Mark Zuckerberg e a sua primeira aventura no congresso

Espera-se que esta quarta-feira os deputados possam vir com as questões de base dominadas e o debate possa ir mais longe, sem a necessidade de Mark Zuckerberg entrar em momentos de mansplainning em que explica dinâmicas simples da web como se os senadores fossem leigos.

Esta não é a primeira vez que o Facebook se senta a prestar explicações no meio do congresso norte-americano. Em Outubro do ano passado fê-lo lado a lado com Google e Twitter mas sob representação do seu principal advogado. Agora, os deputados não deram alternativa e quiseram mesmo ouvir o criador da plataforma, Mark Zuckerberg, no rescaldo do já muito badalado escândalo Cambridge Analytica.

A gravidade da situação revela-se até na indumentária de Zuck, que em vez do habitual griff t-shirt azul e jeans básicas, escolheu para o momento um elegante fato neutro com uma gravata azul-Facebook a conferir-lhe credibilidade e compostura. O executivo de 33 anos sentou-se na secretária de aspecto grave e antiquado, com um apoio na cadeira para lhe dar mais uns centímetros perante senadores, mas aos olhos de todo o mundo por onde se espalham utilizadores do Facebook preocupados com a sua segurança e privacidade.

A quem não podia assistir in loco ou pela televisão à audição, não faltaram alternativas para acompanhar a par e passo o grande momento de questionamento à maior rede social. Mark Zuckerberg foi durante de cerca de 4 horas bombardeado com perguntas e as respostas, sem serem propriamente surpreendentes, são importantes para perceber os caminhos futuros do Facebook.

Perante um painel composto por responsáveis das comissões Comércio, Ciência e Transportes e Judiciário do Congresso dos Estados Unidos, Mark Zuckerberg deu início à preleção com o discurso antecipado na segunda-feira, em que assumiu o erro e estabeleceu como novo objectivo “proteger as eleições de todo o mundo”, dando depois lugar ao esperado momento de perguntas e respostas.

“Senhor Zuckerberg, sentir-se-ia confortável ao dizer-nos em que hotel ficou a noite passada?”

A falta de domínio técnico das questões não permitiu aos deputados ir muito a fundo no problema mas mesmo as questões mais simples, vistas em video, acabaram por ser reveladoras. A simples pergunta sobre o hotel em que o executivo tinha ficado a noite passada foi suficiente para lhe arrancar um sorriso de nervos e uma resposta demorada, sinal claro de desconforto atenuado pelas gargalhadas e que mostrou a forma pouco empática com que o Facebook gere os seus utilizadores — querendo uma política para si mas criando uma diferente para estes.

A sessão foi muito daquilo que nos habituámos a ver nos últimos tempos da parte do Facebook: pedidos de desculpa, avanços e recuos e novos statements a prometer uma rede social melhor, mais segura e com mais privacidade. Desde o início do ano que Mark Zuckerberg tem vindo a mudar gradualmente a sua postura, assumindo-se mais humilde e aberto à mudança e ciente da necessidade de o Facebook mudar as suas regras e foi isso que reiterou perante o congresso.

Mas, em cima da mesa, por muito que as respostas fossem parcas ou esquivas estava um assunto sério e, entre promessas e desculpas, lá se ouviram algumas novidades como a referência à possibilidade de o Facebook criar uma versão paga como modelo de negócio alternativo. Em discussão em casos como este está não só a utilização dos dados por si, mas a dependência de negócios como o do Facebook da vertente comercial dos dados. Até houve quem perguntasse directamente a Mark Zuckerberg quanto tinham conseguido em anúncios baseados nos dados roubados; Mark não soube responder e voltou a mencionar “os russos” como os únicos anunciantes identificados.

Para além dos assuntos do momento, o mistério em torno das valências do Facebook deu aso a uma série de perguntas que mostram bem o grau baixo de entendimento que o mundo em geral tem das tecnologias que usa diariamente. A monitorização de utilizadores sem conta de Facebook foi um dos temas debatidos ao qual nem Mark Zuckerberg soube responder, retorquindo que iria recolher informação junto da sua equipa para que pudesse transmitir uma informação correcta.

Para além destes momentos singulares não houve muito que Zuckerberg tenha dito que seja propriamente novo. Debruçou-se sobre a necessidade de ouvir terceiros no desenvolvimento e comunicação de melhores políticas de utilização; esclareceu que o Facebook não VENDE dados, explicando como podem ser recolhidos, utilizados e rentabilizados mas não transferidos entre pessoas; e falou de regulação, em sequência daquilo que já tinha dito online, anunciado que deve estender o Regulamento Geral de Proteção de Dados Europeu a todo o mundo.

Esta foi apenas a primeira de duas audições. Espera-se que esta quarta-feira os deputados possam vir com as questões de base dominadas e o debate possa ir mais longe, sem a necessidade de Mark Zuckerberg entrar em momentos de mansplainning em que explica dinâmicas simples da web como se os senadores fossem leigos.