Mark Zuckerberg num 2º dia bem mais complicado no Congresso

Foi mais uma audição pautada por sorrisos nervosos e silêncios de dúvida — de resto, não foi muito o que Mark Zuckerberg disse e há quem até diga que deixou muito propositadamente por dizer.

Mark Zuckerberg cumpriu ontem a segunda e última audição nos círculos políticos norte-americanos. Depois de uma passagem pelo Senado para responder perante uma audiência de senadores não muito preparados para o ‘embate’, foi a vez de descer à Câmara dos Representantes do Congresso Norte-americano para 5h mais incisivas de perguntas e respostas. Notou-se desde logo um maior domínio nas matérias tecnológicas — ouviram-se alguns “consultei o meu expert em tecnologia” — e uma maior vontade em fazer perguntas incisivas.

Se mais uma vez não se ouviram propriamente novidades concretas sobre acções a tomar — isto é uma audição, não um anúncio público — algumas respostas mostram o ponto a que Mark Zuckerberg deixou o descontrolo chegar. Foi mais uma audição pautada por sorrisos nervosos e silêncios de dúvida — de resto, não foi muito o que Zuckerberg disse e há quem até diga que deixou muito propositadamente por dizer. Essa é uma das questões levantadas pelo jornalista do The Guardian, Alex Hern, que tirou a tarde para acompanhar a sessão em modo reactivo. Apontando por exemplo a preocupante questão dos ‘shadow profiles’ — perfis que o facebook mantém de utilizadores que não têm conta na plataforma — como um dos assuntos mais mal explorados e em que Zuckerberg poderá não ter contado tudo o que sabia.

Ao longo da sessão ainda houve tempo para Mark Zuckerberg dizer que os seus próprios dados foram envolvidos no escândalo Cambridge Analytica, apontando a responsabilidade para a universidade britânica de Cambridge que acusa de estar ou ter trabalhado em mais aplicações semelhantes àquela que se tornou pública como tendo sido a arma para roubo de dados.

“What we found now is that there’s a whole programme associated with Cambridge University where … there were a number of other researchers building similar apps. We do need to understand whether there is something bad going on at Cambridge University overall that will require a stronger action from us.”

Apesar do ar surpreendido empregue na questão, o departamento de estudos psicográficos de Cambridge é conhecido e até reportado com alguma frequência pela imprensa internacional pelo que aqui se estranha a surpresa de Mark. O departamento, onde trabalhava Aleksandr Kogan, é inclusive autor de um estudo em parceria com dois altos quadros do Facebook, conduzido em 2015.

O tom das questões foi de um modo geral menos curioso e mais acusatório e houve até espaço para a comparação entre Zuckerberg e J Edgar Hoover, o 1º director do FBI, conhecido pela implementação de estatégias de vigilância em massa.

No que toca a compromissos esta também não foi uma sessãofortuita com todas as questões que pedissem a palavra de Zuckerberg a merecerem respostas evasivas ou confusas. “Está disposto a mudar o modelo de negócio do facebook?” “Não sei o que isso quer dizer”; “Compromete-se a a minimizar a recolha de dados dos utilizadores?” “Isso é uma questão complexa que merece mais do que uma resposta simples” foram alguns exemplos neste capítulo.

Questionado quanto aos dados recolhidos, Mark Zuckerberg, reiterou o que tem dito nos últimos tempos: se recolhemos está no arquivo que pode ser descarregado; mais uma resposta que não convenceu totalmente os tecnófilos atentos ao debate, nem os responsáveis pela audição e que chegou a conduzir a momentos mais contundentes de pergunta resposta.

A audição deu espaço à discussão de outros tópicos como racismo ou a venda de opióides na plataforma, um sinal claro da vontade de todos os quadrantes em discutir e debater estratégias de regulação da plataforma mais eficazes do que as actualmente em vigor. Jan Schakowsky ainda protagonizou um momento caricatural para Zuckerberg lendo uma lista dos pedidos de desculpa do CEO do Facebook, dando enfâse à inação no campo da auto-regulação.

Na conclusão dos dois dias de audições no congresso fica claro a ingenuidade ou falsa ingenuidade de Mark Zuckerberg perante os congressmen, bem como a quantidade de questões sensíveis que hoje em dia passam pela plataforma. O Regulamento geral de proteção de dados implementado pela União Europeia poderá ser visto como um primeiro passo de regulação ao Facebook, algo que pode não ficar por aí, atendendo às preocupações demonstradas.

“The internet is growing in importance around the world in people’s lives and I think that it is inevitable that there will need to be some regulation. So my position is not that there should be no regulation but I also think that you have to be careful about regulation you put in place.”

Durante os dois dias de audição, a internet foi terreno fértil para o surgimento de memes e piadas. Se a maior parte acabam por se perder na espuma dos dias, alguns capturam a sensação dos dias com uma precisão irónica invejável, como este, abaixo, em que Zuckerberg aparece como protagonista de um cartaz de Black Mirror.