido por uma resposta robusta”, aferiu May.

O Estado britânico estabeleceu um prazo para que as autoridades russas fornecessem uma explicação plausível para a neurotoxina Novichok ter sido usado em solo britânico. Na ausência de resposta, Londres passou à ação. Entre outras medidas, destaca-se a expulsão de 23 diplomatas russos, considerados “agentes de informação não declarados”, aos quais deu 7 dias para abandonar o solo britânico. “Têm uma semana para sair”, aferiu May.

Além disso, entre outras medidas, o governo britânico congelou todos os ativos russos – sempre que representarem perigo para a população —, pretende reformular a legislação anti-espionagem, aumentar o controlo na verificação de migrantes russos e cancelou todos os contactos de alto-nível entre Rússia e Reino Unido, como a visita do ministro dos negócios estrangeiros russo a terras de sua majestade, Sergey Lavrov, ou a presença da Família Real no Mundial de Futebol de 2018, na Rússia.

A embaixada russa em Londres respondeu às acusações de Theresa May. A representação de Moscovo em solo londrino considera a atitude do Estado britânico “hostil” e “totalmente inaceitável, injustificada e míope”. Inclusive no Twitter, a embaixada deu conta em tom humorístico da resposta do governo russo: a expulsão de 23 diplomatas britânicos do território russo. “A temperatura das relações anglo-russas baixou para -23ºC, mas nós não temos medo do frio”, tweetou.

Sergey Lavrov diz que se trata de uma “campanha de russofobia”. “A Rússia não tinha quaisquer motivos [para o ataque]”, explica o ministro dos negócios estrangeiros do país. Entretanto, Moscovo pediu para integrar a investigação do envenenamento de Sergei e Yulia Skripal, a par da Organização para a Proibição das Armas Químicas, assim como requereu uma amostra do gás nervoso às autoridades britânicas.

No seguimento destes acontecimentos, o Reino Unido pediu uma reunião de emergência do Conselho de Segurança das Nações Unidas para discutir o ataque. Também entregou uma declaração na 37ª sessão do Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas, em Genebra, na qual dava conta, além do caso Skripal, da agressão russa na Ucrânia e na Geórgia, da intervenção do país do Leste na guerra civil síria e das violações dos direitos humanos na Rússia.

Trocas e devoluções de diplomatas na comunidade internacional

O apoio à decisão do Reino Unido não tardou. Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, demonstrou de imediato solidariedade e colaboração para com o governo britânico.

No seio da União Europeia, 14 Estados-membro, incluindo França, Alemanha, Espanha ou Polónia, decidiram, em acordo conjunto, expulsar um total de 58 diplomatas russos de seus territórios. Fora da organização, a Ucrânia também expulsou 13 funcionários da diplomacia russa. Tusk afirma que, apesar destas medidas, não exclui expulsões futuras. Nota para o facto de mesmo após as expulsões a Alemanha ter celebrado um acordo que permite à gigante estatal russa Gazprom investimentos na ordem dos 9,5 mil milhões de euros no seu território.

Washington demonstra estar do mesmo lado. Ao todo, foi dada ordem de expulsão a 60 diplomatas russos de território americano, 12 dos quais eram representantes da Rússia na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque.  Segundo nota da Casa Branca, a ordem de Donald Trump procura estar em concordância com “os aliados da NATO e outros parceiros em todo o mundo na resposta ao uso de armas químicas de calibre militar pela Rússia em solo britânico”, esclarece que as “ações da Rússia têm consequências” e que os Estados Unidos estão dispostos a “construir uma melhor relação” com o país, desde que o governo russo “altere o seu comportamento”.

“Isto foi um atentado sem noção do governo [Russo] para assassinar um cidadão britânico e a sua filha, em solo britânico, com um agente nervoso de calibre militar. Isto não pode ser ignorado”, disse um oficial da administração da Casa Branca.

Além da ordem de expulsão, a administração de Trump encerrou a embaixada russa em Seattle, devido à sua proximidade de uma base de submarinos norte-americana. Também a NATO expulsou 7 representantes russos. Jens Stoltenberg, secretário-geral do organismo, afirma que é preciso existir união “na condenação desta violação imprudente das normas internacionais”.

Em resposta, Sergey Lavrov falou em “chantagem” e “pressão colossais” dos Estados Unidos sobre os seus aliados: “Quando um ou dois diplomatas são expulsos deste ou daquele país, enquanto nos sussurram desculpas ao ouvido, sabemos com toda a certeza que é resultado da pressão colossal, da chantagem colossal, que é, infelizmente, a principal ferramenta de Washington na comunidade internacional”.

“Restam poucos países independentes no mundo atual, na Europa atual”, afirmou o ministro dos negócios estrangeiros russo, Sergey Lavrov.

“Taco a taco”, “mano a mano”. Promete assim a Rússia responder às sucessivas expulsões de seus representantes na comunidade internacional. A reação é o espelho absoluto das ações dos outros países. Tal como os Estados Unidos expulsaram 60 diplomatas russos e encerraram a embaixada do país em Seattle, na Rússia o embaixador americano em Moscovo já foi informado da ordem de expulsão de 60 representantes dos Estados Unidos e do encerramento da embaixada norte-americana em S. Petersburgo.

Além dos Estados Unidos, outros países que expulsaram diplomatas russos foram visados na retaliação russa. Os respetivos representantes foram chamados às autoridades russas para serem informados da resposta “recíproca” do Kremlin, que inclui a expulsão de igual número de diplomatas de países como a Ucrânia (13), Alemanha (4) ou o Canadá (4).

“Não foi a Rússia que se envolveu numa guerra diplomática, não foi a Rússia que iniciou uma troca de sanções ou uma expulsão de diplomatas”, declarou Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin.

Relativamente ao Reino Unido, a Rússia informou, em comunicado, que deverá, no prazo máximo de um mês, “baixar o número total dos seus empregados na embaixada britânica em Moscovo e dos consulados britânicos na Rússia para o mesmo número” de funcionários da representação russa no Reino Unido. Mais concretamente, o Kremlin exige a redução em cerca de 50 funcionários britânicos.

Recentemente, a Rússia veio a público pedir esclarecimentos às autoridades britânicas pelas buscas efetuadas a um avião do país de Leste no aeroporto de Heathrow, no Reino Unido. O piloto da Aeroflot, Vitaly Mitrofanov, revelou que os representantes britânicos afirmavam que “tinham o direito de fazer o que lhes apetecesse”. Moscovo já prometeu que, sem qualquer justificação plausível de Londres, vai proceder da mesma maneira com os aparelhos da British Airways.

Portugal, a par de países como a Grécia e Áustria, faz parte dos lote de Estados que não aderiram à onda de expulsões. Augusto Santos Silva afirma que a decisão portuguesa respeita “3 critérios”: os “interesses portugueses, os interesses europeus e os interesses da Aliança Atlântica”. O ministro dos negócios estrangeiros português diz que Portugal “toma boa nota” das decisões tomadas por vários Estados-membro da União Europeia, mas acredita que “a concertação no quadro da União Europeia é o instrumento mais eficaz para responder à gravidade da situação presente”.

No total, em todo o mundo, já foi dada a ordem de expulsão a mais de 150 representantes russos de 25 países.

Mas o que é o Novichok?

O veneno Novichok é uma neurotoxina que foi desenvolvida na extinta União Soviética, nas décadas de 70 e 80. É um veneno que pode ser até 10 vezes mais potente do que o gás nervoso VX e afeta o sistema nervoso central, nomeadamente a comunicação entre o cérebro e os músculos do corpo, ao bloquear uma enzima em específico: a acetilcolinesterase, responsável pelo retorno do neurónio colinérgico ao estado de repouso. Quando esta enzima é inibida, o músculo poderá atingir uma sobre-estimulação, ou seja, espasmos musculares contínuos. Na sua pior fase, pode levar a convulsões e dificuldades em respirar, podendo levar à morte por asfixia.

Trata-se de uma arma química de quarta geração, podendo ser um pó ou uma pasta grossa que poderá ser colocada em qualquer objeto ou local. O seu desenvolvimento nunca foi declarado pela Rússia à Organização para a Proibição de Armas Químicas, apesar do país ser membro integrante. O controlo desta substância é difícil, visto que é resultante da mistura de químicos usados na agro-indústria, os quais não figuram em nenhuma lista proibida.

Segundo Mirzaianov, cientista da ex-União Soviética que trabalhou no desenvolvimento desta arma química, o Novichok não é difícil de fazer e é composto por ingredientes que “podem ser combinados em qualquer lado” e produzidos numa questão de “minutos”. Quanto aos efeitos, Mirzaianov afirma que, “mesmo pequenas doses” conseguem ter “efeitos de longa duração”.

De acordo com Alastair Hay, professor de Toxicologia da Universidade de Leeds, é provável que a substância tenha sido absorvida através da pele, situação na qual o processo de envenenamento é mais lento. No caso de inalação da neurotoxina, os efeitos revelavam-se quase instantaneamente.

O caso tem dado que tem falar em todos os universos. As conclusões antes do julgamento ou sequer da permissão para acesso aos elementos de prova são mais do que motivo suficiente para gerar discussão e polarização na opinião pública. De um lado, questiona-se qual seria o motivo para a Rússia executar agora este homem, que até já teve sob custódia; do outro, surgem aqueles para quem não há dúvidas da autoria do crime. Do lado russo, foi este sábado publicada no site da embaixada russa nos Reino Unido uma lista de questões que o Governo do Kremlin gostaria de ver respondidas, nomeadamente quais são as provas de associação ao país e como foram prontamente desenvolvidos antídotos.

Numa outra linha de discussão, em jeito de curiosidade, vários internautas estão a questionar a coincidência entre o caso real e um caso muito semelhante ocorrido numa série de ficção da BBC, em Novembro de 2017.