Milhares nas ruas de Moscovo contra o bloqueio do Telegram

No total já terão sido bloqueados perto de 18 milhões de endereços de IP’S identificados como fornecendo ligações ao Telegram.

Quando o assunto é política internacional é frequente vermos o nome da Rússia e do seu presidente servir de contra-peso para o que o ocidente vai fazendo. Putin é sempre visto como o mau da fita numa narrativa que muitas vezes carece de um argumentário lógico. É certo que as suas políticas são reprováveis e grande parte anti-democráticas, que privilegia a censura e a intimidação mas nem sempre é fácil noticiá-lo, digamos, por A+B. Se pensarmos nos últimos headlines neste sentido não será fácil encontrar um substancial. Pensemos por exemplo no caso Skripal, ainda por provar, ou no ainda mais mediático caso da ingerência nas eleições norte-americanas. Em ambos os cenários estamos perante uma espécie de acusação internacional que, se diz muito sobre a diplomacia da real politik internacional, diz pouco sobre o sentimento nacional russo — algo com que poucas vezes contactamos, salvo em raras excepções como por exemplo o filme Leviathan.

No meio dessas excepções surge mais uma fácil de compreender e rica em informação — a luta entre o Telegram e o governo russo. Um tema forte na agenda mediática russa mas que não tem merecido grande atenção por parte dos mainstream media, fazendo-nos levantar a questão sobre o foro das suas preocupações nesta guerra informacional.

A proibição da aplicação Telegram que atempadamente noticiámos tem sido nas últimas semanas motivo para um autêntico jogo do gato e do rato entre internautas e autoridades que vai crescendo de dimensão e esta segunda-feira fez mais de 10 mil russos sair à rua em Moscovo.

 

Fotografia de Vadim Preslitsky

A aplicação criada pelos irmãos Durov depois de abandonarem a Rússia em discórdia com as políticas do executivo de Putin tornou-se mais do que uma simples aplicação de chat, o símbolo de um país que quer progredir em termos políticos para campos menos controlados — recorde-se que as últimas eleições há bem pouco tempo foram muito contestadas pelo afastamento de um dos candidatos da oposição Alexei Navalny.

Em causa está algo simples mas revelador — um esgueirar único para dentro de um regime mediaticamente fechado.

As leis anti-terroristas russas determinam a proibição de aplicações completamente encriptadas como o Telegram em território russo, a menos que as chaves de encriptação sejam partilhadas com o governo local; Os fundadores da aplicação Telegram são irredutíveis na sua posição de não partilhar as chaves de encriptação com ninguém mantendo a informação 100% privada. Neste choque de ideias, entrou em acção a força coerciva russa com tentativas de bloqueio digital da aplicação e os players internacionais que lutam do lado dos fundadores.

No total já terão sido bloqueados perto de 18 milhões de endereços de IP’S identificados como fornecendo ligações ao Telegram. Neste pacote encontram-se endereços dos servidores da Google e Amazon por onde passavam do Telegram ligações para ajudar a contornar o bloqueio e, o resultado, é uma espécie de razia da internet com vários sites de terceiros, alojados na mesma morada, a serem bloqueados por tabela.

Fotografia de Vadim Preslitsky

Pavel Durov tem sido o líder do movimento de resistência que assina #DigitalResistance e pelo twitter e telegram vai controlando as tropas. Se na semana passada coordenou o lançamento de aviões de papel das janelas, esta semana foram os internautas que saíram à rua para protestar.

Numa praça central de Moscovo juntaram-se mais de 10 mil pessoas que, não só reclamam liberdade de expressão e para utilizar o Telegram como, foram mais longe pedindo uma Rússia sem Putin. Na mesma manifestação reapareceu Navalny para defender o argumentário, reiterando que ninguém tem direito de ler todas as mensagens que outrém envia, nem mesmo o governo.

Fotografia de Vadim PreslitskyO caso é revelador na mesma medida em que é metafórico. Se por vezes é dificil perceber os meandros concretos de um sistema político, é fácil perceber o que leva as pessoas a unir-se em torno de uma aplicação e a desenvolverem a partir daí um movimento de resistência. Este pode mesmo ser o momento de constatação global do problema, indispensável para a criação da solução, onde Pavel Durov assume um papel central do ponto de vista ideológico.

De resto, as figuras da aplicação rapidamente se tornaram símbolos da própria luta. Nas fotografias da manifestação é até possível ver enormes bandeiras com o Resistance Dog, um dos personagens em stickers da aplicação, ou do pequeno avião de papel.

 

Noutras notícias mas absolutamente relacionadas, o governo iraniano parece estar a preparar-se para seguir as pisadas do homólogo russo, algo que pode alargar o âmbito da luta que está a ser travada pela aplicação de mensagens que surgiu há pouco mais de 4 anos, posicionando-se desde logo com uma ferramenta de promoção da privacidade e liberdade de comunicação.

A ingerência dos governos nas políticas das aplicações é algo que tem ganho relevância nos últimos anos e um dos sintomas de mudança que o tecido social e as novas formas de opressão estão a sofrer, neste caso em países onde o estado ocupa uma posição central de regulação do tecido económico e sobretudo social.

 

Mais fotografias da manifestação nas ruas de Moscovo de Vadim Preslitsky:

 

Mais fotografias aqui.