Minds: a rede social aberta e descentralizada onde podes ganhar moedas

Pode não ser a tua próxima rede social, mas é pelo menos um conceito que nos coloca a pensar a internet e toda a questão dos dados.

O advento do blockhain e o recente caso dos Cambridge Analytica Files, envolvendo o Facebook, colocou-nos a questionar ainda mais a quem pertencem os nossos dados – se às empresas que gerem os serviços que usamos, se a nós, utilizadores. É também uma pergunta sobre se queremos total transparência ou apenas alguma, se queremos uma internet efectivamente descentralizada ou uma centralizada.

O modo de funcionamento do Facebook é fácil de resumir: colocamos os nossos dados ao seu dispor e essa informação é utilizada para a empresa fazer dinheiro; em troca, podemos usar gratuitamente a rede social. É uma relação um pouco injusta: enquanto utilizadores do Facebook, damos mais do que recebemos. É que, por mais que a promessa de conectar com os amigos e aquilo que nos interessa seja forte, a monetização dos conteúdos que partilhamos no Facebook é muito fraca (mesmo com todas as ferramentas que a empresa tem vindo a lançar para criadores e publicações).

Minds é o nome de uma rede social que é tudo aquilo que o Facebook não é: baseada em blockchain e, por isso, descentralizada, colocando o poder nas mãos dos seus utilizadores ao invés de na entidade que a representa. O Minds apresenta as funcionalidades que esperamos de uma rede social tradicional: um feed de posts, perfis, fotos e vídeos, grupos, chats… Mas todo este conteúdo está dependente de uma economia própria, promovida por numa criptomoeda baseada na plataforma Ethereum. O Minds inverte, assim, o modelo tradicional de rede social suportada por publicidade não só do Facebook mas de outras plataformas como o Twitter.

A ideia é que os utilizadores possam ganhar unidades da moeda Minds (ou seja, tokens) com base nas contribuições que façam junto da comunidade ou simplesmente despendendo tempo na plataforma. Depois podem investir no seu próprio conteúdo, promovendo-o para que chegue a mais pessoas (mesmo que elas não sejam seguidores) ou anunciando o seu canal na barra lateral do site. São os chamados Boots, em que os utilizadores podem comprar visualizações mas não podem fazer qualquer tipo de segmentação. Assim, quando trocas tokens para que uma determinada publicação tenha mais mil visualizações, a publicação será mostrada a mil pessoas aleatórias. E caso não tenhas tokens suficientes para promover os teus posts, podes sempre fazê-lo usando um cartão de crédito, sendo que mil visualizações custam apenas um dólar.

Se não seguires ninguém no Minds, é normal que o teu feed esteja carregado de publicações promovidas. Contudo, podes remover todos os Boots assinando o Minds Plus por 5 dólares por mês. Os Boots aparecem nos três feeds distintos que existem no Minds: o Top, onde podes encontrar o conteúdo mais popular da plataforma; o Subscribed, onde encontras todas as publicações das pessoas e outras contas que segues (por ordem cronológica e sem qualquer algoritmo a fazer o filtro); e o Boostfeed, dedicado exclusivamente ao conteúdo promovido.

Além dos Boots, o utilizadores podem também disponibilizar conteúdo exclusivo para quem decida apoiá-los com um determinado valor monetário, ao estilo do Patreon, e paralelamente os seguidores podem decidir fazer donativos, recompensando os criadores pelo seu conteúdo. Esta funcionalidade chama-se Wire. Como é baseado em blockchain, todas as transacções com a criptomoeda do Minds são totalmente transparentes e podem ser feitas autonomamente pelos utilizadores.

Publicar, comentar e outras formas de participação no Minds não são as únicas formas que existem para ganhares tokens. Também podes recebê-los contribuindo para o código da rede social – que é aberto – ou detectando bugs. Nem todos os tokens em circulação no Minds são baseados em Ethereum – aliás, existem de dois tipos: os tokens OffChain, que estão armazenados nos servidores do Minds e que resultaram do anterior sistema de pontuação da rede social; e os tokens OnChain, estes, sim, guardados em blockchain. Apesar de este último tipo de tokens ser baseado em Ethereum, para já, não podem ser convertidos noutro tipo de criptomoedas ou mesmo em dólares, pois o sistema ainda está muito verde.

O Minds começou a ser desenvolvido em 2011 em Nova Iorque pela mão de Bill Ottman, um jovem empreendedor norte-americano de 30 e poucos anos que, juntamente com o seu parceiro Mark Harding, queria criar “uma rede social gratuita, de código aberta e sustentável”. “Começámos o Minds na minha cave depois de ficar desiludido pelo abusos cometidos pelo Facebook e por outros grandes serviços de tecnologia quanto aos seus utilizadores. Vimos espionagem, mineração de dados, manipulação de dados e zero de partilha de receitas”, comentou ao TechCrunch.

O lançamento público da plataforma só se deu em 2015 e hoje, com mais de um milhão de utilizadores registados, dos quais apenas 110 mil estão mensalmente activos (uma dimensão bem mais reduzida que a do Facebook), o Minds conta com nomes sonantes como o grupo Anonymous e a sua equipa está a trabalhar em várias iniciativas, incluindo uma ICO, que permitirá à empresa levantar dinheiro junto da comunidade. “A nossa missão é uma internet livre com privacidade, transparência, liberdade de expressão de acordo com a lei e controlo nas mãos dos utilizadores. Adicionalmente, queremos dar aos nossos utilizadores a oportunidade de receita e a possibilidade de verdadeiramente expandirem o seu alcance e de serem recompensados pelas contribuições feitas na rede”, acrescentou Bill Ottman na mesma entrevista.

Contudo, como nota a Wired, o Minds pode ser entendido mais como um protótipo, um conceito, do que como uma rede social “a sério”. Isto porque existem desafios que, numa plataforma com o alcance do Facebook, iriam fragilizar a plataforma, como é o caso dos limites quanto aos conteúdos que são permitidos ou não. Bill diz que não se sente confortável a fazer a filtragem de publicações que, por exemplo, defendam ideologias de extrema-direita, afirmando que tal seria não só contribuir para o problema, como complicado de fazer recorrendo apenas a algoritmos de inteligência artificial. No Minds, a questão do discurso de ódio é agravada não só pelo conteúdo em si, mas pelo tempo que os utilizadores dispendem no mesmo, dado que é recompensado monetariamente através de tokens.